Fazer planejamento é essencial para se organizar financeiramente em 2018

Especialistas alertam para o perigo das armadilhas e dos ciclo de dívidas que o mercado oferece. Organização e controle são as palavras de ordem para quem quer tirar, de vez, a corda do pescoço

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postado em 01/01/2018 07:00 / atualizado em 31/12/2017 16:47

Fernando Lopes/CB/D.A Press
 Cartão ou dinheiro, débito ou crédito, parcelado ou à vista, pagamento online, cheque, transferência ou boleto. Hoje em dia, a variedade de opções para pagar uma compra é tanta que pode levar o consumidor a cair em armadilhas e entrar em um ciclo de dívidas. Pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostra que quase 60 milhões de brasileiros estão com contas em atraso ou com o CPF restrito, o que impede empréstimos ou compras parceladas.

Para Alexandre Fragoso, educador financeiro do Instituto Eu Defino, não basta quitar as dívidas para escapar desse círculo vicioso. É preciso mudar o comportamento. “Sem fazer isso, a pessoa sai de uma dívida, mas, em seguida, já assume outra. É necessário priorizar os gastos”, diz.

Para o especialista, o autoconhecimento é o primeiro passo para ter uma vida financeira equilibrada. “Se não me conheço financeiramente, não consigo adotar uma estratégia para me organizar. Um modo simples de fazer isso, é anotar todos os gastos do mês e agregá-los em grupos ou categorias para ter noção de qual parte da rotina diária está custando mais — e se o valor empregado é realmente necessário”, sugere.

Definir objetivos é o segundo passo indicado por Fragoso. “É o mais difícil, mas é importante saber o que você quer alcançar por meio do dinheiro. Isso o ajudará a evitar gastos desnecessários e a traçar o melhor caminho para sua vida financeira”, pontuou. O terceiro passo é elaborar um orçamento que equilibre os fluxos de gastos e de renda. “Isso permite que a pessoa estabeleça um limite. Ela deve saber primeiro a quantia que entra na conta bancária. Depois, calcular quanto custarão as realizações pessoais e o prazo que tem para alcançá-las. A partir daí, ela pode definir quanto precisa guardar mensalmente para comprar o que deseja”, ensina o educador.

Fragoso chama esse método de ARO (Autoconhecimento, Realizações e Orçamento) e o compara com o ato de andar de bicicleta. “No primeiro momento, é difícil pedalar. Depois, você ganha velocidade e faz menos esforço. Se parar de pedalar, a bicicleta roda sozinha por um tempo, mas vai cair em algum momento, assim como o consumidor cai nas dívidas”, compara.

Para Rogério Olegário, diretor executivo da Libratta Finanças Pessoais, não existe uma regra básica para economizar, pois o que é importante para uma pessoa pode não ser para outra. “Na verdade, economizar é uma palavra que lembra restrição, e ninguém gosta disso, parece algo dolorido. O ser humano busca sempre o prazer e o conforto”, comenta. Por isso, Olegário sugere que as pessoas pensem em termos de realização de objetivos, pois é mais fácil guardar dinheiro tendo em mente as coisas boas e positivas que quer obter. Outra orientação é não esperar sobrar dinheiro para, depois, investir. “Tem de calcular antes e já deixar separado quanto vai investir, no em e para que”, afirmou.

A saída que Olegário indica para manter o equilíbrio financeiro é planejar as despesas para que elas caibam no orçamento. “As pessoas ficam apertadas porque gastam acima da capacidade e, normalmente, desconsideram despesas do dia a dia, mesmo sabendo que são indispensáveis. Quando algum evento inesperado acontece, elas têm de contrair dívidas e pagam juros”, observa. “É preciso ter um plano de voo, disciplina e compromisso consigo mesmo.”

Desejos


Myrian Lund, planejadora financeira e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), observa que, ao fazer uma planilha financeira, sempre é possível descobrir como reduzir gastos. “A mudança de hábito tem que tirar o consumidor do cheque especial. Juntar o dinheiro para liquidar uma dívida é um passo importante dessa transformação”, ressalta. Outra recomendação é ter cuidado com os desejos imediatos. “O grande segredo para ter um ano diferente é agir devagar”, diz Myrian Lund, observando que decisões tomadas por impulso são armadilhas para o consumidor e que aprender com os erros passados é essencial.

