"Desemprego vai cair a 8,5% em 2018", diz economista José Márcio Camargo

O economista-chefe da Opus Investimentos acredita que o processo de retomada da economia será impulsionado pela reforma trabalhista

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postado em 13/11/2017 06:00

Professor de três membros do Comitê de Política Monetária (Copom) — Ilan Goldfajn, Carlos Viana e Tiago Berriel —, o economista-chefe da Opus Investimentos, José Márcio Camargo, é um dos principais especialistas do país em macroeconomia e mercado de trabalho. Otimista em relação à recuperação da economia — ele espera que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 4% em 2018 —, avalia que o processo de retomada será impulsionado pela reforma trabalhista.

Para Camargo, a possibilidade de formalização de trabalhadores por meio de contrato intermitente trará mais liberdade para a negociação de salários, reduzirá as pressões inflacionárias e a taxa de juros estrutural, além de contribuir para que mais pessoas tenham a carteira assinada. “Minha estimativa é de uma taxa de crescimento de 4% em 2018, com inflação de 3,5%. E acho que teremos uma taxa de desemprego de um dígito no fim do ano que vem. Pela mesma razão. As pessoas estão subestimando os efeitos da redução da taxa de juros real e da reforma trabalhista”, afirma.

Nas contas dele, a taxa de desemprego terminará o ano entre 11% e 11,5%. E, em 2018, recuará para 8,5%. “O auge do desemprego foi 13,7%. Hoje está em 12,4%. Caiu 1,3 ponto percentual em um período em que a taxa de desemprego deveria aumentar. Agora vamos entrar em um período em que a taxa de desemprego, sazonalmente, cai bastante. Historicamente, a taxa de desemprego cai entre 1 e 1,5 ponto percentual”, diz. Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Correio:



O mercado de trabalho reagiu mais cedo do que se esperava, movimento que surpreendeu economistas. Qual a explicação?
Realmente, o mercado de trabalho surpreendeu. Na nossa avaliação, ele se estabilizaria no segundo trimestre e começaria a cair ao longo do terceiro. Mas começou a cair já no segundo. Por que reagiu mais rápido? Difícil saber. A primeira coisa importante, nesse contexto, é que a economia começou a reagir no primeiro trimestre. De alguma forma, reforçou a reação do mercado de trabalho no trimestre seguinte. O país gerou 1 milhão de empregos este ano. É um resultado substancial, principalmente, na saída da recessão. Outra coisa importante é que tínhamos uma taxa de inflação de 10% ao ano que, em seis meses, caiu para 3,5%. Isso gerou um ganho de renda real e fez com que o consumo aumentasse mais rápido, favorecendo o emprego. A queda da inflação é um dos fatores, a meu ver, que contribuiu para a reação antecipada do mercado de trabalho.


O país está gerando emprego por conta própria e sem carteira assinada.  Isso é uma mudança do mercado de trabalho?
Temos que separar as duas coisas: o emprego sem carteira assinada daquele por conta própria. No início do processo de retomada, é de se esperar que o emprego informal cresça mais do que o formal. A segunda coisa importante é que o trabalhador sem carteira é empregado do empresário que não assina a carteira dele. O trabalhador por conta própria não é empregado. Ele é um empreendedor. É o pipoqueiro que está na esquina vendendo pipoca, que investiu comprando a carrocinha. Ele não tem patrão. Independentemente de ser pouco qualificado ou pobre, ele está em outra categoria. O fato de que o emprego por conta própria cresce mais do que o normal, na minha avaliação, é um ótimo sinal, porque é um indicador antecedente de retomada da economia. Ele só está na esquina vendendo pipoca porque há demanda. Com a reforma trabalhista, estou convencido de que haverá um grande aumento da formalização porque haverá a possibilidade de contratação por meio do trabalho intermitente, com qualquer jornada. Existe um conjunto grande de ocupações na economia que são intermitentes. Um caso típico é do pintor. A vaga só existe em determinada fase da obra. Outro caso é o comércio. Na hora do almoço, o restaurante tem mais demanda do que no fim do dia. O restaurante não podia contratar um trabalhador para o horário do almoço porque a Justiça do Trabalho não permitia. A partir de agora, isso será possível. Como antes não era permitido, o empresário contratava informalmente. Agora, teremos formalização. 


