Com economia retomada com ajuda do consumo, país precisa de investimento

A recuperação do país é calcada no consumo, filme que já vimos. Para crescer de verdade, empresas precisam ter vontade e capacidade de se modernizar

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postado em 27/12/2017 07:20

Pacífico/CB/DA Press
Embora o otimismo em relação à economia esteja de volta, com o aumento do consumo, é cedo para falar em uma retomada dos investimentos capaz de conferir o impulso necessário para o crescimento sustentável do país. Para especialistas, isso deve começar a ocorrer no segundo semestre de 2018 e, de forma mais significativa, apenas quando 2019 chegar. A capacidade instalada da indústria permanece com níveis altos de ociosidade, a construção civil não saiu da recessão e o comércio continua fechando lojas, mesmo que em patamares bem menores do que em 2015 e 2016.

Como o governo está sem dinheiro, por conta do grave quadro fiscal, convocou o capital privado para impulsionar os investimentos por meio do Programa Avançar Parcerias, com o qual realizou concessões e privatizações que devem garantir o aporte de R$ 142 bilhões em empreendimentos de infraestrutura ao longo de algumas décadas. Se outros 75 projetos saírem do papel, a estimativa é de injeção de mais R$ 132,7 bilhões também no decorrer de vários anos.

A expectativa do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de crescimento para 2018, é baseada no aumento do consumo da energia elétrica e no incremento do investimento em máquinas e equipamentos a partir do segundo semestre. Dados preliminares de medição coletados pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, entre os dias 1º e 18 de dezembro, apontam aumento de 2,8% no consumo e de 3,2% na geração de energia elétrica no país, na comparação com o mesmo período de 2016.

No entanto, para José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Construção Civil (CBIC), não há como o país crescer sem a âncora do setor, que é o mais dependente de investimento e de capital novo. “A construção civil não saiu da crise. Fechamos 2017 com quase 6% de queda”, afirma. “Construção civil é investimento, que é ligado diretamente à expectativa. O juros futuros ainda estão em 10% e 11%. As pessoas têm que ter um mínimo de tranquilidade para investir. Ninguém vai deixar de ir ao supermercado, mas não vai comprar um imóvel se estiver sem dinheiro”, explica.


Condicionantes

Martins assinala que o governo está otimista, mas as previsões positivas só vão se concretizar com uma série de condicionantes. “Se não aprovar a reforma da Previdência, se não resolver a questão dos distratos (anulação de um contrato pactuado entre partes, com devolução corrigida dos valores pagos), se não fizer andar as concessões, vai continuar só na expectativa”, alerta. A construção civil se ressente do alto nível de distratos realizados entre 2015 e 2016, o que deixou as construtoras sem capital para realizar novos investimentos. “Precisamos trabalhar com coisas estruturais. Não bastam cosméticos. O ponto básico é segurança jurídica, que é importante tanto para resolver o caso dos distratos quanto para atrair investidores para as grandes obras”, afirma.

No entender do gerente executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, o mercado brasileiro continua sendo atrativo e há grandes projetos de infraestrutura a serem realizados. “Agora, para que os negócios das empresas fluam com mais rapidez, celeridade e produtividade, é preciso criar condições microeconômicas, com reformas de regulação, na questão ambienta e no uso da mão de obra”, afirma.

O economista explica que a indústria brasileira, que mergulhou três anos seguidos em recessão profunda e só emerge agora, ainda trabalha com alta capacidade ociosa, o que atrasa um pouco o investimento. “Temos que pensar que os produtos mudam, as empresas têm necessidade de atualização tecnológica, o que demanda investimento. Mas isso precisa ser construído em um ambiente de segurança. Como a taxa de juros está baixa, pode incentivar o retorno dos investimentos em projetos produtivos”, aposta.

Por muito tempo, assinala Castelo Branco, as altas taxas de juros asseguradas por títulos públicos capturaram a poupança da população e das empresas. “O Estado expulsou os investimentos. Agora, esperamos o contrário. As empresas já estão começando a pensar nisso, mas o sistema financeiro privado tem que se ajustar para oferecer crédito”, defende. O economista também não acredita que o aumento do consumo das famílias seja suficiente para promover o crescimento. “O nosso grande desafio é reativar o aumento da produtividade. A reforma trabalhista ajuda nisso e as reformas microeconômicas, também.”

Risco

O único risco na opinião do gerente da CNI é o calendário eleitoral. “Gera incerteza e inibe decisões mais drásticas de investimento. O ambiente de previsibilidade de longo prazo tem de ser estendido o máximo possível para que os aspectos positivos do investimento comecem a acontecer ainda em 2018. Só com confiança de que a economia vai retomar um ciclo longo de crescimento é que as indústrias vão começar a investir. As empresas que tomarem as decisões antes terão vantagens no mercado”, diz.

Mesmo que a ocupação da capacidade instalada esteja crescendo timidamente, a pesquisa de Sondagem Industrial da CNI mostra que o uso é o maior em quase três anos, e a intenção de investimento segue em trajetória de alta. A indústria operou, em média, com 68% da capacidade instalada em novembro. Apesar da alta, o índice está seis pontos percentuais abaixo do registrado na média dos meses de novembro entre 2011 e 2014.

A mesma pesquisa aponta, ainda, que as expectativas dos empresários em dezembro estão mais otimistas do que no fim de 2016. O índice de intenção de investimento aumentou 1,6 ponto na comparação com novembro e atingiu 52,2 pontos. Foi o sexto mês consecutivo de alta no indicador, que está 7,6 pontos acima do registrado no fim de 2016 e é o maior desde dezembro de 2014, quando registrou 52,4 pontos.



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