Especialistas alertam que o que pesa no bloqueio da carne é o câmbio

O produto nacional chega nos Estados Unidos com preço muito competitivo, desbancando produtores locais

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O governo brasileiro anunciou ontem o início de uma investigação para averiguar a causa das inconformidades que os Estados Unidos apontaram em 11% da carne bovina in natura exportada para aquele país. Desde que foi deflagrada a Operação Carne Fraca, os EUA vinham fiscalizando 100% dos contêineres do produto brasileiro e, na última quinta-feira, decidiram suspender a importação do Brasil.


Uma das hipóteses levantadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) é que tenham sido encontradas peças alteradas pela reação à vacina contra a febre aftosa, que causam abcessos no gado,  mas não são prejudiciais à saúde. O governo e especialistas em comércio exterior alertam, contudo, que, para além da questão sanitária, há um forte componente econômico na questão.

“O governo norte-americano está sob muita pressão dos produtores por causa do câmbio. A carne brasileira chega aos EUA com preço muito competitivo. Há uma guerra comercial como pano de fundo”, afirma o sócio da Barral M Jorge e ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral. No ano passado, os dois países abriram reciprocamente suas fronteiras para a carne in natura. Na prática, contudo, os Estados Unidos não conseguem exportar para o Brasil por causa da diferença cambial.

Faz apenas nove meses que a carne brasileira in natura começou a ser exportada para os Estados Unidos. O fechamento desse mercado foi a primeira decisão comercial tomada pelo governo dos EUA desde que o republicano nacionalista Donald Trump assumiu a Presidência do país. Os produtores norte-americanos propõem a extensão da medida à carne congelada. O governo brasileiro, entretanto, assegura que o produto brasileiro é saudável.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reconheceu que a medida é importante devido à relevância do mercado norte-americano, mas reafirmou que o comércio exterior brasileiro vem apresentando dados positivos em 2017. O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, está à frente da defesa brasileira e busca uma agenda bilateral para encontro de alto nível nos EUA.

Questionamento

Em entrevista coletiva, o secretário executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, explicou que são enviadas para os EUA peças inteiras da parte dianteira do boi e que podem ocorrer manchas internas de carne, não perceptíveis externamente, uma vez que a vacinação ocorre de maneira profunda. No ano passado, o Chile fez questionamentos a respeito desses abcessos e a recomendação do governo brasileiro foi que a carne passasse a ser fatiada antes do envio.

A mesma ação poderia ser aplicada à carne enviada aos EUA. Antes disso, contudo, o Brasil precisará apurar, por exemplo, se a reação é causada pela vacina ou pelo manuseio da agulha, por exemplo. Essa investigação poderá levar até 60 dias. Em paralelo, será realizada uma auditoria do Ministério da Agricultura nos 15 frigoríficos que exportam hoje para os EUA.

Mas este processo pode não ser simples, uma vez que há forte pano de fundo econômico. “Esperamos que o governo dos Estados Unidos divulgue as justificativas técnicas e científicas que fundamentaram a decisão, que também pode ser vista como uma medida protecionista de mercado”, afirmou em nota a CNA.

Demora
Os exportadores brasileiros conseguiram permissão para vender aos Estados Unidos em junho de 2015. O primeiro embarque, no entanto, ocorreu apenas em setembro do ano passado. O volume de exportação ainda não é relevante — representa apenas 5% da carne in natura que o Brasil vende para o exterior. Mas o mercado americano, por ser um dos mais exigentes, serve de referência para que outros países, como o Japão e a Coreia, por exemplo, decidam comprar a carne brasileira.
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