Quais avanços as regras trabalhistas trarão?
A mudança da legislação trabalhista é um salto fora da era Vargas. Começamos com o processo de privatização no governo Collor. Agora temos um processo de privatização da Eletrobras, a depender do próximo governo, será possível privatizar a Petrobras. Mudamos a legislação trabalhista. Michel Temer fez uma quantidade de reformas impressionante para um ano e meio de governo. Mudou a lei do pré-sal, acabou com o represamento de preços de combustíveis. Estávamos encalacrados nesse processo há décadas. É difícil sair de um processo de gastos públicos e concessão de benefícios. O lobby contrário a mudanças se fortalece. Por isso, há resistência à reforma da Previdência e às privatizações.


Após a reforma da Previdência, precisaremos de mudanças no ambiente de negócios?
Certamente. É necessária uma reforma tributária para melhorar o ambiente de negócios. O sistema tributário brasileiro é confuso e difícil, de maneira que é fundamental simplificar a estrutura de impostos. É micro, mas macro, também. Outra reforma importante é a do cadastro positivo para melhorar o mercado de crédito e reduzir taxas de juros. Precisamos enfrentar a agenda da burocracia. Levamos muito tempo para abrir uma empresa no Brasil. Por que não conseguimos fazer isso em dois dias? Temos que reconhecer firma em cartório. Estamos na era da informação e precisamos de carimbo. São coisas pequenas que têm lobby pesado. 


A expectativa do mercado é de crescimento de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018. Por que a recuperação será mais lenta?
A recuperação é mais lenta porque famílias e empresas estão muito endividadas. O crescimento, entre 2005 e 2015, foi baseado no aumento do endividamento. Tanto das famílias que se endividaram para consumir, quanto das empresas que tomaram dívidas para investir. Em situações como essa, a crise é mais prolongada e a recuperação, mais lenta. Ocorreu nos Estados Unidos depois de 2008. É normal. As evidências empíricas mostram que todas as retomadas de situações em que os agentes estavam muito endividados foram mais lentas. Mas estou mais otimista do que a média do mercado. Eu acho que o mercado está subestimando os efeitos das reformas implementadas no último ano. Em especial, a trabalhista. Para diminuir o salário nominal do trabalhador, só é possível em negociação coletiva uma vez por ano. Isso parece bom para o trabalhador, mas não é. Quando o empresário não consegue pagar o salário, demite e contrata mais barato. Quando a recessão é profunda, não contrata ninguém. O empresário não vai propor negociação ao trabalhador porque, quando é demitido, ele entra na Justiça e ganha. Com o contrato intermitente, a negociação poderá ocorrer.


O que muda na prática?
Todo o processo do mercado de trabalho mudará. A demissão do trabalhador mais caro por um mais barato ocorre em momento de ajuste. Com isso, a taxa de desemprego aumenta e afeta a inflação. Esse período demora 18 meses entre o começo do processo até afetar a inflação. A partir de agora, vai demorar seis meses porque o empresário poderá negociar o salário do trabalhador, por meio do contrato intermitente. Assim, sinaliza que não quer demitir o empregado, mas precisa diminuir o salário porque a receita cai. Em vez de pagar R$ 2 mil, pagará R$ 1,8 mil. Isso vai se refletir diretamente na taxa de inflação. Quanto maior a taxa de desemprego, menor a taxa de inflação. Essa relação no Brasil é muito perversa. Para ter uma taxa de inflação de 4,5%, é preciso de desemprego de 13%, como ocorreu no ano passado. Isso vai melhorar substancialmente porque o empresário poderá negociar com o trabalhador um ajuste no salário de tal forma que possa repassar para os preços e buscar aumentar a demanda pelo produto. Na prática, precisará de juros mais baixos para a mesma taxa de inflação. Consequentemente, teremos mais crescimento porque terá mais acesso a crédito do que tinha antes.


