Como uma fábrica, o sistema judicial sustenta-se em engrenagens. Essa linha de produção é complexa e funciona, muitas vezes, impulsionada por interesses, preconceitos. Leva tempo para ganhar agilidade. Nas palavras do ministro Dias Toffoli, o mais novo dos 11 que compõem o Supremo Tribunal Federal (STF), é preciso acabar com a cultura do litígio, estimular as soluções administrativas e integrar as carreiras que fazem a interface com o mundo real. Só assim o país terá uma estrutura jurídica melhor.
Apesar disso, Toffoli diz que o acesso aos tribunais garantido no Brasil deve ser visto como referência no mundo. A burocracia no sentido virtuoso, também. É o que ele vai pregar durante o II Congresso Brasileiro das Carreiras Jurídicas de Estado, marcado para acontecer entre os dias 6 e 9 de julho em Brasília. “Será um debate de integração de carreiras voltado a um resultado: a própria integração”, resume. Ex-advogado-geral da União, Toffoli defende a conciliação do Estado com o Estado e das carreiras que dão sustentação à Justiça com elas próprias.
Inquieto, o ministro também propõe soluções que aprimorariam a relação da máquina com seus funcionários. Para ele, o Poder deve ser visto como um só: carreiras horizontais, irmãs no DNA e nas funções, pensadas como uma solução de futuro para minimizar as disputas que congestionam o funcionalismo no Executivo, no Judiciário e no Legislativo. A seguir, os principais pontos da entrevista concedida por Toffoli ao Correio.
Cultura do conflito precisa ter um fim
Marcone Gonçalves
Luciano Pires
Fotos: Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press
Vocação para a briga
No Brasil, temos a cultura do conflito: qualquer problema que leva para o Judiciário. Por que não discutir outras maneiras? As corporações gostam disso porque dá poder, dá demanda, dá justificativa para existência, dá explicação para ter bons salários etc. Não estou aqui criticando, mas é preciso parar para ver que existem outras maneiras de resolver conflitos. Desenvolveu-se a cultura de que o Judiciário é o que resolve tudo. Costumo dizer que tanto na iniciativa púbica quanto na iniciativa privada, os gestores no Brasil, seja um executivo de uma grande empresa privada, seja um executivo da área pública, um ministro de Estado, um secretário, quando ele não sabe o que fazer com um problema, manda para o jurídico. E o jurídico manda para o Judiciário. Só que o Judiciário tem várias instâncias e vários procedimentos e não vai resolver aquilo no dia seguinte. Então é uma decisão errada aquela que leva para o Judiciário aquilo que não devia estar no Judiciário. Por que a cultura jurídica no Brasil é formatada para o conflito e não para a solução? Nós, na escola, na faculdade de Direito, queremos aprender a litigar. Não se ensina a solucionar.
Acesso ao Judiciário
O acesso à Justiça em outros países é caríssimo. No Brasil, é barato. O acesso às instâncias superiores em outros países é quase somente acessível a quem tem condições econômicas. No Brasil, qualquer cidadão pode. Tem países que para se advogar em cortes supremas você tem que ter um exame específico e cobra-se uma aprovação específica para atuar naquela corte. No Brasil, qualquer advogado atua da primeira instância ao Supremo Tribunal Federal.
Linha de produção
Somos uma linha de produção de solução de conflitos em nome do Estado. O sistema judicial, seja o promotor, o advogado público ou privado, é função essencial à Justiça, ou seja, o defensor ou mesmo a polícia judiciária traz elementos para que na área criminal seja feita uma ação penal, uma investigação e uma punição, todos esses integrantes de carreiras jurídicas que compõem uma linha de produção de resolução de conflitos em nome do Estado. Eles não agem para si mesmos. Se ficar olhando só sua atividade e não ver que faz parte de uma linha de produção, vai ser um trabalhador alienado naquela mesma visão dita por Marx. O CNJ (Conselho Nacional de Justiça), ao estabelecer metas, como fez na gestão do ministro Gilmar Mendes, preocupou-se com isso. Ora, nós temos uma razão de ser, de dar uma resposta à sociedade. Ninguém pode ser promotor, juiz ou advogado público para si mesmo. As demandas não podem ficar aí sem solução.
