Depois da crise: preço do boi gordo tem maior queda em 20 anos

Escândalo de corrupção envolvendo o maior frigorífico do mundo, a crise econômica que tirou o poder de compra do brasileiro e o excesso de carne no mercado derrubaram o valor da arroba para R$ 128. Mas recuo ainda não chega ao consumidor final

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Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press
 
Um cenário do tipo tempestade perfeita, com uma conjunção de fatores — inclusive o escândalo de corrupção envolvendo o maior frigorífico do mundo, a JBS — fez o preço da arroba do boi gordo apresentar, em maio, a mais significativa baixa dos últimos 20 anos.
 
No mês passado, a quantidade de reais que o produtor recebeu por 15 quilos de peso dos animais prontos para abate caiu 4,63%, aos R$ 128, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), vinculado à Universidade de São Paulo (USP).

A má notícia para o pecuarista chega timidamente como boa nova nos açougues. Especialistas concordam que três motivos resultaram na realidade de hoje, que preocupa o fazendeiro, o principal responsável pelo Brasil ter se tornado referência mundial na produção de carne. “É uma campanha, a hora é de conscientização, o pecuarista só deve vender o necessário para pagar as contas do dia a dia”, recomenda o diretor técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Valdecir Marin Júnior. “Essa foi uma queda histórica.”
 

A crise econômica contribui para a realidade atual, com a queda na demanda interna devido ao menor poder aquisitivo das famílias. A carne bovina, proteína mais cara que do porco e do frango, está cada vez menos presente no prato do brasileiro. O consumo per capita anual da carne caiu de 42 quilos (kg), em 2010, para 30,7 kg, em 2016, o menor valor desde 2001, de acordo com a Consultoria MB Agro — a média histórica no país é de 37 kg por pessoa.

Se menos carne chega às mesas, inevitavelmente sobra boi no pasto. E, conforme a produção de carne fica menos lucrativa, cresce o abate, o que aumenta a oferta de animais e derruba ainda mais o preço pago pelos animais. Na pecuária, o ciclo normal da atividade é de um ano e meio. Entre 2012 e 2016, mais vacas ficaram nos pastos para a reprodução e a matança de matrizes baixou de 42% do total para 38,6%, segundo o Cepea. E isso também tira valor do boi gordo.
 
Efeito dominó, o animal desmamado para reposição nas fazendas de engorda, com idade entre 8 meses e 1 ano, em janeiro, tinha preço médio de R$ 1.250. No mês passado, foi cotado abaixo de R$ 1,1 mil, desvalorização de 1,95% só em maio. “A queda no abate de fêmeas, entre 2012 e 2016, é de menos de 4 pontos percentuais, mas isso dá diferença significativa no volume de bezerros e nas outras categorias de reses”, diz a economista do Cepea, Mariane Crespolini.

Para fazer valer ainda mais a lei da oferta e da procura, um maio atípico, de chuva, com pasto frondoso, permitiu alongar o período de terminação dos bois. Capim verde e abundante rende animais mais pesados e antecipa o abate de reses que tão cedo não iriam para o frigorífico. Com o mercado retraído, o que seria boa notícia vira produto em excesso e faz o preço cair. “O produtor só tem uma alternativa: colocar o produto no mercado”, comenta o economista do Centro de Estudos em Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (GV Agro), Felippe Serigati.

Para confirmar o cenário caótico e fazer a crise chegar forte ao pasto, nada melhor do que um escândalo, que ameaça inclusive o presidente da República, com o comprovado envolvimento da maior empresa compradora de bois gordos em doações irregulares para políticos, com efeito em toda a cadeia produtiva. O grupo JBS, dono dos frigoríficos Friboi, é porta de entrada no mercado de aproximadamente 30% dos bovinos que saem das fazendas brasileiras. A situação da JBS traz insegurança ao mercado. “Traumatizado, o produtor decide que, para aquela empresa, não mais vai vender”, explica a economista do Cepea.

O rebanho brasileiro é de 210 milhões de cabeças. A taxa de desfrute, ou de animais que vão para matança, fica, usualmente, entre 15% e 20%, ou seja, mais de 30 milhões de reses anuais. Conforme estimativa da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), sozinha, a JBS mata três de cada dez animais abatidos no Brasil. No Mato Grosso, que abriga o maior rebanho do País, 49% das reses morrem nos frigoríficos Friboi. É um oligopólio que se estende por 17 Estados brasileiros onde a empresa fincou pé. Estrategicamente, a presença é mais forte no Mato Grosso do Sul, em Tocantins, no Pará e em São Paulo, que, junto com o Mato Grosso, formam o Corredor do Boi Gordo. “Aí, onde ocorrem os maiores abates, o grupo comprou novas plantas”, explica o diretor técnico da ABCZ, Marin Júnior.

Concentração
 
Ao revelar como a JBS se relacionou com políticos, o executivo e dono Joesley Batista expôs a corrupção. Indiretamente, mostrou na prática como a holding fez poder gerar ainda mais poder. “O desejo do homem vira um absurdo, gera insanidade, é a tragédia humana”, comenta, ao citar Aristóteles, o dono do açougue TBone e cliente da Friboi, Luiz Amorin. “Incrível como o próprio Estado criou uma legislação que dificulta a vida dos pequenos”, diz.

A queixa do açougueiro coincide com as críticas à política governamental de concentração de mercado que fez a JBS se tornar a gigante presente em 20 países. “É preciso aumentar a concorrência, resgatar os médios e pequenos para pulverizar o varejo, essa é a saída a curto e médio prazos”, reivindica o diretor técnico da ABCZ. “E esse é um  papel do governo.”

Em nota, a JBS esclarece que o preço da arroba do boi gordo está diretamente relacionado ao atual ciclo da pecuária. “A maior oferta de gado para abate com a queda do consumo no mercado interno atrelada à economia retraída influenciam diretamente no preço da arroba”, informa.
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