Crianças devem trabalhar para fugir do crime? Especialistas negam relação

Com o aval de boa parte dos brasileiros que ainda consideram vantajoso começar ganhar dinheiro cedo, 2,7 milhões de crianças entre 5 e 17 anos estão nessa situação

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postado em 12/06/2017 06:00

Ed Alves/CB/D.A Press
 

 

Nesta segunda-feira, 12 de junho, as preocupações não são — ou não deveriam ser — apenas com qual é o melhor presente do Dia dos Namorados. A data marca, pela 15ª vez, o Dia Mundial do Combate ao Trabalho Infantil, sem muito para se comemorar, especialmente no que diz respeito à evolução da mentalidade social sobre o assunto. Com o aval de boa parte dos brasileiros que ainda consideram vantajoso começar ganhar dinheiro cedo, 2,7 milhões de crianças entre 5 e 17 anos estão nessa situação, muitas sob o argumento de que “é melhor trabalhar do que ir para o crime”. Quando a exploração é travestida de preocupação, fica mais fácil ignorar o problema social exposto diariamente nas ruas na forma, por exemplo, de pequenos vendedores ambulantes, empacotadores de compras ou vigias de carros.

 

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Apesar de o senso comum dizer o contrário, especialistas consideram que não há relação direta entre começar a trabalhar cedo e se livrar de uma trajetória de crimes. Se fosse simples assim, 85% dos detentos do Carandiru, em São Paulo, não teriam começado a trabalhar ainda na infância, como mostra a dissertação de mestrado do hoje desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) do Paraná. Na verdade, a relação está mais perto de ser a contrária, já que o trabalho infantil leva muitos jovens a saírem da escola ou subaproveitarem as aulas, e a baixa escolaridade é um fator em comum entre a maioria dos presos.


Frustração

Sem estudo de qualidade e explorados desde cedo, o potencial de crescimento profissional e financeiro dessas pessoas é mais baixo do que o das que começaram mais tarde. A frustração, ao se dar conta disso, também é maior. Sônia*, por exemplo, ficou três anos sem estudar quando foi trabalhar como doméstica em uma casa de família, aos 14 anos. A patroa, que se recusava a pagar um salário e controlava até o que ela vestia, não entendia o porquê de mantê-la na escola, já que a menina já tinha um emprego. “Esse é um vício que precisamos romper. Para que cresçam bem e ajudem no desenvolvimento da sociedade, crianças e adolescentes precisam estar na escola”, defende a gerente executiva da Fundação Abrinq, Denise Cesario.

Outro obstáculo que precisa ser vencido, na opinião dela, é o de usar como exemplos pessoas que trabalharam cedo e se tornaram bem-sucedidas. “O fato é que elas se deram bem apesar disso, não por isso. São exceções bem pontuais e não refletem a grande maioria dos casos”, garante Denise. Ela acrescenta que, como o processo de escolarização fica prejudicado nessas situações, certamente a criança estará menos preparada para o mercado de trabalho. “De forma geral, ela não terá condição de se preparar para concorrer com quem tem os direitos assegurados.”

Foi preciso muita insistência para que Sônia voltasse a frequentar uma sala de aula, e só durante a noite, após trabalhar das 6h até o último minuto antes de a professora começar a falar. Devido à rotina pesada de trabalho, quase nunca conseguia fazer os deveres de casa ou estudar. Ela terminou o ensino médio e ficou longe de crimes — e também de amizades, porque estava sempre cansada e com pressa —, mas a renda nunca evoluiu muito. Hoje, aos 38 anos, Sônia continua ganhando pouco mais que um salário mínimo como empregada doméstica.

Estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) ilustra bem a relação entre o trabalho precoce e a evolução educacional. Uma criança que trabalha de forma integral durante a infância diminui para apenas 25% as chances de terminar o ensino primário, constatou o autor da pesquisa, Emerson Ferreira Rocha. “Em outras palavras, pessoas que trabalharam dessa maneira têm apenas um quarto das chances de completar o ensino primário, em comparação com as que não trabalharam antes dos 18 anos”, explica o pesquisador, no estudo.

Essa relação se repete em todas as categorias de trabalho juvenil, a não ser o de adolescentes em tempo parcial. Só três em cada 10 crianças que conseguem terminar o primário e ainda trabalham têm chances de ir até o fim do ensino fundamental, comparando com as que apenas estudam. “Quem trabalhou durante a infância, de maneira geral, também não completou o ensino fundamental”, observa o pesquisador. Até entre as que, apesar do trabalho infantil, concluíram o ensino fundamental, há ainda a tendência à evasão durante o ensino médio — as chances de conclusão dessa etapa são de 33% para as crianças que trabalham em tempo integral e de 58% para as que trabalham em tempo parcial.

Coincidentemente ou não, dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que a maioria dos presos no Brasil é de jovens e de baixa escolaridade. Dos quase 600 mil detentos, apenas 2 mil (0,4%) têm diploma de nível superior. Os analfabetos somam 5,6% e os que sequer terminaram o ensino fundamental, 46%.

Mesmo entre as crianças que continuam na escola, apesar do trabalho, o rendimento costuma ser bastante prejudicado. Em geral, são repetentes, não conseguem prestar atenção e estão quase sempre cansadas, afirma a ministra Kátia Magalhães Arruda, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), uma das gestoras nacionais do Programa de Combate ao Trabalho Infantil da Justiça do Trabalho. Segundo ela, 90% das crianças que trabalham têm algum tipo de defasagem escolar. “Já existiu mais evasão por esse motivo. Atualmente, com políticas públicas, é menos comum que se afastem completamente da escola. Mas o índice de aprendizagem é bem inferior”, pondera.

