Tony Volpon, economista do UBS: 'Mercado quer centro com candidato único'

Especialista diz que nome da base teria grande chance de vencer e traria expectativa de continuidade das reformas

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postado em 17/12/2017 07:30 / atualizado em 17/12/2017 08:41

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

São Paulo – O poder de vencer as próximas eleições não está nos extremos, mas sim no centro, avisa Tony Volpon, economista-chefe do banco suíço UBS no Brasil. Ele explica que o pleito é uma função produtiva com base em insumos como tempo de tevê, doações em dinheiro e apoio de prefeitos. Qualquer candidato  do governo, ele ressalta, tende a levar vantagem.

O problema, alerta o economista, é a atual divisão no grupo em torno do Planalto. É a isso que o mercado vem reagindo mal, muito mais do que à alta nas intenções de votos declaradas em pesquisas dos candidatos extremistas. Até mesmo o adiamento da reforma da Previdência é um fato menor, já esperado antes.

Diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) até o ano passado, durante o governo de Dilma Rousseff, ele critica duramente o fato de a necessidade de ajuste fiscal ter sido omitida na eleição de 2014. Espera que isso não se repita na próxima campanha.

Como cenário mais provável em 2018, ele prevê a aceleração do crescimento econômico. Para o país continuar prosperando, porém, é preciso eliminar o rombo nas contas públicas. Mudar as regras de aposentadoria é apenas uma etapa nessa caminhada, que precisa incluir gastos públicos melhores, focados na parcela da população que realmente precisa.

Volpon participará na próxima terça-feira do seminário Correio Debate – Desafios para 2018, na sede do jornal (leia texto abaixo). A seguir, o que ele pensa sobre a intrincada relação entre política e economia na atual quadra.

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Até onde vai a Selic?

O último comunicado foi bastante claro, indicando probabilidade muito alta de que será cortado 0,25 ponto percentual, mas que, na próxima frase, a continuidade do ciclo recomenda cautela. Se o BC olhar para frente, como ele faz, vai ver que várias coisas já estão apontando para um crescimento acelerado, portanto não haveria necessidade de adicionar estímulo monetário. O cenário ruim é totalmente oposto, mas leva à mesma conclusão: se, por fatores domésticos ou externos, houver uma piora do quadro como um todo, isso deve impactar preços como o câmbio e juros futuros. Isso apontaria para uma piora do quadro fiscal no próximo governo. E, a partir desse ponto, o BC ficaria constrangido a baixar mais os juros. Mas existe um caminho do meio, em que a situação não está tão ruim do ponto de vista das reformas e a economia está OK. Poderia cortar ainda mais e ir para 6,5%.

Qual a chance para esse caminho do meio?

Eu acho pequena. Há uma tendência em anos eleitorais de ir para um lado ou para o outro.

O que levou à mudança do quadro desde a sua saída do BC, no ano passado?

A inflação está carregando os efeitos da mudança de governo no ano passado, aumentando a confiança dos agentes em relação à questão fiscal, que estava contaminando as expectativas de inflação. Houve o efeito da recessão, que foi muito importante para baixar a inflação de serviços, por meio do desemprego, e houve a sorte de a alimentação despencar.

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

Mas essa contribuição vai acabar, certo?

Ninguém sabe. Uma das dúvidas de cenário é se haverá ou não uma reversão à média da inflação de alimentação. Um argumento é que se passaram muitos anos com esse item subindo. Não corrigiu ainda toda a alta que houve por conta de vários choques. Pode continuar a cair, pois a alimentação, como bem, é algo que ainda está caro, em comparação com um passado não muito distante.

Qual a contribuição da política monetária na retomada que estamos vivendo?

Bastante forte. Em 2016, a mudança na política teve um impacto relevante, e, algo que não se comenta muito, uma grande melhora na China no início do ano passado. Um canal mais direto para a gente são os termos de troca, que haviam caído de 2011 até aquele momento. Foi uma sorte do governo do presidente Michel Temer. Muito do que a gente vê em balança comercial e resultado em conta-corrente, que estão excelentes, é esse efeito de preço. O segundo impulso veio quando o BC começou a reduzir juros. Já que há uma defasagem, muito ainda vai cair em 2018. O momento do crescimento da economia é forte. Tem de haver algo muito significativo em termos de volatilidade para jogar isso para o buraco.

Por que tivemos uma crise tão grande?

Em 2015 houve a decepção com a situação fiscal, em julho, quando a presidente Dilma Rousseff decidiu mandar o orçamento com deficit pela primeira vez. Isso não foi bem comunicado, ocorreu no fim de semana, sem o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, participar da reunião. Mas o azar é que isso aconteceu e depois veio a desvalorização chinesa, em agosto. Foi uma soma de piora interna e externa. Agora houve uma piora discreta das condições domésticas em função da Previdência. A curva de juros empinou e o câmbio se desvalorizou. Mas isso está sendo compensado por uma melhora externa.

Nossa situação vai melhorar?

Se houver uma trajetória política muito positiva, e eu tinha maior confiança nisso há alguns meses do que hoje, o crescimento poderá ser maior do que 2% em 2019, aliás bem acima de 3%. Há espaço para isso.

Qual a maior preocupação no cenário político? A ascensão de Lula e Bolsonaro?

