Tempo de se encantar com os ipês

As flores roxas já tomaram a cidade e despertam a atenção dos brasilienses. Próximo ao Congresso Nacional, à Catedral, nas asas Sul e Norte e em diversos outros pontos, elas embelezam a capital.

postado em 03/08/2015 13:01 / atualizado em 03/08/2015 13:01

Paloma Suertegaray

Minervino Junior/CB/D.A Press


Em meio à seca trazida pelo inverno — ainda que a chuva tenha surpreendido os brasilienses ontem —, a capital começa a florescer. A explosão de cor que tomou conta dos eixos, das quadras e das comerciais se deve ao ipê, um dos ícones da paisagem da cidade. Os primeiros a embelezar as ruas são os roxos, que há algumas semanas estão salpicados de cachos vibrantes, em contraste com o céu azul. Não importa há quantos anos vivam na cidade, as belas árvores floridas não deixam de causar admiração nos moradores. Alheio ao trânsito e à correria do dia a dia, é comum ver algum pedestre com o celular apontado para os galhos coloridos entre os prédios.

O office boy Igor Lopes, 21 anos, mora em Ceilândia e trabalha no Plano Piloto. Com a chegada da estação seca e do clima fresco, aproveita para fazer um passeio diferente antes de começar o expediente. Ele desce do ônibus perto do Memorial JK, aluga uma das bicicletas laranjas do Bike Brasília e segue o caminho até o trabalho, atravessando o Eixo Monumental às pedaladas. Com os ipês floridos, o trajeto ficou ainda mais bonito. “Eles deixam a cidade cheia de cor e chamam a atenção de quem passa. São a cara da capital”, diz.

Minervino Junior/CB/D.A Press


Típicos da região do Cerrado, os ipês também são encontrados no Pantanal, em áreas de transição para a Amazônia e em estados do Nordeste. O ipê-roxo atinge o auge da beleza por volta dos 30 anos. Nessa idade, a árvore chega ao pico do crescimento. A média de altura varia de 12 a 15 metros, mas pode chegar a 20 metros. A espécie é, inclusive, fácil de plantar em casa. A semente é pequena e fica envolvida em uma fina película, e facilmente se adapta ao solo.

Além da estética, o ipê tem valor econômico. A madeira é valorizada pela resistência, pela dureza e pela flexibilidade. Por aguentar bem a umidade, é usada em construções civis e navais. A casca, a entrecasca e a folha do ipê são empregadas em medicamentos. Podem ser usadas no tratamento de amigdalites, estomatites, infecções renais, dermatites, varizes e certas doenças dos olhos.

Minervino Junior/CB/D.A Press


Na Esplanada dos Ministérios, as flores roxas se destacam entre o branco dos monumentos. A servidora Mariana Rosário, 32 anos, moradora do Guará, aproveitou um intervalo do trabalho para dar uma volta no canteiro central. “É bom para pegar sol e manter os níveis de vitamina D”, garante. Há alguns dias, notou que os ipês começaram a florescer. “Sou bióloga e gosto muito dessas árvores. Quando você pensa em Brasília, logo relaciona a cidade à espécie. Elas dão um charme à capital”, afirma.

Plantas sabidas

A floração dos ipês está relacionada à mudança das estações e à chegada da seca, como explica o professor de Ciências Botânicas da Universidade Católica de Brasília (UCB) Luciano Cemin. Com a queda da umidade, as árvores perdem as folhas para diminuir a transpiração e economizar água. “A seguir, elas florescem, como uma estratégia de reprodução. As flores servem de alimento para os insetos polinizadores, que ajudam na formação das frutas”, explica. Os ipês aproveitam o vento deste período do ano para que as sementes sejam espalhadas, antes das chuvas chegarem. “As plantas são mais sabidas do que a gente, elas sentem as variações de temperatura e umidade e reagem de acordo com isso”, acrescenta Cemin.
O Distrito Federal conta com pelo menos mais dois tipos de ipê: o amarelo e o branco.

A cidade permanecerá pintada pelos ipês-roxos até o fim de agosto. A floração do amarelo aparece entre julho e outubro. O ipê-branco desabrocha apenas no fim da seca, entre setembro e outubro. As floradas costumam durar uma semana, em média, e variam conforme a concentração de água na atmosfera. No caso do amarelo, as flores aparecem duas vezes: uma após o roxo, aproximadamente em julho, e outra em setembro, quando anuncia a chegada da temporada de chuva.

Da sua banca de frutas na 208 Sul, o vendedor Manuel Moreira, 60 anos, consegue ver as cores dos diferentes ipês se sucederem ao longo do ano. Ele trabalha no local desde 1972 e, mesmo com o passar do tempo, não se cansa de vê-los alegrarem a quadra a cada mês. “Os ipês em flor melhoram o dia. Os clientes comentam sobre a beleza e param para tirar foto”, conta.

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