Análise prévia
Na França, há análise prévia de constitucionalidade, mas não para todas as leis. No nosso caso, quais são as maiores demandas? Lei tributária e lei do serviço público. Onde estão os maiores problemas do ponto de vista dos chamados esqueletos? Lei tributária e lei do serviço público. Por que não há uma chancela sobre isso de imediato, para evitar milhares de demandas? Porque se a lei é inconstitucional não vai dar tempo de gerar o esqueleto para uma outra geração pagar, para outro governo pagar.
Avanços do sistema
O sistema já está se aprimorando, não há dúvida. Se você pegar o Judiciário desde a Constituição de 1988, é outro Judiciário. Com o controle prévio, o Judiciário ficará mais rápido. Para estancar os problemas da Justiça, é preciso estar sempre se falando sobre o tema. Dou dois exemplos: os judeus nunca param de falar do Holocausto. Dizem, ‘Ah, mas foi há tanto tempo!’ E algum dia a Coca-Cola ficou sem fazer a divulgação do seu produto na televisão? Todo dia que você liga a televisão estão falando da Coca-Cola. Ela não faz propaganda porque gosta de jogar dinheiro fora, mas porque é necessário. Às vezes, você tem que ser repetitivo naquilo que você pensa, que parece ser o óbvio, mas o óbvio tem que ser dito, repetido e todo dia lembrado.
Valor da moeda
Se o Estado era incapaz de dar certeza do valor da moeda, quanto mais do da Justiça. Então as pessoas não confiavam no Estado gestor, administrador, legislador. Elas buscavam o Estado juiz. A ideia de se procurar o Judiciário foi alimentada pela falência do Estado administrador no Brasil no sentido econômico, de você ter um mínimo de seriedade no valor da moeda. Não tenha dúvida de que a estabilização monetária a partir de 1994 repercute no sentido de poder ter uma diminuição da litigiosidade na medida em que, com o passar do tempo, as certezas jurídicas passam a ser maiores.
Estabilidade
Com a estabilidade econômica, muitas vezes não vale a pena ficar recorrendo porque, com os juros de mora que vai pagar, vai acabar ficando mais cara a dívida do que comprar e pagar de imediato o valor. E tem situações em que a própria União estava condenada em decisões judiciais que tinham 12% ao ano de juros de mora, sendo que em outras circunstâncias ainda tem a taxa Selic (juros básicos da economia) A litigiosidade é fruto da incerteza do resultado. Por que não se fazia acordo? Porque ninguém tinha ideia do que valeria aquilo. Vamos supor que a gente tenha um litígio ali de um aluguel de prédio que comprei e você não entregou no prazo, e aquilo está em litígio há três ou quatro anos. No passado, não havia como ter ideia de quanto valia aquilo. Não tenho ideia de quanto vai valer aquilo no mês que vem, quanto mais nesse período todo. Então você vai jogando para frente, para ver se com um plano econômico como isso vai ficar. Essa cultura do conflito tem a ver com a cultura inflacionária.
Integração
Temos uma formação em que tudo é crime hoje. A gestão pública tem a visão seguinte de que quem está fazendo algo está defendendo interesses. Esse é um outro tema que tem que se vencer na cultura brasileira. Quando você é gestor público, em qualquer decisão que você toma alguém ganha e alguém perde. Isso não quer dizer que, necessariamente, o gestor que está tomando a decisão está ganhando ou está perdendo. Então, muitas vezes, esses preconceitos precisam ser superados e só se faz isso quando se coloca as pessoas juntas.
Falsos dilemas
Você tomaria um remédio que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) diz que é ineficaz e inseguro para a sua saúde? Um remédio precisa ter segurança e eficácia. Você compraria um medicamento que a Anvisa vetou e um juiz deu uma liminar liberando? Você voaria em uma empresa aérea que a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) disse que não tem condições de voar? Dou esses dois exemplos porque o setor privado não reconhece a legitimidade dos órgãos de Estado de mérito. Não voaria em uma empresa aérea que funciona por liminar, não compraria um medicamento vendido por liminar. E os dois exemplos que eu dei são verdadeiros. No Brasil, já teve medicamento vendido por liminar e até pouco tempo atrás havia empresa aérea que funcionou por três anos com liminar contra decisão da Anac. O setor privado não vê legitimidade nesses órgãos e acaba recorrendo ao Judiciário.