Nesse sentido, quais são suas perspectivas para o crescimento econômico de 2018?
Minha estimativa é de uma taxa de crescimento de 4% em 2018, com inflação de 3,5%. Teremos uma taxa de desemprego de um dígito no fim do ano que vem. As pessoas estão subestimando os efeitos da redução da taxa de juros real e da reforma trabalhista. Na Alemanha, depois da reunificação em 1989, a taxa de desemprego explodiu e a economia estagnou. Entre 2003 e 2005, o governo alemão conseguiu fazer uma reforma trabalhista na mesma direção da nossa, para flexibilizar salários e mudar as regras do seguro-desemprego, que era benevolente. O resultado foi rápido e imediato. Foi uma queda substancial da taxa de desemprego e, em 2008, quando houve a crise internacional, foi o país que teve o menor aumento do desemprego no mundo. Quando você analisa o comportamento do mercado de trabalho na Alemanha, há um indício do que pode ocorrer com o brasileiro. Acho que teremos uma surpresa grande. Agora, por exemplo, o aumento da informalidade, com o crescimento de trabalhadores sem carteira assinada, é por conta da entrada em vigor da reforma trabalhista. O empresário não assinou carteira porque poderá contratar com contrato intermitente.


Qual seria a taxa de desemprego em um dígito?
Entre 8,5% e 9%. Essa deve ser a taxa no fim de 2018. Este ano, vamos fechar com desemprego entre 11% e 11,5%. Não entendo por que o mercado está tão pessimista. O emprego começou a reagir antes do esperado. O auge do desemprego foi 13,7%. Hoje está em 12,4%. Caiu 1,3 ponto percentual em um período em que deveria aumentar. Agora, vamos entrar em uma fase em que a taxa de desemprego, sazonalmente, cai bastante entre 1 e 1,5 ponto percentual. Ou seja, teremos desemprego de 11,4%. A conta é simples. Todo ano é assim. Todos os sinais são de desemprego mais próximo de 11%.


O Natal dos brasileiros será melhor?
Será melhor, não tenho a menor dúvida. Muito melhor do que o dos dois últimos anos. A dúvida é zero. Uma coisa importante é que, se o meu cenário realmente se materializar, vamos chegar no fim do ano com uma sensação de bem-estar da população muito diferente do que a gente tem hoje. Na verdade, isso já começou a ser notado. Daqui a um ano, teremos inflação de 3,5%, taxa de desemprego de 8,5% e economia crescendo 4%.


A inflação baixa é fruto de todo esse processo?
Ela é fruto de um Banco Central (BC) responsável e competente, que se recusou a reduzir juros, em agosto do ano passado, quando existia pressão por conta da expectativa para a inflação de 2018 e 2019 acima da meta. O BC bateu o pé e só começou a diminuir juros quando as expectativas para a inflação convergiram para a meta. Em regime de metas para a inflação, as expectativas são fundamentais. Se você dá aos agentes a ideia de que não vai respeitar a âncora, a inflação cresce. Apesar de toda a crise política, a economia está crescendo. A taxa de inflação é de 3%. A de desemprego está caindo, apesar de toda a crise política. Quando você imaginaria, há cinco anos, algo desse tipo? Nunca! Esse é o ponto. O Brasil é mais forte do que cinco anos atrás porque fez as reformas. 


O BC levará os juros abaixo de 7% ao ano?
Se a reforma da Previdência for aprovada, não tenho a menor dúvida. Se não for, o BC terá de esperar para ver a reação do mercado. O Brasil está se tornando um país mais normal. E a normalidade internacional passa por taxas de juros mais próximas de 3% e 4% do que de 7% e 8%. É verdade que temos eleição em outubro do ano que vem. Teremos volatilidade, mas, se o cenário positivo se verificar, a possibilidade de eleger um presidente apoiado pelo governo é grande. Estou otimista.
 
 
 
 

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