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Correio Braziliense

Sem família na capital, idosas vivem como irmãs no Lar dos Velhinhos

Josefa Ramos de Oliveira e Maria das Dores Conceição Andrade chegaram em Brasília em 1980 e 2005, respectivamente e se conheceram há dois anos

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postado em 21/04/2016 21:00 / atualizado em 21/04/2016 18:37

Maryna Lacerda

Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press
 

 

Elas não são ligadas pelo sangue, mas a convivência diária fez de Maria das Dores Conceição Andrade, 76 anos, e Josefa Ramos de Oliveira, 71, uma família. As duas se conheceram há pouco mais de dois anos, no Lar dos Velhinhos Maria Madalena, no Núcleo Bandeirante. Desde então, estão sempre juntas. Ambas vieram para Brasília em busca de trabalho e melhores condições de vida, e aqui decidiram ficar na terceira idade. Com o passar dos anos, o cuidado com a saúde ficou mais difícil e elas foram acolhidas na instituição.

A relação delas completa os laços familiares que a vida deixou para trás. Nascidas em estados diferentes — Das Dores é de Ilhéus, na Bahia; Josefa, de Pirapora, em Minas Gerais —, elas vieram para a capital sem outros parentes. Tal como mãe e filha, Josefa ensina a Das Dores o convívio social, prejudicado pela doença mental. Dos livros que lê, a mineira repassa à baiana o que absorveu de interessante. Em retribuição, os quitutes que Das Dores prepara na cozinha do Lar dos Velhinhos são oferecidos ainda quentinhos. Nos intervalos das atividades diárias, como a fisioterapia e os cursos, elas encontram brecha para fazer piadas e rir, como duas irmãs. “Aqui, somos uma irmandade”, afirma Das Dores.

A cidade dos sonhos de tantos também acolheu o de Josefa. “Eu tinha o sonho de ser uma cozinheira famosa. Vim para trabalhar na casa da família de um ministro da Justiça. Trabalhei em dois momentos. No primeiro, fui faxineira, passadeira, cozinheira e aprendi até mesmo a coordenar uma obra.” Tempos depois, quando voltou à casa da família, exerceu a atividade preferida. “Cozinhar em casa de ministro é ter que saber fazer de tudo. Servi muitos jantares importantes”, conta. Anos depois, quando o ministro morreu e a família se desfez do imóvel, no Lago Sul, Josefa foi morar sozinha. “Fui para Belo Horizonte e voltei para cá. Quis ficar em Brasília, porque passei a maior parte da vida aqui e é onde conheço tudo. Estava sozinha, em casa, quando a assistência social veio me buscar e me trouxe para o lar”, explica.

Na instituição, Josefa sentiu empatia imediata por Das Dores. “Ela foi a única com quem consegui fazer amizade mesmo.” A confiança foi recíproca. “Eu não conversava direito com as pessoas, por causa da doença. Com ela, eu consigo”, conta a baiana. Das Dores mudou-se para Brasília após ficar viúva. “Morava no Rio de Janeiro, quando perdi meu marido. Aí o mundo caiu na minha cabeça: não tinha mais ele, nem minha mãe, nem meu pai. Não suportei tudo isso.” Ela ainda trabalhou informalmente, mas os sintomas da enfermidade se agravaram e teve de abandonar a ocupação. “Eu andava pelas ruas sem destino, com a mão na cabeça. Então, me trouxeram para cá e eu fui atendida e medicada.” O Lar dos Velhinhos Maria Madalena, instituição conveniada com o governo local, acolhe mais 84 idosos.

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