economia

Brasileiro destina maior parte do orçamento para adquirir a casa própria Despesa supera a com móveis e alimentos

Victor Martins

Publicação: 09/09/2010 08:14 Atualização:

O sonho da casa própria está tomando conta do orçamento e os financiamentos superando os gastos com itens básicos de consumo. Em 2010, os brasileiros irão desembolsar R$ 545 bilhões para sair do aluguel, de acordo com o estudo sobre hábitos de consumo IPC Maps. O montante é quase um quarto de tudo o que as famílias devem gastar no ano, recursos que sairão do bolso em prestações e estão impulsionando fortemente a demanda por crédito. Em agosto, essa procura avançou 3,6% frente a julho, atingindo o maior resultado desde 2003, quando o levantamento passou a ser feito pela Serasa Experian.

Além de moradia, o brasileiro também está em busca de geladeiras, fogões e outros itens duráveis e, mesmo após o fim do incentivo fiscal para a aquisição desses produtos, ele continua com uma sede insaciável por compras. “Todas as classes estão procurando mais crédito. Quanto maior a renda, mais se procura os financiamentos”, explicou Luiz Rabi, gerente de indicadores de mercado da Serasa Experian. Marcos Pazzini, responsável pelo levantamento do IPC Maps, detalha a informação:

“O grosso desses gastos são com o pagamento de prestações e aquisição de imóveis”.

Questões básicas
Ainda de acordo com Pazzini, o brasileiro está consumindo mais e financiando todas essas compras. “Ele está comprometendo menos a renda com questões básicas para consumir com mais qualidade e adquirir itens de outras categorias, que antes eram inacessíveis”, ponderou. A casa própria ganhou tamanha importância no orçamento que, fora os gastos para adquirir uma residência, o brasileiro vai desembolsar mais R$ 539,3 bilhões com a manutenção do lar. Em contraponto, alimentar-se em casa, que um dia já ocupou o posto prioritário nas contas das famílias, terá um desembolso de R$ 222,3 bilhões este ano.

Desembolso com habitação alcançará R$ 545 bilhões este ano (Jose Varella/CB/D.A Press )
Desembolso com habitação alcançará R$ 545 bilhões este ano
Em agosto, todas as faixas de rendimento pessoal mensal apresentaram crescimento em suas demandas por crédito. Pelos números da Serasa, os destaques foram os consumidores que ganham entre R$ 2 mil e R$ 5 mil mensais (alta de 4,3% frente a julho) e os que têm rendimento entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês (4,7%). No acumulado do ano, os consumidores de baixa renda, que ganham até R$ 500 por mês, continuam liderando a busca por crédito, registrando crescimento de 34,4% no período de janeiro a agosto de 2010 na comparação com igual período de 2009.

Serviços voltam a atrair usuário

Com o consumidor disposto a gastar por outros itens que não os de necessidade básica, o setor de serviços está bombando cada vez mais. Segundo o Índice de Confiança de Serviços (ICS), da Fundação Getulio Vargas (FGV), após quatro meses de quedas consecutivas o indicador recuperou-se e ainda retornou aos níveis pré-crise. Passou de 129,5 pontos em julho para 134,8 em agosto. O resultado indica que os empresários do setor estão confiantes nos negócios, tanto no presente como no futuro.

O momento é tão bom para quem trabalha com serviços que a quantidade de empresas no setor cresceu em ritmo explosivo. De acordo com o estudo IPC Maps, entre 2009 e 2010 houve um incremento de 18,8% na quantidade de empreendimentos do tipo no Brasil — o equivalente a quase 500 mil novos estabelecimentos no intervalo de apenas um ano. Impulsionados pela possibilidade de parcelar tudo, o brasileiro está consumindo fortemente serviços de oficina mecânica, saúde, ensino, lazer e cultura.

Essa situação favorável para os que investiram na área foi captada pelo estudo da FGV. Em agosto, a demanda chamou a atenção dos especialistas. Chegou ao segundo maior nível da série histórica (112,5 pontos), perdendo apenas para junho de 2008 (116 pontos). “A confiança está em alta e avançando”, constatou Jorge Braga, economista da FGV responsável pelo estudo. De mais de 2 mil empresários entrevistados, 23,3% avaliaram a demanda atual como forte e 10,8%, como fraca. Em julho, esses resultados haviam sido piores: 18,6% consideravam o momento como forte e 15,4%, como fraco.

O quesito que mede a situação atual dos negócios também registrou alta e chegou aos 121,8 pontos ao subir 7,3% frente a julho. O resultado é o terceiro maior da série histórica, abaixo apenas do resultado de agosto de 2008, quando a confiança no momento atual havia marcado 124,9 pontos. (VM)


O número
NOVO NEGÓCIO
Foram abertos quase
500 mil
empreendimentos entre 2009 e 2010, em reposta ao aquecimento da demanda aquecida


Corrida ao crédito

Enquanto as despesas com alimentação encolhem — e na mesma trajetória seguem os itens de vestuário, fumo e artigos de limpeza —, o brasileiro passou a consumir mais viagens, eletrodomésticos, produtos e serviços relacionados à saúde e a direcionar recursos também para a manutenção e aquisição de veículos. Tudo, é claro, parcelado. Com o surgimento da nova classe média e o mercado de trabalho pujante e mais formalizado, o crédito está cada dia mais fácil. Aliás, disparou.

Os consumidores com rendimentos mensais de até R$ 500 estão recorrendo em massa ao sistema financeiro. No acumulado do ano, até agosto, eles demandaram 61,6% mais crédito do que em igual período de 2009. A parcela da população com renda entre R$ 2 mil e R$ 10 mil também destaca-se na procura por financiamentos. Na comparação com um ano atrás, esse contingente de pessoas buscou 50,5% mais recursos em empréstimos.

O Nordeste, por exemplo, que ainda é considerado um mercado de consumo em amadurecimento por concentrar uma população de recursos escassos, tornou-se a região do país que mais tem feito uso de empréstimos e financiamentos. Em agosto, esses brasileiros demandaram 7,3% mais crédito do que em agosto. Nenhuma outra região buscou tantos recursos.

Confiança
O Sudeste figurou em segundo lugar, com avanço de 4,3% na variação mensal. “A região foi beneficiada pela recuperação da produção industrial. Gerou-se emprego na indústria e na construção civil, o que tem formalizado o mercado de trabalho e dado às pessoas acesso ao crédito”, justificou Luiz Rabi, da consultoria Serasa Experian. A empresa mostra que a confiança dos consumidores segue em alta em razão do mercado de trabalho aquecido, com aumento do emprego e da renda. Com esses ingredientes, o trabalhador sentiu-se estimulado a buscar mais crédito e arriscar-se em prestações.

No país, o resultado de agosto, na comparação com o mesmo mês do ano passado, avançou 14,3%. No acumulado do ano, a alta está em 15,3%, em relação ao mesmo período de 2009. Para o restante do ano, a demanda por financiamentos deve continuar aquecida, mas não batendo recordes, como em agosto, avalia Rabi. “O Natal está chegando e com ele vem o 13º salário. Com a entrada desses recursos na economia, o segundo semestre vai ser um período de consumo muito forte.” (VM)

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