No olho do furacão, grupo JBS balança no mercado financeiro

Valor de mercado da maior empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista já caiu 47% neste ano. Especialistas põem em dúvida futuro do grupo, que cresceu com apoio dos governos petistas. Holding J&F tenta vender ativos para pagar dívidas

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postado em 22/06/2017 06:00

O império da família Batista caminha para o desmantelamento. Após ser agraciado pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff com vultosos empréstimos subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no âmbito da política de formação de “campeões nacionais”, tanto a holding J&F quanto a JBS ficarão bem menores do que são hoje, dizem especialistas.  Porém, não há um consenso de que o grupo chegará à bancarrota.

 

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Após a tempestade provocada pela delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que atingiu o governo de Michel Temer, o valor de mercado da JBS, uma das duas empresas da J&F listadas na Bolsa de Valores de São Paulo, despencou. Em 31 de dezembro de 2016, a companhia era avaliada em R$ 31 bilhões. No último dia 20, considerando o valor das ações, o total havia caído para R$ 16,4 bilhões, um tombo de 47%. O montante não é suficiente para cobrir a dívida bruta do grupo dono das marcas Friboi, Maturatta e Seara. O endividamento é 3,5 vezes maior: R$ 58,6 bilhões, o terceiro maior entre as companhias de capital aberto, conforme dados da Economática.

Analistas acreditam que a JBS terá dificuldade para honrar o acordo de leniência firmado com o Ministério Público, que prevê o pagamento de multa de R$ 10,3 bilhões em 25 anos. Os bancos credores evitam comentar o assunto, mas fontes do mercado dizem que eles estão preocupados com um eventual calote e, por isso, não oferecem novas linhas de crédito. “O maior problema da JBS, hoje, é conseguir empréstimos para saldar dívidas. Os bancos fecharam as portas”, disse uma fonte próxima ao grupo. Para ela, os ativos são suficientes para gerar caixa para que a holding sobreviva à turbulência. Antes de quebrar, observa, o grupo entraria em recuperação judicial.

Procurada, a JBS informou que “todos os compromissos firmados com os bancos seguem em linha com o que foi pactuado, e não há débitos pendentes”. “A companhia mantém um relacionamento de longo prazo com instituições financeiras públicas e privadas, com as quais tem mantido discussões produtivas e construtivas, e reitera que considera as relações e negociações com os bancos fundamentais para o desenvolvimento de suas atividades no país”, completou.

Eduardo Velho, economista-chefe da A2A Asset &INVX Global Partners, disse que ainda é cedo para avaliar, mas reconheceu que o futuro da empresa não é muito promissor. “A forte queda no valor de mercado deverá se refletir no faturamento da empresa daqui para a frente. Apesar de a maior parte da receita vir das operações no exterior, a venda de ativos é o caminho mais curto para fazer caixa para saldar as dívidas, que não são pequenas”, afirmou.

Para Velho, o grupo não vai quebrar porque um dos maiores acionistas da JBS é justamente o BNDES, que tem quase 25% do capital da empresa. “Uma falência seria péssima para a imagem do banco, que já está arranhada, e o governo não conseguiria justificar o enorme investimento feito na companhia. Por isso, a JBS pode sobreviver. As ações não devem virar pó, como ocorreu com a OGX (de Eike Batista), que não tinha ativos como a J&F tem”, disse Velho, citando, como exemplo, a Alpargatas.

Desconto


A J&F comprou a Alpargatas da Camargo Correa. A subsidiária, dona de marcas como Havaianas, Mizuno e Oakley, tem sobrevivido ao clima turbulento. O valor de mercado da empresa cresceu 37% desde o início do ano, para R$ 5,9 bilhões, e a dívida bruta não chega a R$ 600 milhões. “A Alpargatas tem marcas sólidas e respeitadas internacionalmente, mas, certamente, os ativos do grupo J&F deverão ser vendidos com desconto porque houve perda de confiança dos consumidores”, completou Velho.

Anteontem, a JBS anunciou que foi apresentado ao conselho de administração um programa de venda de ativos com previsão de arrecadar R$ 6 bilhões, além do R$1 bilhão já anunciado com a venda das operações na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. O plano prevê a venda de 19,2% da Vigor Alimentos, da participação do grupo na irlandesa Moy Park e a alienação dos ativos da norte-americana Five Rivers Cattle Feeding, além de fazendas. A estratégia, no entanto, está sendo contestada judicialmente (veja matéria ao lado). A J&F faturou R$ 174 bilhões em 2015 e possui 220 unidades de negócios. A holding informou recentemente à agência Standard & Poor’s que o objetivo é levantar cerca de R$ 8 bilhões a curto prazo com a venda de ativos.

O economista Ruy Coutinho, ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), tem dúvidas se a JBS conseguirá sobreviver. Ele lembrou que os 13 processos abertos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra a empresa podem custar multas pesadas, mas nada comparável ao que pode ocorrer nos Estados Unidos se a justiça norte-americana também iniciar uma caçada ao grupo. “As leis são muito mais rígidas e as punições, também, por isso vejo o futuro da JBS com muita preocupação ”, alertou.


  • Acionista forte

    O BNDES é o segundo maior acionista da JBS. Detém 21,3% das ações por meio da BNDESPar, mas tem evitado comentários sobre a empresa. Questionada sobre possíveis perdas do banco com os papéis da JBS, a instituição disse, em nota, que “a BNDESPar ainda não realizou qualquer tipo de provisão para perda por desvalorização das ações relativa ao investimento na JBS ”, mas reconheceu que a avaliação desse impacto no valor futuro da empresa “será feito ao longo dos próximos meses”. “Como acionista, a BNDESPar apoia todos os esforços em favor da preservação das atividades e empregos da companhia”, concluiu.
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