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Divida atrapalha retomada de empresas, 54,9% não conseguem pagar juros

Das 605 maiores empresas, 54,9% não conseguem sequer pagar juros. Perspectiva é de quadro melhor, mas agravamento é risco

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postado em 24/10/2016 06:00

Rodolfo Costa

As grandes empresas brasileiras estão mais endividadas do que nunca. Em 2015, de 605 companhias não financeiras, 49% apresentaram fluxo de caixa inferior às despesas, de acordo com o Centro de Estudos do Instituto Ibmec (Cemec). Em 2010, era quase menos da metade disso: 22,6%. E a situação já mostra um quadro de deterioração em 2016. Do total de instituições pesquisadas, 256 são de capital aberto. Dessas, 50,2% não tinham recursos sequer para custear os gastos financeiros. Em 12 meses acumulados até junho deste ano, esse número saltou para 54,9%.

O economista e consultor Roberto Luís Troster avalia que seja necessária uma mudança urgente na dinâmica de crédito. “É preciso estender os prazos para pagamentos e reduzir as taxas de juros. O mercado de crédito, hoje, vive um círculo vicioso em que a taxa sobe, elevando a inadimplência, que gera mais aumento de taxa e calote. É preciso romper essa dinâmica em espiral”, avalia.

Esse cenário ajuda a explicar a dificuldade que o país enfrenta para sair da maior recessão já registrada. Mesmo que queiram investir, muitas dessas companhias não conseguem obter financiamento. Para as famílias tampouco é uma boa notícia. As demissões vão continuar por mais tempo. Como em um efeito em cadeia, esse movimento resulta em menos rendimento disponíveis para consumo, adiando o crescimento econômico.

Há riscos de o quadro se deteriorar ainda mais do que a média das expectativas. As dificuldades em cumprir com os débitos podem provocar uma crise sistêmica. Sem caixa para honrar as dívidas, as grandes empresas devem atrasar obrigações com bancos, provocando um aumento de risco em instituições financeiras. Diante disso, o custo do crédito tende a permanecer em patamares elevados por mais tempo, como também gera um ambiente de menor oferta para financiamento de outras companhias.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou no relatório de “Estabilidade Financeira Global”, divulgado no início deste mês, que a dívida de empresas em situações delicadas, com lucro insuficiente para cobrir o pagamento de juros, está em US$ 51 bilhões. Em caso de a economia não se recuperar, esse valor pode subir a US$ 88 bilhões em cinco anos.

A dívida total das grandes empresas – ou seja, considerando outras que não estejam em situação tão delicada –, no entanto, é bem maior. As 605 empresas estudadas pelo Cemec, sendo 256 de capital aberto e 349 de capital fechado, responderam por uma dívida bruta de R$ 1,91 trilhão em 2015, o equivalente a 56,2% do total da dívida de todas as empresas não financeiras do país, acumulada em R$ 3,4 trilhões no ano passado. E somente 77 companhias representavam 80% da dívida bruta, tanto em crédito bancário, quanto em dívidas corporativas externa e do mercado de capitais.

Descompasso
O descompasso entre caixa e dívidas impressiona. Em 2010, o fluxo de caixa das empresas estudadas respondiam por 20% da receita operacional líquida. Em 2015, caiu para 10%. Na contramão disso, a dívida financeira que, há seis anos estava em 30% da receita operacional líquida, subiu para 44% no ano passado. O diretor técnico do Cemec, Carlos Antônio Rocca, destaca que as empresas foram atingidas em cheio pelo que ele chama de “tempestade perfeita”.

“O que aconteceu foi um cenário de recessão muito forte que reduziu a receita de vendas. Aliado a um aumento muito forte do câmbio e da taxa de juros, que aumentou o custo da dívida, tudo isso levou à menor geração de caixa para o pagamento das despesas financeiras”, destaca.

Rocca, no entanto, descarta um ambiente de crise sistêmica no país. “São empresas boas e que têm condições de sobreviver. De modo algum os números justificam alguma proposição de que estão quebradas. Simplesmente foram surpreendidas e estão enfrentando uma conjuntura excepcionalmente negativa. Os bancos estão absolutamente conscientes e renegociando as dívidas com as companhias”, afirma.

Mesmo no crédio direcionado, em que os juros são subsidiados, há problemas. Em julho deste ano, a taxa média de juros das operações de crédito para financiamentos com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) — o principal financiador das empresas com faturamento anual acima de R$ 300 milhões — cravou em 12,8%, de acordo com dados do Banco Central (BC). É o maior valor da série histórica, iniciada em março de 2011. A inadimplência nesse modelo de financiamento está em 1,1%, nível histórico nunca antes observado.

Para 2016, o cenário dificilmente se reverterá. Com o aprofundamento da recessão e deterioração do mercado de crédito, as grandes empresas devem seguir com dificuldades para cobrir as despesas com os recursos gerados em caixa. Mas a situação mais crítica já passou, avalia Flávio Calife, economista do SCPC Boa Vista. “A atividade econômica já começa a dar sinais de melhora”, avalia.

O ajuste está vindo com a própria crise. Com menos demanda por produtos e serviços, os preços estão caindo no mercado consumidor e gerando menos pressão de custos para as empresas. Já o câmbio se mantém em um patamar mais favorável para negócios no ambiente doméstico. O mercado de trabalho segue uma dinâmica mais lenta de ajuste. Mas, se o governo federal conseguir apoio do Congresso Nacional para aprovar propostas importantes do ajuste fiscal, a expectativas de volta dos investimentos e de preservação de empregos. “Tudo pode acontecer, mas alguns grandes obstáculos já foram superados e, agora, a economia está encaminhando para a normalidade”, frisa Calife.

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