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Trocar doméstica por diarista pode trazer prejuízo

Patrões demitem empregadas e as recontratam para trabalhar duas vezes por semana, a fim de reduzir gastos. Risco de processo é alto

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postado em 14/06/2015 08:02 / atualizado em 15/06/2015 13:20

Vera Batista

Com a regulamentação da PEC das Domésticas, em 1º de junho, muitos empregadores estão tentando aliviar o impacto no orçamento, que pode chegar a 66,7% a mais — de R$ 120 para R$ 200, se a funcionária tiver salário mensal de R$ 1 mil por mês. O prazo de adaptação é curto. São pouco mais de 100 dias, porque a Lei nº 150/2015 entra em vigor a partir de 1º de outubro. Uma das estratégias para economizar com os novos encargos tem sido a dispensa da empregada e a recontratação da mesma profissional como diarista.

A tática, mesmo que seja baseada na melhor das intenções, pode trazer transtornos a médio prazo. Em caso de uma reclamação trabalhista, a maquiagem se transformará em armadilha, com abalo ainda maior no bolso. Se o Judiciário, que protege sempre o lado mais fraco, entender que a atitude teve o objetivo de burlar a lei, reduzindo direitos conquistados, vai considerar a continuidade do vínculo, o que obrigará o empregador a manter o contrato anterior e a pagar multas e juros.

“Nunca pensei nessa hipótese. Confio nela (na doméstica)”, surpreendeu-se a psicóloga Valéria Braga, 65 anos. Ela diz que tem uma excelente relação com Geni, 46, que recebe R$ 1,4 mil por mês. A doméstica não dorme no emprego, tem todos os feriados e fins de semana livres e a patroa ainda paga a parcela que ela deveria arcar com a Previdência Social. Além disso, Geni tem direito a passagem de ônibus, férias e 13º salário. “Se eu pudesse, ficaria com ela pelo menos três vezes por semana, mas não posso. São muitos encargos. Vou pagar R$ 120 por dia, duas vezes por semana, mais a passagem. Ou seja, ela vai tirar R$ 960 limpos”, conta.

Valéria explica que a demissão combinada com a doméstica teve o cuidado de não deixar a renda mensal da trabalhadora cair. “Não entendo como a troca de doméstica para diarista pode ser considerada ilegal. Como eu, muita gente não sabe como se comportar. Uma moradora do meu prédio já demitiu a empregada. E ela é procuradora da República”, relata.

A psicóloga tem se esforçado para preencher o tempo de Geni e recuperar o salário dela, com quem está há quatro anos. “Já a indiquei para uma amiga que tem condições de assinar a carteira. Dei a ela um curso de doméstica, no horário do trabalho, e, agora, ela está se especializando em congelados para enfrentar a nova realidade do mercado de trabalho. Tudo por minha conta”, ressalta.

Excesso de dúvidas

Para o administrador Alessando Vieira, diretor do idoméstica.com, site especializado em folha de pagamento e orientação para empregadores, é enfático ao comentar o movimento feito pelos empregadores. “Demitir a doméstica pode resolver o problema de forma momentânea, mas recontratá-la como diarista será, certamente, um risco para o patrão”, diz. Ele conta que, desde o início do mês, o número de atendimentos da equipe de consultores de sua empresa triplicou, devido ao excesso de dúvidas sobre a Lei nº 150/2015.

Ele explica que ao trocar a trabalhadora de função, não raro, o valor pago para as mesmas tarefas acaba sendo inferior. E isso contraria as determinações da Emenda Constitucional nº 72/2013, que estabelece a irredutibilidade salarial. “É importante ressaltar que a empregada que foi demitida terá prazo de até dois anos para entrar com a ação e pleitear até cinco anos de direitos trabalhistas”, alerta.

A lei determina que a duração normal do trabalho doméstico não pode exceder a oito horas diárias ou 44 horas semanais, reforça Eduardo Marciano, da King Contabilidade. “Todo cuidado é pouco. Mais que a obediência à lei, o que se exige, agora, é uma mudança de cultura. Poucas pessoas terão condições de manter uma doméstica todos os dias”, frisa. Para quem paga apenas o salário mínimo, de R$ 788, o desembolso total de tributos com a empregada, antes da lei, era de 12%, ou R$ 94,56 mensais. Agora, a fatura passou para 20%, ou R$ 157,60.

 

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SANDRO
SANDRO - 15 de Junho às 19:28
É sabido que o Governo baixou as novas normas não para melhorar a vida dos empregados domésticos, que deveriam ser considerados autônomos... e sim para recolher mais impostos... Uma mordida nos salarios que ainda não mordia, que iniciativa privada chega a 110% do valor pago ao empregado... Demitiu, pagou todos os direitos, processo ? Só juiz do PT pra julgar dessa forma ! Mas sim o risco ocorre, a justiça trabalhista não tem nada de justiça... só faltas extremamente graves são julgadas contra o empregado, o empregador já inicia o processo com a presunção da culpa, e não de inocência como está na nossa constituição. Se demitiu como Empregada e contratou como diarista para o mesmo período... ai é precarização e merece processo, mas se for até 3 x por semana , é diarista , como prevê a lei, não cabe processo nenhum !
 
leo
leo - 14 de Junho às 12:17
Ao agir com a melhor intenção, e até de forma correta, o Legislativo passou a tratar a pessoa física empregadora como empresa. Embora os empregados domésticos careçam de melhor proteção, não há como o empregador arcar com mais custos. A médio prazo será o aumento das demissões, principalmente se a crise se agravar. Com a ausência de qualificação dos empregados domésticos, a situação social deles irá se deteriorar rapidamente.

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