Recursos do FGTS não foram usados para quitar débitos, diz Banco Central

Atraso de dívidas de consumidores e empresas em mais de 90 dias atinge 4%, o pior resultado da série histórica, iniciada em 2011

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postado em 29/06/2017 06:00

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

 

Os R$ 37 bilhões sacados de contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) por 22,1 milhões de brasileiros não foram usados para abater dívidas. Dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC) apontam que o nível de inadimplência dos consumidores em maio cresceu para 4,1% após quatro meses de estabilidade em 4%. A situação é ainda pior para as empresas. O nível de calotes chegou a 4%, mesmo com as companhias renegociando as dívidas. No ano, o indicador acumula alta de 0,5 ponto percentual. Esse é o pior resultado da série histórica, iniciada pela autoridade monetária em março de 2011.

 

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Com isso, a inadimplência total do sistema financeiro chegou a 4%, a maior desde que o BC começou a compilar os resultados. Quando são analisados os dados relativos ao crédito livre para empresas, o percentual de dívidas em atraso por mais de 90 dias chega a 6%, também um recorde. Diante do nível de calotes, as instituições financeiras têm mantido as provisões para perdas nos maiores patamares já registrados. No caso de bancos privados com controle nacional, a taxa chega a 9,4%.

As instituições financeiras públicas mantêm as provisões em 5,7% e as estrangeiras em 6,6%. O chefe adjunto do Departamento Econômico da autoridade monetária, Fernando Rocha, explicou que o Brasil passou por dois anos seguidos de recessão e, com isso, era esperado que o nível de calotes também aumentasse. “A alta da inadimplência era esperada. Essas taxas são baixas e as instituições financeiras estão bem capitalizadas e bem provisionadas”, disse.

Apesar de minimizar os efeitos da elevação do calote para empresas e consumidores, Rocha admitiu que os dados indicam que os recursos sacados de contas inativas do FGTS foram usados para consumo e não para abater as dívidas. “As pesquisas que apuram o desempenho do comércio mostram resultados melhores desde que os saques começaram”, comentou.

Na opinião de João Augusto Sales, especialista em bancos da consultoria Lopes Filho, os dados precisam ser analisados com cautela. Na opinião dele, o crescimento da inadimplência das empresas é mais preocupante porque as companhias têm feito seguidas renegociações de dívidas para postergar pagamentos e ganhar prazo para que a economia se recupere. Entretanto, a geração de caixa das firmas não têm crescido a ponto de fazer frente aos passivos.

Problemas pontuais


No caso da inadimplência dos consumidores, destacou Sales, alguns problemas pontuais têm afetado o ritmo de pagamento de financiamentos. Ele destacou que a grave crise fiscal de estados e municípios tem implicado atraso no pagamento de salários. Consequentemente, o estoque de parcelas em atraso de consignado e outras linhas de financiamento cresceu. “Nesse caso, não há o mesmo nível de preocupação. Precisamos acompanhar a evolução dos dados, mas acredito que chegamos no teto dos principais indicadores”, disse.

O crescimento da inadimplência para as empresas é apontado como uma tendência preocupante pela economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Marzola Zara. Para ela, a recuperação do mercado de crédito para pessoa jurídica levará mais tempo do que para pessoa física.“Ainda há um risco de crédito considerável, derivado da retração da economia de mais de 7% em dois anos”, ressaltou.

Em meio à crise econômica, Júlia Nascimento, 21 anos, ficou desempregada em setembro do ano passado. Desde então, deixou de pagar as faturas do cartão de crédito. Inadimplente há quase um ano, ela está entre milhares de brasileiros que têm dividas em atraso a mais de 90 dias. “Eu fiz uma simulação de parcelamento da dívida e teria que pagar R$ 200 por mês. Mas nem esse valor eu tenho”, conta ela, sem saber ao certo o número de parcelas.

Após perder o emprego em 2012, o operador de telemarketing Jorge Luiz da Silva, 23 anos, passou a administrar as finanças com rigor. Naquela época, deixou de quitar a fatura de cartão de crédito por mais de 90 dias e ficou inadimplente. Agora, só compra o que cabe no orçamento e se preocupa em fazer poupança para enfrentar momentos de crise. “Para limpar meu nome, tive que optar pelo acordo. No período, eu devia uns R$ 700 e consegui ultrapassar o limite do cartão. Agora, sou extremamente cuidadoso porque a dor de cabeça para limpar o nome é enorme. Dívida, nunca mais”, disse. (Colaborou Andressa Paulino, estagiária sob supervisão de Rozane Oliveira)
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