Burocracia, imposto e falta de dinheiro: a saga para abrir startups no país

"Facebook e WhatsApp nunca nasceriam aqui, pois não iam encontrar investimento. Como assim, mandar mensagem de graça? Não dá dinheiro", ironiza a brasiliense Jéssica Behrens, criadora de um app de troca de produtos

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postado em 26/02/2016 10:30 / atualizado em 26/02/2016 11:17

São muitos os desafios para quem quer lançar no mercado uma nova empresa ou ideia. Ainda assim, o número de brasileiros empreendendo, em 2015, foi o maior em 14 anos, de acordo com dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2015 (GEM), patrocinada pelo Sebrae. Quatro em cada 10 adultos possuem uma empresa ou estão envolvidos na criação de uma, o que representa 52 milhões de pessoas, segundo o relatório.

O Correio conversou com três fundadores de startups sobre as maiores dificuldades para empreender no país. A brasiliense Jéssica Behrens é fundadora do tradr, aplicativo de trocas de objetos conhecido como o “Tinder dos produtos”. Roberto Mascarenhas fundou a IPe, empresa de engenharia de redes, e se prepara agora para lançar um novo empreendimento. Gabriel Braga é CEO da QuintoAndar, startup imobiliária que atua no estado de São Paulo e anunciou neste mês um aporte de US$ 7 milhões.

Sofia Lima/Divulgação


O investimento

O aplicativo tradr foi criado por Jéssica Behrens, estudante de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), e desenvolvido em Harvard. A brasiliense conta que foi mais fácil conseguir quem comprasse a ideia lá nos Estados Unidos: o processo é muito parecido, mas a diferença está no perfil dos investidores. “Os brasileiros são mais conservadores que os americanos e por isso o nosso país não desponta em relação à tecnologia e inovação”, compara.

Segundo Behrens, o investidor americano se preocupa mais com o desenvolvimento de um patrimônio e tem a mentalidade focada na próxima década. Já o brasileiro, de acordo com a empreendedora, procura mais informações sobre a monetização do produto e quer resultados concretos em poucos anos. “Ideias como o Facebook ou WhatsApp nunca nasceriam aqui, pois não iam encontrar investimento. Como assim, mandar mensagem de graça? Não dá dinheiro”, ironiza.

Roberto Mascarenhas chama os investidores brasileiros de tradicionais e afirma que são avessos a riscos. “Se a ideia parece diferente ou arriscada, vai ser muito mais difícil”, ressalta. Para o empresário, é necessário ter um modelo de negócios bem consolidado e provado para ter chance de conseguir investimento.

O fundador da QuintoAndar, Gabriel Braga, acredita que a startup foi, de certo modo, privilegiada na busca por investimento e não passou pelas dificuldades mais frequentes no mercado. “Pudemos escolher o fundo que poderia agregar mais valor, o que é raro no Brasil”, conta. Segundo o empreendedor, o diferencial foi que os investidores entenderam que o produto era único e viram na exclusividade uma oportunidade.

Jéssica explica que essa mentalidade do investidor está relacionada ao modo como o brasileiro encara o empreendedorismo. “Aqui, é mais valorizado ter um emprego estável, então há um entrave psicológico para ter uma postura empreendedora”, afirma. A brasiliense conta que já ouviu muitos comentários sobre a “facilidade” de trabalhar com aplicativos, mas explica que se trata de um emprego em tempo integral e que trabalha 14 horas por dia para garantir o sucesso do tradr.

A burocracia
“Inscrevi o projeto em Harvard, eles gostaram e perguntaram meu nome e e-mail. Pediram só isso porque estavam interessados”, conta Jéssica Behrens, que, antes de levar o projeto para os Estados Unidos, já havia tentado desenvolvê-lo na UnB. A estudante afirma que, na época, só tinha a ideia e precisava de apoio para criar o aplicativo. Mas, para fazer isso na universidade, precisaria de CNPJ, contador, advogado e contrato social, investimento inicial que poderia chegar a R$ 1 mil. “A burocracia mata. Só aí, já morre um monte de gente que poderia ter tido sucesso”, diz.

A principal característica de uma startup é que é um tipo de negócio que deve evoluir rápido e precisa ser escalável. Mas, para isso, Behrens destaca que é preciso gastar o mínimo possível até descobrir como monetizar o produto; por isso, muitas startups começam na informalidade. A pesquisa GEM 2015 evidencia que, dos novos empreendedores, apenas 17% tem CNPJ, mas que ter o cadastro diferencia positivamente o negócio.

Para Mascarenhas, a burocracia no país é algo a ser esperado no cotidiano do empreendedor. “Tem gente que vende como algo muito ‘glamuroso’, mas 99% da vida é dificuldade”, afirma. O empresário destaca ainda as complicações tributárias: além do número de impostos, ele conta que é difícil descobrir quais são e como pagá-los.

André Penha (esq) e Gabriel Braga (dir), co-fundadores da startup QuintoAndar.com


A mão de obra
Gabriel Braga, CEO da QuintoAndar, testemunha que é difícil encontrar as pessoas certas para trabalharem no empreendimento. O processo é demorado e caro, segundo o empresário, mas vale a pena ter a “equipe que vai fazer o negócio crescer de um jeito legal”. A startup paulista, fundada em 2013, procurou profissionais com experiência em empresas como o Google e a Microsoft.

A dificuldade de encontrar mão de obra qualificada é ainda mais forte na área de tecnologia, segundo Jéssica Behrens. “Progamadores são caros e, com tanta oferta de emprego, é difícil manter o profissional com você”, explica a empreendedora, que completa: “Conheço muita gente com boas ideias, mas falta quem execute”.

A solução encontrada por Roberto Mascarenhas na empresa IPe foi investir na formação dos profissionais. “Contratamos pessoas novas e com pouca experiência, mas com muita garra”, completa.

Investidor anjo x venture capital

O processo para conseguir investidores é dividido em etapas. Jéssica Behrens explica que o aporte inicial geralmente vem do bolso do próprio empreendedor ou da contribuição de amigos e familiares. Depois, vem o investidor anjo, que contribui com uma quantia pequena, mas fundamental para o desenvolvimento do negócio ainda “em fase de prototipação” (testes). É uma pessoa física que está interessada no futuro do projeto. Quando a empresa amadurece, passa para o investimento de venture capital: nesse estágio, já tem um número maior de usuários e monetização.

Gabriel Braga, da QuintoAndar, conta que o investimento de US$ 7 milhões recebido pela startup veio de um investidor de venture capital, chamado de investidor de risco. As empresas que precisam captar recursos passam por várias rodadas de investimento. “A ‘rodada A’ é o primeiro marco no crescimento, quando entram investidores especializados. São muito exigentes e dão aportes para menos de 1% das empresas que os procuram”, afirma. Em troca, as empresas de venture capital recebem uma participação no negócio.
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Davi
Davi - 26 de Fevereiro às 12:57
Acredito que o mais difícil seja encontrar quem financie o projeto, e uma vez que o capital é conseguido, a burocracia do nosso país bate muito forte à porta!