Em relatório de inflação, BC mantém indefinição sobre redução de juros

Banco Central prevê inflação abaixo da meta, mas sinaliza que Copom pode diminuir o ritmo de corte da Selic para 0,75 ponto na próxima reunião

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postado em 23/06/2017 06:00

Edilson Rodrigues/Agência Senado

 

O Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado ontem pelo Banco Central (BC), não trouxe surpresas, de acordo com especialistas. Apesar de ter reduzido as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para menos de 4% neste ano, o BC manteve a indefinição sobre qual será o ritmo de corte dos juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em julho. As incertezas no cenário político e a falta de indicações mais firmes sobre a recuperação da economia levaram o colegiado a sinalizar que está mais propenso a reduzir a Selic (taxa básica de juros), em 0,75 ponto percentual. No entanto, os analistas avaliam que não está descartado um novo corte de um ponto. A Selic está em 10,25% ao ano.

 

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“A incerteza dificulta a tomada de decisão pelo BC, apesar de a recessão ter ajudado a reduzir as pressões inflacionárias e aberto espaço para um corte mais acentuado na Selic. Porém, é preciso considerar que a taxa de câmbio pode subir se a crise política se agravar, o que reacenderia as pressões”, explicou o economista Salomão Quadros, superintendente adjunto de Índices Gerais de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

“Estamos diante de duas possibilidades apontadas pelo BC, um corte de um ponto percentual ou de 0,75%, mas ele não se comprometeu com nenhuma dessas saídas”, disse Quadros. O mercado prevê que a Selic estará em 8,5% no fim do ano. Todavia, há projeções mais otimistas, como a do Bradesco, que mantém a projeção de 8%.

Na contramão, o economista Alexandre Espirito Santo, da Órama, prevê que a Selic sofrerá o último corte do ano em julho. Depois disso, o BC vai avaliar os desdobramentos da crise política e o andamento das reformas. Segundo ele, a situação das contas públicas ainda é muito ruim, e tudo indica que o governo não cumprirá a meta de limitar o deficit fiscal a R$ 139 bilhões neste ano. “É precipitado prever uma queda maior nos juros com tanta incerteza. Por isso, mantenho a previsão de que a Selic ficará entre 9,25% e 9,5% no fim do ano”, disse.

A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington, avaliou que a crise política tirou espaço de o BC reduzir mais os juros. Para ela, a instituição demorou muito para iniciar o ciclo de corte da Selic apenas no fim de 2016, apesar da troca de governo no meio do ano passado. “O BC perdeu o timing e, agora, não sabe que rumo tomar”, criticou.

No RTI, o BC reduziu para 3,8% a previsão para o IPCA de 2017, que era de 4% no relatório de março. A projeção de crescimento do PIB neste ano foi mantida em 0,5%, refletindo, segundo a autoridade monetária, os resultados favoráveis de indicadores de atividade nos primeiros cinco meses do ano. No entanto, ressaltou que, se o ambiente de incerteza permanecer, haverá inevitáveis “efeitos negativos sobre a atividade”.


Incertezas

O diretor de Política Monetária do BC, Carlos Viana de Carvalho, reconheceu, ainda, que os riscos de uma retração econômica pelo terceiro ano consecutivo estão presentes. “Sempre há riscos. Nosso diagnóstico é que a estabilização ocorreu e que haverá recuperação gradual da economia”, disse. Segundo ele, uma das incertezas é a trava nos investimentos de longo prazo. “Isso não se aplica de maneira generalizada, mas é onde há mais dificuldade de reverter certa ação (de investimento).”

Pelas projeções do BC, em junho, haverá deflação de aproximadamente 0,10%. O resultado será reflexo do acionamento da bandeira verde sobre as tarifas de energia elétrica e das reduções, anunciadas pela Petrobras nos dias 25 de maio e 14 de junho, dos preços da gasolina e do diesel nas refinarias. A previsão de inflação para 2018 foi mantida em 4,5% e, para o segundo trimestre de 2019, o órgão prevê alta acumulada de 4,3% em 12 meses.

Na avaliação do diretor do BC, as estimativas para o IPCA do ano que vem estão abaixo da meta em três dos quatro cenários delineados pelo Copom, mas a mudança da meta de inflação de 2018, de 4,5% anuais, é considerada improvável. “Não vemos risco relevante ou probabilidade de reconsideração para 2018”, disse Viana. No próximo dia 29, o Conselho Monetário Nacional (CMN) definirá a meta oficial para 2019. As previsões para o custo de vida estão entre 3,8% e 4,3%, o que poderia abrir espaço para que a meta seja reduzida para 4,25%, na avaliação de Quadros, da FGV.

“Reduzir a meta de inflação em 0,25 ponto percentual tem vantagens e desvantagens, mas o mais importante é aproveitar a oportunidade. Seria uma mensagem importante para romper com o imobilismo da meta, que completará 14 anos em 2018”, disse Quadros, destacando que o Brasil ainda deverá conviver com um custo de vida acima da média do resto do mundo “por muitos anos”.
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