O sonho da casa própria está tomando conta do orçamento e os financiamentos superando os gastos com itens básicos de consumo. Em 2010, os brasileiros irão desembolsar R$ 545 bilhões para sair do aluguel, de acordo com o estudo sobre hábitos de consumo IPC Maps. O montante é quase um quarto de tudo o que as famílias devem gastar no ano, recursos que sairão do bolso em prestações e estão impulsionando fortemente a demanda por crédito. Em agosto, essa procura avançou 3,6% frente a julho, atingindo o maior resultado desde 2003, quando o levantamento passou a ser feito pela Serasa Experian.
Além de moradia, o brasileiro também está em busca de geladeiras, fogões e outros itens duráveis e, mesmo após o fim do incentivo fiscal para a aquisição desses produtos, ele continua com uma sede insaciável por compras. “Todas as classes estão procurando mais crédito. Quanto maior a renda, mais se procura os financiamentos”, explicou Luiz Rabi, gerente de indicadores de mercado da Serasa Experian. Marcos Pazzini, responsável pelo levantamento do IPC Maps, detalha a informação:
“O grosso desses gastos são com o pagamento de prestações e aquisição de imóveis”.
Questões básicasAinda de acordo com Pazzini, o brasileiro está consumindo mais e financiando todas essas compras. “Ele está comprometendo menos a renda com questões básicas para consumir com mais qualidade e adquirir itens de outras categorias, que antes eram inacessíveis”, ponderou. A casa própria ganhou tamanha importância no orçamento que, fora os gastos para adquirir uma residência, o brasileiro vai desembolsar mais R$ 539,3 bilhões com a manutenção do lar. Em contraponto, alimentar-se em casa, que um dia já ocupou o posto prioritário nas contas das famílias, terá um desembolso de R$ 222,3 bilhões este ano.
 | |
| Desembolso com habitação alcançará R$ 545 bilhões este ano |
Em agosto, todas as faixas de rendimento pessoal mensal apresentaram crescimento em suas demandas por crédito. Pelos números da Serasa, os destaques foram os consumidores que ganham entre R$ 2 mil e R$ 5 mil mensais (alta de 4,3% frente a julho) e os que têm rendimento entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês (4,7%). No acumulado do ano, os consumidores de baixa renda, que ganham até R$ 500 por mês, continuam liderando a busca por crédito, registrando crescimento de 34,4% no período de janeiro a agosto de 2010 na comparação com igual período de 2009.
Serviços voltam a atrair usuárioCom o consumidor disposto a gastar por outros itens que não os de necessidade básica, o setor de serviços está bombando cada vez mais. Segundo o Índice de Confiança de Serviços (ICS), da Fundação Getulio Vargas (FGV), após quatro meses de quedas consecutivas o indicador recuperou-se e ainda retornou aos níveis pré-crise. Passou de 129,5 pontos em julho para 134,8 em agosto. O resultado indica que os empresários do setor estão confiantes nos negócios, tanto no presente como no futuro.
O momento é tão bom para quem trabalha com serviços que a quantidade de empresas no setor cresceu em ritmo explosivo. De acordo com o estudo IPC Maps, entre 2009 e 2010 houve um incremento de 18,8% na quantidade de empreendimentos do tipo no Brasil — o equivalente a quase 500 mil novos estabelecimentos no intervalo de apenas um ano. Impulsionados pela possibilidade de parcelar tudo, o brasileiro está consumindo fortemente serviços de oficina mecânica, saúde, ensino, lazer e cultura.
Essa situação favorável para os que investiram na área foi captada pelo estudo da FGV. Em agosto, a demanda chamou a atenção dos especialistas. Chegou ao segundo maior nível da série histórica (112,5 pontos), perdendo apenas para junho de 2008 (116 pontos). “A confiança está em alta e avançando”, constatou Jorge Braga, economista da FGV responsável pelo estudo. De mais de 2 mil empresários entrevistados, 23,3% avaliaram a demanda atual como forte e 10,8%, como fraca. Em julho, esses resultados haviam sido piores: 18,6% consideravam o momento como forte e 15,4%, como fraco.
O quesito que mede a situação atual dos negócios também registrou alta e chegou aos 121,8 pontos ao subir 7,3% frente a julho. O resultado é o terceiro maior da série histórica, abaixo apenas do resultado de agosto de 2008, quando a confiança no momento atual havia marcado 124,9 pontos. (VM)
O número
NOVO NEGÓCIO
Foram abertos quase
500 mil
empreendimentos entre 2009 e 2010, em reposta ao aquecimento da demanda aquecida
Corrida ao créditoEnquanto as despesas com alimentação encolhem — e na mesma trajetória seguem os itens de vestuário, fumo e artigos de limpeza —, o brasileiro passou a consumir mais viagens, eletrodomésticos, produtos e serviços relacionados à saúde e a direcionar recursos também para a manutenção e aquisição de veículos. Tudo, é claro, parcelado. Com o surgimento da nova classe média e o mercado de trabalho pujante e mais formalizado, o crédito está cada dia mais fácil. Aliás, disparou.
Os consumidores com rendimentos mensais de até R$ 500 estão recorrendo em massa ao sistema financeiro. No acumulado do ano, até agosto, eles demandaram 61,6% mais crédito do que em igual período de 2009. A parcela da população com renda entre R$ 2 mil e R$ 10 mil também destaca-se na procura por financiamentos. Na comparação com um ano atrás, esse contingente de pessoas buscou 50,5% mais recursos em empréstimos.
O Nordeste, por exemplo, que ainda é considerado um mercado de consumo em amadurecimento por concentrar uma população de recursos escassos, tornou-se a região do país que mais tem feito uso de empréstimos e financiamentos. Em agosto, esses brasileiros demandaram 7,3% mais crédito do que em agosto. Nenhuma outra região buscou tantos recursos.
ConfiançaO Sudeste figurou em segundo lugar, com avanço de 4,3% na variação mensal. “A região foi beneficiada pela recuperação da produção industrial. Gerou-se emprego na indústria e na construção civil, o que tem formalizado o mercado de trabalho e dado às pessoas acesso ao crédito”, justificou Luiz Rabi, da consultoria Serasa Experian. A empresa mostra que a confiança dos consumidores segue em alta em razão do mercado de trabalho aquecido, com aumento do emprego e da renda. Com esses ingredientes, o trabalhador sentiu-se estimulado a buscar mais crédito e arriscar-se em prestações.
No país, o resultado de agosto, na comparação com o mesmo mês do ano passado, avançou 14,3%. No acumulado do ano, a alta está em 15,3%, em relação ao mesmo período de 2009. Para o restante do ano, a demanda por financiamentos deve continuar aquecida, mas não batendo recordes, como em agosto, avalia Rabi. “O Natal está chegando e com ele vem o 13º salário. Com a entrada desses recursos na economia, o segundo semestre vai ser um período de consumo muito forte.” (VM)
Esta matéria tem: (0) comentários
Não existem comentários ainda