RH ÚNICO
Precisamos acabar com a ideia dos poderes isolados. O poder é um só. E isso vale para a gestão dos recursos humanos também. Esse prédio do STF está registrado onde? Na SPU (Secretaria de Patrimônio do União). Não tem sentido termos analistas e técnicos como carreiras diferentes no Judiciário e no Legislativo. É preciso que seja criada uma secretaria de recursos humanos para todos os poderes, onde as carreiras fiquem sob uma única coordenação. Parece impossível, mas é preciso perseguir este caminho como fizemos com tantas outras coisas na economia e na área social.
Carreiras
O sistema judicial é composto por todas as carreiras jurídicas. O juiz, sozinho, não faz nada se não tiver demanda. Se não tiver um recurso aqui, não tenho trabalho. Para isso tem que ter o advogado, o ministério público, o advogado público, se não a demanda não chega. E essas carreiras nunca tinham tido um evento único, no qual cada um pudesse apresentar suas razões. Qual a ideia? Essas áreas todas não dialogam. Umas ficam disputando com as outras quem é a melhor, quem faz mais pela sociedade brasileira, quem é mais importante. Essa disputa ajuda a quem? Por que não dialogar em conjunto? Essa é a concepção: colocar todos, em conjunto, discutindo o sistema judicial.
Na França, há análise prévia de constitucionalidade, mas não para todas as leis. Onde estão os maiores problemas do ponto de vista dos chamados esqueletos?”
Não tenha dúvida de que a estabilização monetária repercute no sentido de poder ter uma diminuição da litigiosidade na medida em que as certezas jurídicas passam a ser maiores.”
Esta matéria tem: (21) comentários
Autor: VASCO VASCONCELOS
URGENTE AGÊNCIA SENADO: UFA! Fim do famigerado Exame da OAB conta c/ apoio de 92,82% dos internautas (A voz do povo é a voz de Deus Assim como o projeto Ficha Limpa de iniciativa popular, contou c/o apoio dos internautas.Esmagadora vitória irá facilitar a decisão do Egrégio STF a banir Exame OAB. | Denuncie |
Autor: VASCO VASCONCELOS
O Presidente do TJDFT, Lécio Resende meses atrás afirmou: EXAME DA OAB "E uma exigência descabida.Restringe o direito do livre exercício que o título universitário habilita." Nenhuma figura pálida irá me calar.Sou um minúsculo Beija-Flor tentando defender o seus filhotes das aves de rapina.BASTA | Denuncie |
Autor: roberto adolfo novais
Não aprovei sua indicação para o STF, mas vc tem razão tem questionar as transferencias de responsabilidades para o Supremo dos RHs. Falta preparo dos Dirigentes para solucionar as questões administrativas já definidas em lei. | Denuncie |
Autor: Francisco Vieira
EXAME DA OAB: Como dizia o dono de um boteco no Setor, O bom advogado não é aquele que tira melhor nota no exame, mas aquele tem tem PARENTES nos altos escalões do Poder Judiciário! | Denuncie |
Autor: Guilherme Rbr
Vasco Vasconcelos, vira o disco. | Denuncie |
Autor: Guilherme Rbr
Podia começar obrigando o Judiciário a trabalhar 8h por dia, o que daria 30% a mais de celeridade pra Justiça. | Denuncie |
Autor: Guilherme Rbr
Não devia nem ter entrado no STF, e ainda quer dar "receita" pra alguma coisa... Toffoli mostrou pro Brasil que pra ser Ministro do STF não precisa ter "notável saber jurídico" e sim "notável indicação política". | Denuncie |
Autor: VASCO VASCONCELOS
O PLS 186/2006 de Sen. Gilvam Borges tramita quase 5 anos no Senado.Já ouve audiência pública e estava na pauta de votação da Comissão de Educ. A pedido da OAB um pálido Senador/GO,solicitou a retirada da Pauta.E agora um pálido suplente solicitou debate público,. p/PROCRASTINAR A APROVAÇÃO DO PLS.. | Denuncie |