A professora da FGV alerta ainda que é preciso ter cuidado com as promoções. “Quando se vê diante de uma oferta vantajosa, o consumidor tende a comprar mais do que o normal e, consequentemente, gasta mais. Muitas vezes, porém, ele nem precisa do produto, que leva somente por estar barato. É necessário usar a razão para não estourar o orçamento”, completa Lund.
 

Rentabilidade com segurança 


O mercado de investimentos pode parecer um “bicho de sete cabeças” para quem não está acostumado, mas existem investimentos simples e de menos riscos, indicados para investidores iniciantes. O tesouro direto é considerado uma das aplicações mais seguras para investimento em renda fixa e, muitas vezes, com uma rentabilidade superior à da caderneta de poupança. “Existem aplicações mais atrativas, mas é um bom começo para quem vai ingressar nesse mundo, posso indicar mesmo sem conhecer o cliente, porque é uma questão de render para ganhar poder de compra”, afirmou Matheus Portella, analista da Rise Investimentos.

Investir no tesouro direto nada mais é do que aplicar em títulos públicos, emitidos pelo governo para captar recursos. Ou seja, ao investir nesses papéis, a pessoa realiza um empréstimo ao país e esse é um dos motivos pelo qual esse título é considerado de baixo risco. No resgate, o governo paga o valor emprestado em uma determinada data acrescido de algum índice ao qual é atrelado, como inflação, taxa básica de juros (Selic).

Silvio Campos, economista-sênior da Tendências Consultoria, ressalta que o tesouro direto é um facilitador para que a população possa economizar. “É um mecanismo seguro para guardar dinheiro, mas é preciso levar em conta objetivos e prazos na hora de investir. Cada pessoa sabe o que pretende ao guardar dinheiro. O tesouro direto é uma alternativa que oferece várias possibilidades”, disse.

O investidor pode comprar títulos públicos diretamente no site do Tesouro Direto (http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro-direto), para isso basta ter CPF e uma conta com algum banco ou corretora habilitados, chamados agentes de custódia. A quantidade mínima de compra é a fração de 0,01 título, ou seja, 1% do valor de um título, respeitando o valor mínimo de R$ 30. Não há limite financeiro para venda, o investidor pode comprar 0,01 título, 0,02 título, 0,03 título e assim por diante. O valor máximo para aplicação é R$ 1 milhão por mês.

Rendimento


O pré-fixado atrelado à Selic rende 100% da taxa, tida como justa para remunerar sem risco o investimento. Hoje a taxa atual justa é de 7%, um valor baixo quando comparado aos anos de 2010 e 2012, 10% e 12% respectivamente. Por já possuir uma definição prévia, não tem oscilação. Em 2017 — até 28 de dezembro —, o rendimento dos papéis atrelados à taxa básica estava em 9,8%.

O advogado Fernando Albuquerque, 32 anos, começou a aplicar em títulos públicos no fim de 2014, início de 2015, quando a Selic estava mais alta do que agora. “O préfixado estava em um bom patamar e a inflação, não tão alta. Eu estabeleci alguns objetivos e sonhos e, para realizar, tinha que atingir determinado valor. Na época, o tesouro direto tinha as melhores taxas e dava um bom retorno”, contou.

Ele e a mulher avaliaram que a economia daria uma guinada e decidiram se organizar financeiramente de forma a fazerem o dinheiro render. “Queríamos um carro e até um apartamento, procuramos uma assessoria para pegar dicas. Eu não sou do mercado e não tenho o hábito de acompanhar diariamente o que está acontecendo, qual o rendimento desta ou daquela aplicação, então a presença de um profissional foi importante”, explicou.

Hoje, ele tem alguns papéis préfixados, equivalentes a 30% da carteira inicial, que vencem neste mês, e por isso não valeu a pena resgatar. Os outros 70% ele remanejou para outros investimentos. “Acho que em qualquer investimento, inclusive o tesouro direto, é preciso entender o objetivo e o sonho que você pretende realizar com o dinheiro. Dessa forma, adequamos o investimento ao que pretendemos”, finalizou.

