Recorde da Bolsa de Valores volta a atrair investidores

Euforia do mercado é tábua de salvação para o governo, em meio à crise, mas para o pequeno aplicador pode ser perigoso entrar no momento atual, porque há risco de uma virada. Especialistas divergem sobre a possibilidade de ser uma bolha

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postado em 17/09/2017 08:00

A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) acumula R$ 161,4 bilhões em valorização de mercado de janeiro a agosto e as perspectivas de melhora da economia têm levado os brasileiros a participar dos pregões, interessados em multiplicar o patrimônio. Nos oito primeiros meses do ano, 29,8 mil pessoas voltaram a aplicar em ações e o total de investidores pessoa física chegou a 593.896. Esse é o melhor resultado desde 2010, ano em que 610.915 investidores pessoa física estavam registrados na B3.

A euforia dos investidores está ligada à percepção de que o país deve continuar com as reformas no próximo governo, tirará do papel diversos projetos de concessão, privatizará empresas e voltará a gerar empregos. No mercado, já há quem estime que a B3 ultrapassará os 80 mil pontos ainda em 2017. Em janeiro de 2016, o valor de mercado da Bolsa era de R$ 1,5 trilhão. De lá para cá, após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a aprovação de reformas e a sinalização de recuperação da economia, as 55 companhias que compõem o Ibovespa, principal índice da bolsa paulista, passaram a valer R$ 2,4 trilhões.

Na prática, o valor de mercado das empresas aumentou em R$ 893,8 bilhões, uma alta 59,3% em 20 meses. Apesar da volta significativa dos investidores pessoa física, o volume de recursos aplicado por eles se mantém estável em 16,9%. Esse movimento ocorreu porque os fundos de pensão voltaram para o mercado de renda variável, diante da queda nas taxas de juros e da relevante participação de estrangeiros na bolsa de valores brasileira.

Ciclos


Especialistas detalham, no entanto, que aplicações em ações devem ser feitas em busca de ganhos de longo prazo. Com os ciclos de alta e baixa, os mais pacientes aproveitam as oportunidades de empresas financeiramente robustas que se desvalorizam, mas possuem potencial de retorno. O mais importante é observar se a companhia tem problemas estruturais, que podem levar à insolvência, ou são apenas ventos passageiros.

Um cuidado para aplicar no mercado acionário é usar a sobra das economias e não comprometer o orçamento da família. As fortunas da bolsa foram construídas a partir da disciplina em reinvestir o ganho. Sem esses cuidados o risco da aplicação aumenta e pode se tornar um desastre.

Os mais jovens podem assumir algum risco, mas recomenda-se aos mais velhos aproveitar papéis em que há distribuição de dividendos. Outro cuidado relevante é procurar orientação técnica, em corretoras e bancos que oferecem serviços de home broker. Além disso, promessas de riqueza rápida podem  levar a prejuízos. As empresas que incentivam um giro da carteira também devem ser descartadas, já que a bolsa não é um cassino.

Na opinião do economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, não há irracionalidade na valorização da B3. O movimento se baseia na aposta de que a agenda de reformas e ajustes será mantida até o fim deste governo e no próximo. Campos Neto detalha que isso favorece o valor das empresas e a vitória de um candidato com esse compromisso tende a acelerar a recuperação da economia. “Se o cenário não se confirmar, haverá um ajuste importante dos patamares atuais da Bolsa”, admite.

Para Campos Neto, o Ibovespa não deve passar muito dos 80 mil pontos ao longo de 2018, por conta do início do processo eleitoral. “Tudo dependerá de como as incertezas se encaminharão”, afirma. Parte da valorização se deve aos investidores estrangeiros, avalia. Com a abundância de liquidez internacional, eles se deram ao luxo de tomar mais risco em economias emergentes como o Brasil.

Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, a perspectiva de uma atividade mais sólida no futuro deve se refletir na melhora da lucratividade das empresas. Com isso, há um movimento de antecipação. “Também há especulação e valorização das bolsas mundo afora”, diz.

A melhora do ambiente econômico e a queda de seis pontos percentuais na taxa básica de juros explicam a valorização, segundo Guilherme Macêdo. Para ele, os investidores se dispõem a correr mais riscos em busca de melhor retorno, uma vez que as aplicações em renda fixa perderam a atratividade. “O Ibovespa pode ultrapassar os 80 mil pontos ainda em setembro”, aposta.

Cautela


Mesmo com as perspectivas favoráveis, há quem veja o cenário com bastante ceticismo. O otimismo do mercado financeiro é visto com cautela pela economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics (PIIE). Para ela, a maioria dos analistas em estado de euforia dá “tiros no escuro”, porque há muitas incertezas em relação à recuperação da economia. “É uma bolha. O que sustentou o consumo no segundo trimestre foi a queda da inflação e o resgate das contas inativas do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), que não se sustentam para sempre”, alertou.

Mônica alerta que não há fundamentos macroeconômicos para euforia. “Uma hora a ficha vai cair. Nos Estados Unidos, a bolha imobiliária levou cinco anos para estourar. No Brasil, não vai demorar tanto tempo assim”, alerta.

Braulio Borges, economista da LCA Consultores, compartilha da preocupação com o excesso de otimismo da bolsa paulista. “O mercado trabalha como se o país fosse crescer 3% no ano que vem, mas isso é pouco provável”, afirma. Para ele, muita gente está esperando para realizar lucro, mas há riscos de isso não ocorrer. No entanto, Borges não acredita em perdas como as da bolha norte-americana em 2008. “Ações não machucam nem geram estrago tão grande”, resume.


“Se o cenário (de recuperação da economia) não se confirmar, haverá um ajuste importante dos patamares atuais da bolsa”
Silvio Campos Neto, Economista da Tendências Consultoria
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