Investidores estão preocupados com economia do país pós-eleições 2018

Sem clareza sobre quem serão os candidatos à Presidência da República no ano que vem, temor é de que uma proposta populista vença e o eleito não dê continuidade às reformas

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postado em 08/10/2017 06:00 / atualizado em 07/10/2017 20:49

 

Jose Cruz/Agencia Brasil

Os mercados estão em polvorosa. Após dois anos de recessão, os sinais de melhora da economia têm animado os investidores, que ainda acreditam na capacidade do governo federal em tocar a agenda de reformas no Congresso Nacional. Mas analistas de mercado e pesquisadores pregam cautela. Afinal, por mais que o ambiente econômico traçado neste ano alimente boas perspectivas de retorno financeiro, o pós-2018 preocupa.



Diferentemente das últimas eleições, quando havia um cenário mais claro sobre os potenciais candidatos à Presidente da República, a corrida presidencial de 2018 ainda é cercada de incertezas. O líder nas pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, será julgado em segunda instância pela condenação no caso do tríplex, o que pode torná-lo inelegível pela lei da ficha limpa. O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), segundo com mais intenções de votos nas pesquisas, sequer tem um economista que o respalde. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, virtual candidato e ‘queridinho’ do mercado, ainda não deu certeza se concorrerá.

No entanto, não são apenas as incertezas sobre quem efetivamente disputará a vaga no Planalto que deixam o mercado apreensivo. Dado o quadro atual de candidatos e do cenário econômico e social, a tendência é que os eleitores escolham postulantes com caráter populista, e não reformista. É o que analisa o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito.

Alguns dos sinais de melhora da economia vieram de um compromisso com o equilíbrio fiscal. A questão, avalia Perfeito, é que a população brasileira já está no limite do que pode suportar dos ajustes. “O que vejo é que os brasileiros não vão querer insistir muito mais em ajustes de ordem fiscal. Vivemos um ambiente de muito estresse do tecido social e econômico”, destaca.

Mais do que ícones da esquerda ou da direita, Lula e Bolsonaro representam para a grande massa da sociedade a esperança de uma recuperação dos empregos de melhor qualidade e do combate à violência urbana. Para avançar nessas agendas e conquistar votos com a promessa de aliviar o estresse social e econômico, uma agenda populista de aumento dos gastos seria naturalmente destacada pelos dois candidatos.

A própria impopularidade do presidente Michel Temer — que tem o governo aprovado por apenas 3% da população, segundo a pesquisa CNI/Ibope — é um sinal de não adesão à política de agenda de mudanças, ressalta Perfeito. “E é isso que preocupa o mercado. Hoje, não acredito que algum candidato consiga organizar um discurso suficientemente forte e coerente para manter a agenda de reformas”, justifica.

O risco de quebra na continuidade das reformas preocupa a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. Para ela, a possibilidade de ruptura na manutenção da agenda de ajuste fiscal está em 30%.  “Há chances de que um candidato reformista da base governista não se concretize com a pulverização das candidaturas dos partidos. Isso aumentará o risco de dois candidatos populistas chegarem ao segundo turno”, alerta. “Vamos ter o mesmo cenário de 1989 e, se os principais players hoje não se coordenarem, essa oferta de um candidato centro-direita pode abrir espaço para um outsider contra o candidato do PT no segundo turno”, completa.

O pós-2018 com um presidente notoriamente populista é um cenário que preocupa investidores e empresários. Para eles, o resgate do equilíbrio fiscal é essencial para manter a sustentabilidade do crescimento econômico. Os potenciais candidatos que poderiam manter a agenda de reformas, Henrique Meirelles e o prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), sequer dão sinais concretos de que competirão.

A depender da campanha bem-sucedida de um candidato populista nas eleições do ano que vem, a evolução do Produto Interno Bruto (PIB), a partir de 2019, pode ser modificada. Atualmente, os analistas contemplam um cenário de um governo pró-reformas. Mas tudo dependerá do nível de juros e do cenário externo.

 

Setor externo

 

Como os ativos brasileiros estão baratos, há a possibilidade de que a taxa de rentabilidade e retorno dos investimentos impulsione o setor externo e evite uma debandada de investidores, caso o populismo vença em 2018, destaca o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. “O cenário externo está relativamente favorável, com excesso de liquidez. Isso garante ainda algum interesse pelo mercado brasileiro, principalmente dos títulos públicos, que pagam uma das maiores taxas de juros do mundo”, destaca.


Na opinião da economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, em Washington, entretanto, os investidores internacionais estão mais preocupados com as eleições de 2018 do que com a crise política e a nova denúncia contra o presidente Michel Temer. Não à toa o fluxo de investimento estrangeiro direto caiu em agosto 10,4% em relação a julho, e o risco-país apresentou um substancial crescimento até o fim de setembro. “O que assusta o investidor estrangeiro é a incerteza sobre o que virá em 2019. Essa é a dúvida que todos têm. No Brasil, parece que está todo mundo alheio a essa possibilidade de um resultado ruim. É algo que não pode ser descartado”, alerta Monica.

As conversas de Temer e Meirelles com investidores estrangeiros, em Nova York, há três semanas, foram insuficientes para convencê-los. Embora a comitiva do governo federal tenha dito que as reformas estão caminhando, os agentes não compraram as perspectivas apresentadas. “O cenário ainda está muito nebuloso e eles têm dúvidas da velocidade de implementação dessa agenda, que não é a ideal”, adverte Monica.

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