 

Ed Alves/CB/D.A Press
 

Precarização

A procuradora Valesca de Morais, do Ministério Público do Trabalho (MPT), reforça que colocar uma criança para trabalhar faz com que ela se acostume a não ter os direitos respeitados. “É incompatível com o desenvolvimento social. Se ela se acostumou quando pequena, vai levar para a vida adulta. Quando crescem, elas aceitam trabalhos precários, sem carteira assinada, sem salário mínimo, porque já estão acostumadas com isso. São menos exigentes”, explica.

Além de não tirar as crianças do crime, muitas vezes influenciando de forma contrária, a exploração infantil está relacionada à perpetuação de outras formas de relações empregatícias precárias e abusivas. Em cada 10 pessoas resgatadas de trabalhos análogos à escravidão no Brasil, sete admitem ter começado a trabalhar antes dos 16 anos, segundo levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT). “Começaram cedo, não conseguiram romper o ciclo de pobreza e, ao final, acabaram entrando em outro tipo de exploração”, explica Kátia, do TST.

O ciclo ao qual ela se refere é tão comum e infeliz quanto a ideia de que a exploração de mão de obra infantil transforma as crianças em adultos mais bem-sucedidos. Nas palavras de Kátia, trata-se “da reprodução da miséria”: A pessoa trabalha porque é pobre, mas, ao entrar no trabalho infantil, se afasta da escola e se torna um adulto que não estará apto a um mercado de trabalho exigente. Então, vai sempre fazer o serviço menos valorizado. “Quanto mais cedo uma pessoa começa a trabalhar, mais baixa é sua renda”, completa.

De acordo com pesquisa da economista Ana Lucia Kassouf, da Universidade de São Paulo (USP), o prejuízo no salário varia de acordo com o gênero e o nível de escolaridade. Em um dos recortes do estudo, ela constatou que mulheres que começaram a trabalhar antes dos 9 anos de idade e terminaram apenas o ensino médio recebem cerca de 23,8% menos que uma que começou a trabalhar após os 17 anos, também com ensino médio completo. Significa dizer que a que não tem histórico de trabalho precoce recebe R$ 2 mil de salário, enquanto a outra, R$ 1.524. Para os homens, a diferença é de 17,2%.

* nome fictício
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Luiz
Luiz - 12 de Junho às 14:28
Discordo parcialmente. Tenho um grande amigo que começou a trabalhar aos 9 anos ajudando a mãe, lavadeira, a entregar as trouxas de roupas (tão brancas, ainda me lembro...) pelo bairro afora na minha querida BHte. Aos 10 anos, começou a trabalhar meio expediente, à tarde, numa engarrafadora de cachaça: seu serviço era lavar garrafas com uma escova fina e comprida. Aos 13 anos, começou a trabalhar de atendente num bar de um parente. Aos 15 começou como auxiliar de escritório num Escritório de Contabilidade.Formado Técnico contábil, aos 16 tornou-se técnico contábil desse Escritório. Passou no vestibular da PUC-BH, fez Administração de Empresas, trabalhou no SEBRAE-MG, em uma grande empresa de Máquinas e Equipamentos de BH, depois fez mestrado em ADM de Empresas. Atualmente está aposentado e trabalha como consultor da Fundação Dom Cabral na área de Negócios, Empreendedorismo e Contabilidade Empresarial. Isso tudo é só para dizer que a vida dele não foi moleza, não foi fácil... Mas conhecendo como o conheço, sei dos dias que ia a pé para a escola porque não tinha dinheiro para a passagem, das noites e noites sem sair para uma passeada porque era a hora que tinha para estudar nos sábados e domingos, das pesquisas que fazia para entender esse mundo da química e física que não eram matérias de seu currículo no segundo grau... Então, desculpem-me os especialistas, mas não é bem assim...
 
Luiz
Luiz - 12 de Junho às 14:16
Discordo parcialmente. Tenho um grande amigo que começou a trabalhar aos 9 anos ajudando a mãe, lavadeira, a entregar as trouxas de roupas (tão brancas, ainda me lembro...) pelo bairro afora na minha querida BHte. Aos 10 anos, começou a trabalhar meio expediente, à tarde, numa engarrafadora de cachaça: seu serviço era lavar garrafas com uma escova fina e comprida. Aos 13 anos, começou a trabalhar de atendente num bar de um parente. Aos 15 começou como auxiliar de escritório num Escritório de Contabilidade.Formado Técnico contábil, aos 16 tornou-se técnico contábil desse Escritório. Passou no vestibular da PUC-BH, fez Administração de Empresas, trabalhou no SEBRAE-MG, em uma grande empresa de Máquinas e Equipamentos de BH, depois fez mestrado em ADM de Empresas. Atualmente está aposentado e trabalha como consultor da Fundação Dom Cabral na área de Negócios, Empreendedorismo e Contabilidade Empresarial. Isso tudo é só para dizer que a vida dele não foi moleza, não foi fácil... Mas conhecendo como o conheço, sei dos dias que ia a pé para a escola porque não tinha dinheiro para a passagem, das noites e noites sem sair para uma passeada porque era a hora que tinha para estudar nos sábados e domingos, das pesquisas que fazia para entender esse mundo da química e física que não eram matérias de seu currículo no segundo grau... Então, desculpem-me os especialistas, mas não é bem assim...