Plano safra terá R$ 190 bi em crédito para médios e grandes produtores

Utilização dos recursos tem caído nos últimos anos devido à crise

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postado em 08/06/2017 06:00

O governo lançou ontem, em solenidade no Palácio do Planalto,  o Plano Agrícola e Pecuário 2017/2018. A promessa é disponibilizar R$ 190,25 bilhões em crédito rural para médios e grandes produtores entre 1º de julho deste ano e 30 de junho de 2018. O volume é recorde. No evento, o presidente Michel Temer disse que o programa vai ajudar a economia brasileira a se recuperar. “Estamos lançando as bases para um 2018 muito próspero. O plano é isso: planejamento. Não há espaço para improvisações”, destacou.

 

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No entanto, a utilização efetiva dos recursos pode ficar abaixo desse valor, como tem ocorrido nos últimos anos. Antes do Plano Safra 2014/ 2015, quase 90% dos recursos disponibilizados eram efetivamente tomados pelos produtores rurais. Com a crise econômica, essa proporção vem caindo. Na safra atual, o governo anunciou R$ 183,8 bilhões, dos quais R$ 113,9 bilhões foram efetivamente utilizados. Ou seja, 62% do total disponível.

A redução, porém, não tem afetado igualmente todos os produtores. Segundo o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, o crédito do Plano Safra atende majoritariamente a produtores do Sul e do Sudeste.  

Grandes empresários, sobretudo da região Centro-Oeste, têm obtido recursos de outras formas, como financiamento de empresas comercializadoras ou  venda antecipada da safra. Isso explica porque, apesar da menor utilização dos recursos oficiais,  o país está tendo este ano uma colheita recorde de grãos e o setor agropecuário tenha crescido 13,4% no primeiro trimestre, conforme dados do IBGE.

A queda na tomada efetiva de recursos do Plano Safra reflete a deterioração da economia. O aumento dos juros e a retração dos investimentos elevou a inadimplência no crédito rural. Para empresas rurais, a taxa subiu de 1,09%, em abril de 2016, para 1,33% em abril passado. Nas linhas para pessoas físicas, a inadimplência passou de 1,48% para 2,65% no mesmo período.

Somente o aumento do calote, no entanto, não justifica a redução de recursos tomados nos sucessivos planos de financiamento da safra, ressalta Antônio da Luz. “Estamos falando das menores taxas de inadimplência entre todas as linhas de crédito”, sustentou. A principal causa, avalia, é a queda do funding do crédito rural.

O crédito rural advém de parcela dos depósitos em conta corrente e em cadernetas de poupança, além de fundos específicos. Porém, devido ao alto endividamento das famílias e ao aumento do desemprego, a disponibilidade para o crédito rural ficou menor. Desde 2015, os depósitos em poupança caíram 18%, enquanto os depósitos à vista recuaram 36%.

Seletividade


Diante da necessidade de equilibrar uma demanda maior dos produtores com a menor oferta de recursos, as instituições financeiras estão jogando para cima o nível de risco dos produtores, diz Antônio da Luz. “Dessa forma, os bancos e cooperativas estão adotando uma maior seletividade na concessão de crédito”, afirmou.

No Plano Safra 2014/2015, foram celebrados 721,7 mil contratos de financiamento. No período seguinte, foram 495 mil, ou seja, uma queda de 31,4%, ressalta o economista da Farsul. “Muitos produtores não estão conseguindo obter recursos, ou pegando menos que o limite.” Segundo ele, o Mapa deve procurar meios de mudar o panorama. 



  • Choque de realidade
    O governo lança o Plano Agrícola e Pecuário 2017-2018, mas os recursos efetivamente usados podem ficar aquém do anunciado pelo governo

    Recursos
    O plano anunciado destinará R$ 190,25 bilhões a médios e grandes produtores rurais. É o maior valor já anunciado.

    Histórico
    Nas últimas cinco edições do plano, o valor anunciado cresce ano após ano, mas o valor retirado nunca chega ao total, de modo que a proporção utilizada cai desde então.

    Safra     Anunciado (em R$ bilhões)    Retirado (em R$ bilhões)    Efetivamente utilizado (em %)

    2012-2013    115,3    109,8     95,2
    2013-2014    136,0    133,0     97,8
    2014-2015    156,1    132,3     84,7
    2015-2016    187,7    143,9     76,7
    2016-2017    183,8    113,9*     62,0
    * Valores retirados até maio

    Causas
    » A redução na proporção dos recursos efetivamente utilizados é explicada pela crise econômica
    » Inadimplência: as dificuldades financeiras levaram muitos produtores a atrasar os pagamentos. Com isso, o acesso ao crédito fica mais restrito.
    » Parte dos depósitos à vista ou em poupança são destinados ao crédito rural. Com o aumento do desemprego, muitas famílias perderam a renda e sacaram os recursos da caderneta de poupança para quitar dívidas. Isso reduziu a disponibilidade de recursos para o crédito rural e tem levado os bancos a serem mais seletivos na concessão de financiamentos.
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