Autor: VASCO VASCONCELOS
Há meliantes de plantão que costumam depreciar os épicos lutadores Bacharéis em Direito, utilizando termos como:(ADIVOGADOS/ADEVOGADOS/ESTÃO C/MEDO? VÃO ESTUDAR VAGABUNDOS? São figuras pálidas que se escondem por trás de siglas, que só querem levar vantagem.Se não têm argumentos jurídicos CALEM-SE. | Denuncie |
Autor: VASCO VASCONCELOS
Todos tem direito de opinar; há uma cefigura pálida q sempre critica os meus pontos de vistas."Quem grita muito, é porque não tem argumentos, ou se os tem é porque são fracos" Ghandi - Sussurrava. Chaplin- Fez sucesso no cinema mudo. Agora aquele General Alemão (Ritler) - Ele gritava muito.Cale-se | Denuncie |
Autor: VASCO VASCONCELOS
Enquanto QUALIFICAÇÃO do MTE está voltada p/preparar o trabalhador p/os desafios modernos s/inserção no mercado do trab. aumentando a Produção e Renda, a "qualificação" q se diz fazer a OAB, s/adqurir um só giz,s/contratar um só prof. s/ministrar uma só aula, visa TOSQUIAR os BEL.gerando DESEMPRGO | Denuncie |
Autor: VASCO VASCONCELOS
As fraudes no famigerado, pecaminoso, abusivo, cruel, restritivo inconstitucional Exame da OAB,estão prestes a acabar.Basta o Egrégio STF colocar em pauta o RE nº 603583, que visa extirpar ESSA EXCRESCÊNCIA do nosso ordenamento jurídico.Afinal OAB ñ tem competência p/avaliar ninguém.Isso é um ABUSO | Denuncie |
Autor: VASCO VASCONCELOS
Suplico nobre Ministro e os s/pares no sentido de colocar ordem neste país.OAB vem se aproveitando dos governos fracos p/ impor o famigerado Exame da OAB, TOSQUIANDO os Bacharéis em Direito c/altas taxas R$ 250 (RO), jogando ao BANIMENTO milhares de operadores do direito aptos p/advocacia. BASTA. | Denuncie |
Autor: João Batista Martins
Para resolver os problemas do judiciário. Basta colocar MOUSE BIOMETRICO. 40% das demandas cairão como chuva. Dará maior celeridade nos processos administrativos e etc.Além claro, de reduzir as fraudes. | Denuncie |
Autor: LOURIVAL REIS
Caro ministro acho que Vossa Excelência está indo muito há França, nós queremos nossos próprios poderes, não precisamos da mesmice. | Denuncie |
Autor: Juvenal Moreira
Um ministro (do PT) que caiu de paraquedas no STF só podia falar asneiras... nada diferente poderia se esperar. | Denuncie |
Autor: Francisco Vieira
...e depois colocando horário de 8 horas de trabalhada por dia! | Denuncie |
Autor: Francisco Vieira
O nobre ministro poderia começar MELHORANDO O PRÓPRIO STF, que NUNCA condenou um político corrupto! "-Prá cima de moi????" | Denuncie |
Autor: Francisco Vieira
Não teria sido nessa "nobre corte" que um iluminado teria achado que a receita para melhorá o sistema seria EMPREGAR OS PARENTES??? | Denuncie |
Autor: Joao Neto
Bem, merece varios comentários distintos a fala do nobre ministro, contudo o que me chamou mais atenção éo fato dele achar que o poder é unico. Ele deve ter esquecido que a divisão de poderes serve justamente para liberdade democratica maior, concentra tudo dentro de um mesmo balaio é Ditadura. | Denuncie |
Autor: carlos moreira
Notem que o judiciário NUNCA atribui a si próprio a responsabilidade pela própria morosidade. Por favor Sr. Ministro: sabemos todos que muitos colegas seus mais viajam e dão palestras do que judicam. Se ministro tivesse cartão de ponto, alguns ficariam sem salário. | Denuncie |