Refazendo o caminho

Carreira é um projeto de vida e não necessariamente envolve um emprego formal por anos a fio. Insatisfação, falta de tempo, chegada dos filhos e até a aposentadoria são algumas das razões que levam a uma guinada profissional

postado em 07/11/2017 12:59 / atualizado em 09/11/2017 08:41

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 
O filósofo, jurista e humanista francês Michel de Montaigne, que viveu entre 1533 e 1592, disse: “Trabalhe para viver, mas não viva para trabalhar”. Resgatou um conceito que vinha de outro filósofo, bem anterior a Cristo, o turco Cleantes, que defendia ser essencial ter tempo para pensar e, por isso, o trabalho deveria ocupar as horas necessárias apenas para garantir a sobrevivência. As relações dos indivíduos com o trabalho mudaram no decorrer do tempo, com os sistemas políticos, com a evolução tecnológica, com o modo de o ser humano se relacionar com o mundo. Na prática, vida e trabalho são indissociáveis. Logo, cresce a expectativa de que a profissão traga, além de renda, prazer e satisfação pessoal.

Essa busca, com frequência, tem levado muitas pessoas a reverem suas carreiras, reinventarem a sua relação com o trabalho, adequando-o a um plano de vida compatível não apenas com as necessidades, mas com os desejos. O famoso “jogar tudo para o alto” está na moda. Mas esse movimento não deve ser traduzido necessariamente como um ato impensado. Na raiz dele, existe uma pessoa em processo de autoconhecimento, buscando a sonhada motivação, que não vem apenas do chefe ou da empresa.

“A verdadeira motivação vem da conexão que o profissional tem com um propósito de vida, algo que tenha e traga sentido para ele. Em certo momento, algumas pessoas podem questionar: ‘O que estou fazendo da minha vida?’, ‘estou aqui há tanto tempo, fazendo a mesma coisa, e não vejo sentido’. Não é incomum pessoas mudarem radicalmente suas vidas e se envolverem com algo que lhes tragam mais satisfação”, observa Carlos Legal, professor do MBA executivo em economia e gestão de recursos humanos da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Fernanda Vallu, 32 anos, fez essa opção. Formada em relações internacionais, trabalhou apenas dois anos na área. Um filho prematuro a obrigou a buscar uma alternativa de renda, que encontrou nas referências familiares. Resgatou as técnicas de artesanato ensinadas pela avó, como o crochê e o bordado. A internet permitiu o aperfeiçoamento.

Libertação
Aos poucos, a ideia do concurso público foi ficando para trás. O segundo filho, também prematuro, e o prazer com o trabalho manual deu à atividade o status de profissão. Hoje, Fernanda é artesã e professora. Não pensa em trabalhar na área de sua formação acadêmica. “Saí do meio burocrático para uma atividade criativa. Foi libertador, motivacional. Ver pessoas que estavam em depressão profunda e se curaram pelo artesanato é uma recompensa”, diz Fernanda.

Segundo Fernanda, no momento inicial de ruptura com o antigo ofício, o medo se fez presente. Mas não ter patrão nem renda certa são obstáculos contornados com cálculo, administração e planejamento. “O dinheiro não vai cair do céu. Mas passei a confiar na minha capacidade de criar alternativas para ganhá-lo e guardar para os momentos mais difíceis ou para as férias. Além disso, não é o único objetivo. A qualidade de vida e a satisfação pessoal compensam. Tem o lado bom do fazer, de conseguir se aventurar. Vejo gente de todas as idades fazendo isso”, conta.

A expectativa de uma vida diferente da habitual guarda mesmo sua porção de angústia, como explica o professor Carlos Legal. “Medo, dúvidas e insegurança fazem parte do processo. Nossas emoções ficam bastante afetadas quando estamos expostos a mudanças, e isso também precisa ser gerenciado. Por isso, além dos aspectos práticos (planejamento, organização), é preciso também cuidar das emoções.”

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