Falta de recursos para obras mantém nível de geração de riquezas baixo

Levantamento aponta que taxa só voltará a corresponder a 20% do PIB em 2026, nível ainda inferior ao de 2010

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postado em 03/09/2017 08:00

A alta de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no 2º trimestre de 2017 mostrou que o impacto negativo da crise política deflagrada em maio com a delação dos donos da JBS foi menor que o esperado. No entanto, analistas são cautelosos e avisam que a recuperação da atividade será lenta diante da queda no investimento, principal indicador para que um país tenha crescimento sustentável. Levantamento da Tendências Consultoria indica que indicador em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) só ficará acima de 20% em 2026. E, mesmo assim, não será possível recuperar os níveis registrados entre 2010 e 2013.
 

Até o fim do ano, a consultoria prevê quea taxa de investimento ficará em 16,2% do PIB. Vale lembrar que o Brasil ainda registra as piores taxas do mundo relativas ao crescimento econômico e ao desembolso de recuros para obras. A média global desse indicador, conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), é de 25% do PIB e, entre os países emergentes, sobe para 32%. (veja quadro ao lado)

No entanto, a situação do país é ainda mais grave do que o previsto pela Tendências. A taxa de investimento do Brasil em relação ao PIB passou de 16,7%, no segundo trimestre de 2016, para 15,6%, neste ano, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso é reflexo da queda de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que encolheu 6,5% em relação ao mesmo período de 2016. São 13 trimestres consecutivos de recuo, um reflexo da desconfiança dos donos do capital e da falta de capacidade do governo em gastar.

“As despesas com gastos do governo caíram 40% e o investimento privado não acontece enquanto há incertezas políticas e na área fiscal. Pelo nosso cenário, o investimento só ficará acima de 20% em 2026, mas devemos revisar esses números porque o resultado desse indicador no segundo semestre veio muito ruim”, destaca a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências.

Indicadores importantes que apontam a retomada ainda refletem que a demanda por produtos e serviços está baixa. Um desses indicativos leva em conta a queda nas importações e a baixa produtividade. De acordo com dados de Marcelo Azevedo, economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a ociosidade ainda está elevada, em 32,6%, o que adia qualquer investimento para aumento da produção. “A demanda precisa dar sinais mais fortes de recuperação para prazos mais longos. Só assim, o empresário pensa em ampliação”, destaca.


Baixo potencial

Quando a taxa de investimento é baixa, como é o caso do Brasil, o potencial de expansão do PIB é ainda mais limitado. Portanto, não há como o país crescer acima da média global e dos países emergentes no curto prazo. “O cenário atual. após três anos de recessão, deixou esse PIB potencial entre 1% e 1,5% de taxa de crescimento”, explica o economista Julio Mereb, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE-FGV).

Para ele, se houver avanço na agenda de reformas econômicas, essa capacidade de expansão potencial pode ficar em 2%.“Os dados ruins de investimento sinalizam que o país ainda tem muitas fragilidades nesse processo de recuperação. A questão é equacionar essa agenda de retomada”, afirma Mereb. Ele reconhece que a origem da crise que o Brasil atravessou nesses anos é essencialmente doméstica, principalmente, o descontrole das contas públicas. “As condições internacionais estão bastante favoráveis, com muita liquidez no mercado devido à política frouxa dos Estados Unidos”, relata.

A aposta do governo para reverter esse quadro ruim é o pacote de privatizações, mas as incertezas neste segundo semestre são crescentes. “Uma segunda denúncia pode travar as concessões e elas são extremamente necessárias para que os investimentos voltem a crescer. Mas, mesmo se elas acontecerem, esse investimento é de longo prazo e vai demorar para impactarem no PIB, provavelmente, a partir de 2020”, explica Alessandra. Evandro Buccini, economista da Rio Bravo, lembra que esse pacote demorou um ano para ser anunciado e, para sair do papel, leva tempo, e o governo já não tem mais folga para cortes de despesas não obrigatórias.

A previsão do Orçamento de 2018 para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) caiu de R$ 27 bilhões, em 2016, para R$ 1,9 bilhão. “O governo perdeu a capacidade de investir, e, com o teto de gastos, o espaço ficará muito mais limitado. Não podemos pensar no setor público como solução de crescimento. A saída para o investimento decolar são as privatizações, mas, para isso, será preciso controlar o desequilíbrio fiscal para atrair o capital”, alerta Buccini.
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