Demetrius Lucindo, analista da DMBL Investimentos, alerta que o principal risco do investimento no tesouro direto é que, apesar de o resgate poder ser feito a qualquer momento, a rentabilidade acompanha o mercado e, se a pessoa tiver que retirar o dinheiro antes do prazo de vencimento, corre o risco de perder dinheiro. “As pessoas se assustam com isso porque os prazos de vencimento podem ser longos, mas se o investidor tiver a garantia de que poderá esperar o período contratado para o resgate, não terá problemas. A pessoa não tem que se preocupar com a baixa do título no mercado antes do vencimento se não for retirá-lo”, explica.

Os títulos do tesouro direto podem ser pré ou pós-fixados, com pagamento de juros semestrais ou no vencimento e de acordo com o índice sobre o qual será feita a remuneração. Na hora que o investidor vai realizar a compra, tem à disposição uma série de vencimentos para cada tipo de título, basta aplicar no que mais se adequa aos seus objetivos. 

 
Facilidade para aplicar 

 
O economista-sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos, aconselha a aplicação no título pós-fixado atrelado à Selic aos investidores que desejem resgate em prazos mais curtos. Na opinião dele, entretanto, o investimento de longo prazo é a melhor forma para se proteger da inflação.

A consultora de imagem e estilo Bárbara Vieira Aguiar Souza, 25 anos, começou a investir em títulos públicos há seis meses, após ver alguns vídeos sobre a parte financeira. Por meio de uma youtuber específica, que fez um passo a passo do funcionamento do tesouro direto, ela se interessou pela aplicação. “Antes disso, eu achava que era algo muito distante, não entendia nada, e que era só para gente que tinha muito dinheiro. Da forma como ela explicou no vídeo, eu me senti segura. Comprei 0,01 depois aumentei para 0,02, depois 0,03 e cada vez mais fui entendendo como funciona”, afirma.

Com a decisão de poupar tomada, ela viu nos títulos públicos uma forma de fazer o dinheiro render mais. “Já que vou deixar aplicado por um tempo, prefiro que seja em um local com bom rendimento”, disse. Bárbara destaca que sentiu falta de uma explicação mais didática no site do Tesouro. “Seria do interesse deles que as pessoas entendessem melhor. É um assunto que ainda precisa ser explorado com a população”, observa.

O analista Demetrius Lucindo,da DMBL Investimentos, orienta os investidores a prestarem atenção às possíveis mudanças na economia, antes de decidirem sobre qual título é melhor para seus objetivos: o pré ou o pós-fixados. “As pessoas não sabem e aplicam mal. O que acontece é que, normalmente, os bancos cobram taxas administrativas altas, então, o tesouro direto, a longo prazo, é melhor. Além de só cobrar uma taxa de custódia, você pode investir um valor pequeno a longo prazo”, observa.

Bárbara começou a estudar sobre investimentos, ler livros, não só sobre o tesouro direto, para se familiarizar. “Eu descobri que não é tão difícil quanto eu achava. Tenho interesse de investir em outras modalidades futuramente, porque acho que ainda preciso estudar mais. É um passo maior, os riscos são maiores”, observa.

Praticidade


A médica Adriana Cocimell de Lima Moura, 53, investe nos papéis do Tesouro há cerca de um ano e meio, quando decidiu migrar da poupança. “Meu marido é economista e sugeriu que eu colocasse no tesouro direto, já que o valor era baixo. Eu pesquisei, ouvi falarem muito bem e decidi”, explica.

Ela conta que precisou fazer algumas retiradas e que o processo não foi complexo. “Para colocar dinheiro também é prático. “Para colocar eu faço do computador e, na vez que retirei, no mesmo dia já caiu na conta”, disse. Agora ela deixa uma parte na poupança para gasto do dia a dia e alguma emergência, mesmo sabendo que o rendimento é mais baixo.

Na opinião de Demetrius Lucindo, as pessoas do Brasil são mal-informadas e há uma escassez de cultura financeira. “Não só as pessoas de renda mais baixa, para quem tem um valor mais alto na conta também falta uma boa orientação e cultura sobre isso. É necessário ter conhecimento dos riscos para conseguir realizar um bom investimento”, afirmou.  
 

*Estagiária sob supervisão de Odail Figueiredo
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