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Com disciplina, idosos colhem bons resultados ao investir em ações

Assim como Sara, 92.449 brasileiros com 66 anos ou mais são acionistas de empresas de capital aberto

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postado em 23/10/2016 08:01

Antonio Temóteo



A servidora pública aposentada Sara Joffily, 66 anos, investiu pela primeira vez na bolsa de valores no fim da década de 1980, por recomendação de um tio que faturava altas quantias no mercado. Ela não teve a mesma sorte, e acumulou alguns prejuízos naquele período. Mas perseverou. Teve disciplina para não resgatar os investimentos em períodos de baixa. E, nos momentos de bonança, sangue frio para assumir riscos em busca de maiores retornos.

Nos quase 30 anos de experiência com ações, Sara já fez de tudo. Comprou papéis por conta própria, usou os serviços do banco do qual é correntista, entregou as aplicações para serem administradas por um sobrinho. Finalmente encontrou uma gestora independente que lhe garante retorno acima da média do mercado.

Com hábitos espartanos, sempre gastou menos do que ganha. Há oito anos, passou a reinvestir os dividendos recebidos e a colher os louros por ter perseverado. “Em  vez de dar um carro para meu neto quando completou 18 anos, dei uma aplicação em ações. Ele não teria dinheiro para a gasolina. Então eu disse que a prioridade era ele aprender a gerenciar o dinheiro”, lembra.

Assim como Sara, 92.449 brasileiros com 66 anos ou mais são acionistas de empresas de capital aberto. Esse grupo tem R$ 53,5 bilhões em papéis, o equivalente a 43% de tudo o que é investido por pessoas físicas nesse tipo de papel. Quando são incluídas pessoas a partir de 56 anos, o montante chega a 66%. Mais experientes e com tempo para se informar sobre as melhores aplicações, os idosos lucram no mercado de capitais. “Nunca tive medo de assumir riscos. Em alguns momentos, os consultores que me assessoram precisam frear o meu ímpeto”, conta a servidora aposentada.

Ela também afirma que a disciplina e o sangue frio para manter os investimentos, mesmo em períodos de prejuízo, foi essencial para conseguir retornos maiores posteriormente. “Os mais jovens são impulsivos e impacientes. Quando o período não é favorável, fogem da bolsa. E, nesse momento, existem boas oportunidades”, diz. Outra receita do sucesso de Sara está na aplicação em empresas que distribuem bons dividendos. “Consegui pagar um investimento imobiliário com os dividendos que recebi por um tempo. Agora faço o reinvestimento do que ganho para multiplicar os retornos”, revela.

Para o economista Ricardo Rocha, professor da escola de negócios Insper, é fácil compreender a desconfiança de milhões de brasileiros em relação à bolsa de valores. “Desde 2009, o mercado vinha registrando resultados ruins. Mesmo nos anos em que o saldo foi positivo, os rendimentos ficaram bem abaixo das taxas de juros. E, desde de 2012, a situação se agravou. Só ficou melhor neste ano”, afirma. O Ibovespa,  principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) acumula alta de 47,89% em 2016.

Na visão de Rocha, será preciso um longo trabalho de educação para convencer os brasileiros de que parte dos investimentos deve ir para as ações, pois, ao longo do tempo, o retorno é garantido. Ele ressalta que, nos períodos em que a estabilidade econômica prevaleceu, a inflação ficou sob controle e o país cresceu, o número de investidores na bolsa aumentou significativamente. Hoje, está decrescendo, totalizando pouco mais de 556,9 mil pessoas. Em 2010, eram 610,9 mil.

Muitas trocaram o sobe e desce do mercado pelo conforto dos juros altos pagos pelos títulos públicos do Tesouro Direto. Rocha alerta que, nos próximos anos, investir em ações será um ótimo negócio. Para que os brasileiros acreditem nisso e se aventurem em um mercado de risco, será preciso que o governo retome o controle da economia. Rocha destaca que há medo natural de aplicar parte da poupança em ativos variáveis. Mas o temor aumenta quando o país está mal, combinando recessão grave com crise política e desequilíbrio nas finanças públicas.

Herança

O administrador Alberto Macedo Júnior, 59 anos, mantém as ações que recebeu na década de 1990 como herança, após a morte da mãe. Ele lembra que o pai operou no mercado de capitais entre 1970 e 1990 e muitas das viagens de família foram custeadas com os dividendos recebidos no fim de ano. Boa parte dos papéis está aplicada em ações de empresas de petróleo e, mesmo com a crise que atingiu o setor no país, Macedo Júnior mantém o investimento. “Quem segurou os papéis da Petrobras, mesmo quando chegaram a R$ 5, já garantiu uma valorização absurda neste ano”, diz.

O segredo do sucesso do pai, diz o administrador, sempre foi contar com assessoria especializada. Sem condições de receber a mesma ajuda, ele afirma que é mais cauteloso. “O momento é da bolsa. Ela chegou a cair para 40 mil pontos e agora está em mais de 63 mil. O país estava barato e ainda há oportunidades. Basta ter paciência e gastar tempo analisando o mercado para encontrar boas ações”, afirma.

A maturidade dos investidores idosos garante melhores retornos, avalia Karoline Lima, analista de investimento do BullMark Financial Group. Ela explica que essas pessoas já acumularam capital ao longo da vida e se propõem a destinar um percentual significativo dos investimentos para a renda variável, em busca de maior rentabilidade. “Esse grupo tem disposição de correr riscos para ter mais retorno”, resume.

Conforme a analista, uma característica dos mais velhos é buscar papéis que distribuem bons dividendos. “Eles gostam de empresas resilientes a crises, com geração de caixa expressiva e com uma administração sólida e capacitada”, comenta.

Karoline destaca que 25% de seus clientes têm mais de 60 anos e 35% dos recursos que gere são de pessoas nessa faixa etária. Conforme ela, uma carteira estratégica está rendendo até 45%, com o bom momento da bolsa.

A analista observa que boa parte dos resultados é fruto da gestão ativa dos profissionais capacitados e do bom relacionamento com os clientes. Nada é feito sem a aprovação deles. “Quem não tem a ajuda de um profissional pode passar por situações desagradáveis,e acaba fugindo da bolsa”, destaca.

Entrar para o mercado de ações não se restringe à compra de ações diretamente no pregão. Há a alternativa dos fundos de investimentos oferecidos pelos bancos. O grande problema é que as instituições financeiras nem sempre explicitam as taxas que cobram e quais são os papéis que compõem as carteiras. As pessoas mal sabem no que estão aplicando. E quando veem números ruins, acabam se decepcionando. Procurar assessoria que cobra taxas justas por um bom serviço também é segredo de sucesso.

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