Não. A visão do mercado é que se vence uma eleição com recursos: dinheiro, tempo de tevê e apoio de prefeitos, entre outros itens. Se a coligação no poder for para a eleição junta, ela terá muito mais chances do que outra candidatura. O que tem piorado é a ideia de possível dispersão de esforços.  O problema não está nos extremos, mas na divisão do centro. O mercado só não está em pânico porque sabe que, neste momento do ciclo eleitoral, há muita negociação. Tem que esperar até abril ou maio para ver. Agora, há um pouquinho da precificação com essa frustração e com a Previdência. As pessoas já estavam mais ou menos achando que ela não iria passar mesmo. Estou até impressionado pelo esforço do governo. O problema é que falhar depois de um esforço grande é interpretado como algo negativo.

Se não conseguir aprovar e ainda houver uma divisão nas eleições, então teremos estresse no mercado?

Sim.

O senhor acha que a tendênciaé a Selic subir em 2018?

Com as informações que eu tenho, e reconheço que eles têm muito mais informações, eu pararia nos atuais 7%, que já têm o poder simbólico de serem a menor taxa da história, e pararia aí. A grande tragédia do cenário eleitoral, com suas incertezas, é que a gente tende a perder a janela de poder baixar os juros ainda mais e grudá-lo nesse patamar.

O que grudaria a inflação no atual patamar?

Um horizonte em que a política fiscal se torna irrelevante.

Isso pressupõe um superavit de quanto?

Como se está partindo de um ponto ruim,  se você tiver a ideia de que esse deficit vai virar superavit, já se criaria um impulso de demanda negativo, que ajudaria a grudar a inflação lá embaixo. A inflação tem essa questão inercial. Se você fica dois a três anos com a taxa em 2% a 3%, a tendência é de que permaneça. Isso ajudaria a economia a crescer, apesar de ajuste fiscal. É algo que se perde muito no debate, principalmente na esquerda. O ajuste não pode ser muito dilatado, nem muito rápido. Tem um meio termo entre o que a Grécia fez e algo para 20 anos, que não impacta nada. O meio termo. Durante o primeiro mandato do Lula, pela atuação que ele teve entre 2003 e 2006, criou-se a impressão de que estabilidade fiscal era um consenso suprapartidário. Mas isso se perdeu. Tem “n” reformas da Previdência possíveis. Pode-se imaginar uma petista, de esquerda, o importante é onde chegar. O que deveria ser discutido não é se vai ter ou não um ajuste fiscal. É como fazer. Se a pessoa falar “não vou resolver”, então ela está mentindo para o povo brasileiro.

Esse filme já passou, certo?

A Dilma se elegeu negando a necessidade de fazer o ajuste, chegou e fez e fracassou. Há o problema da falta de credibilidade de tentar fazer isso depois de ter negado na campanha. A gente pode enfrentar esse problema de novo.

Quais as alternativas para cortar gastos?

O Brasil é muito mal tributado, a meu ver. A esquerda poderia fazer o sistema mais progressivo, por exemplo, não só do ponto de vista da tributação, mas das transferências de renda. O nosso sistema de subsídios transfere renda para os mais ricos.

Mas isso implicaria acabar com gratuidade em universidades, reduzir salário de funcionário público. São coisas possíveis?

Uma esquerda iluminada deveria fazer isso. Estou sendo idealista. O Estado brasileiro arrecada muito, mas não gasta tanto, afinal não investe. Transfere muito. O governo petista melhorou a transferência para os mais pobres sem mexer nas transferências para os privilegiados. Aumentou o gasto em uma época em que se podia fazer isso, porque a economia estava crescendo de modo acelerado. Chega um momento em que se tem que fazer uma escolha, e aí não fez. Essa eleição deveria ser sobre essa escolhas.

O senhor acha que a dívida vai passar de 100% do Produto Interno Bruto (PIB)?

Não é nossa previsão. Eu acho que vai acontecer alguma coisa: fazer ajustes, tributar melhor, fazer mais ricos pagarem. Pode-se também dar calote, mas isso é improvável, porque uma das peculiaridades do Brasil é que grande parte da dívida local está na mão de brasileiros. A solução vem. Só não está claro se precisamos de outra crise para chegar a ela. Como fruto da crise de 2015, tivemos teto dos gastos, reforma trabalhista etc. Da eleição, pode sair solução ou outra crise. O investment grade que chegamos a conquistar foi um filho bonito da crise de 2002.

A crise foi tão forte que Lula se converteu. É possível isso de novo a ele ou a algum candidato petista?

Sim, se ele quiser.

Alguém vai acreditar?

O mercado é menos ideológico do que as pessoas acham. Não sei o Leblon, o cara A ou B, digo no agregado. Não há má vontade com ninguém. Lula critica o que houve no governo Dilma, de vez em quando. Não sei como esse discurso ao longo do tempo vai evoluir se for candidato de fato.

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Temer e ministros no Correio

O presidente Michel Temer; o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles; o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira; o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn; representantes dos principais segmentos produtivos; e analistas participarão na próxima terça-feira, entre as 9h30 e as 14h, do seminário Correio Debate – Desafios para 2018, que será realizado no auditório do jornal. Foram realizadas 140 inscrições.

O presidente do BC vai expor o tema “O que esperar de 2018”. Em seguida, o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, apresentará suas expectativas. Depois terá início o Painel 1 “Brasil — Desafios e Tendências” com a participação dos economistas Tony Volpon (UBS), Zeina Latif (XP Investimentos) e Thaís Zara (Rosenberg Associados). Em seguida, será a vez de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, apresentar sua visão para 2018.No Painel 2 será discutida “A base para a retomada do crescimento”, com os representantes das confederações nacionais da Agricultura (CNA), Roberto Brant; do Comércio (CNC), Fábio Bentes; e da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, além do presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins.

O encerramento será feito pelo presidente Michel Temer. Será possível acompanhar o evento ao vivo pelo site do Correio e redes sociais.
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