Construindo um bom ambiente de trabalho

Manter uma relação respeitosa depende tanto da empresa quanto do empregado. Punir na medida certa o mau comportamento é fundamental para criar uma consciência ética

postado em 07/11/2017 13:00 / atualizado em 09/11/2017 08:40

Nicholas Kamm/AFP


O ator Kevin Spacey, bombardeado com uma série de acusações de assédio sexual durante gravações, é o mais recente exemplo de como condutas erradas, inadequadas ou criminosas podem abalar reputações. Não apenas das pessoas, mas das empresas ou marcas às quais estão associadas. Vide a reação rápida da Netflix, que anunciou não mais participar das produções de House of Cards, sua série de maior sucesso, se o ator estiver no elenco. Seja num set de filmagem, seja no ambiente corporativo, as condutas pessoais têm enorme relevância não apenas para a carreira, mas para o sucesso de uma organização ou projeto.

“A gestão da própria reputação é determinante na construção de uma carreira de sucesso”, afirma Márcia Cristina Gonçalves de Souza, jornalista com pós-graduação em gerência de marketing pela ESPM/SP e MBA em gestão empresarial pela Universidade Católica de Salvador e UFRJ. Não existe nem deve existir um manual de conduta, porque as pessoas são seres únicos, carregam na bagagem a sua formação familiar e a noção particular do que é certo ou errado. Mas Márcia dá uma dica: “Na dúvida, faça a si mesmo a seguinte pergunta: o que eu estou pretendendo fazer pode me causar constrangimento caso venha a se tornar de conhecimento público? Ter a consciência tranquila e ser capaz de apresentar os motivos que nortearam uma decisão já é um bom caminho para a ética”.

O indivíduo, contudo, não está sozinho na construção de um relacionamento saudável no ambiente de trabalho. As empresas devem ser éticas, adotando códigos, procedimentos e valores claros. Até pelos prejuízos financeiros e de imagem, as corporações começam a se dar conta, apesar de ser um movimento embrionário, de que precisam estar atentas a questões como assédio, racismo, discriminação.

“A dificuldade maior está em implantar, na prática, as políticas que determinam a conduta ética desejada pela empresa, incluindo as atitudes dos que ocupam altos cargos. Vantagens indevidas, desvios e outras ocorrências que podem ser comprovadas por meio de documentos estão sendo punidas. Já os casos de assédio moral ou sexual, racismo e outros tipos de comportamentos condenáveis são mais difíceis de serem apurados e comprovados”, explica Márcia Cristina, autora do livro Ética no Ambiente de Trabalho (Editora Elsevier).

Márcia reforça que não há como eliminar os conflitos humanos e as condutas antiéticas, mas a justa punição é uma forma de criar uma consciência ética. “Deve-se aplicar de forma correta e justa uma política de consequências. As informações sobre condutas arbitrárias circulam livremente nos corredores. Não é tão difícil identificar chefias tóxicas. Mas os envolvidos não sofrem as consequências e continuam usufruindo o mérito de seus resultados.” O resultado da omissão é que o ambiente de trabalho fica comprometido por relações desrespeitosas, adoece as pessoas que ali convivem. “E isso se reflete no que elas falam da empresa, seja no elevador, na conversa no restaurante, no avião, seja nas mídias sociais”, explica Márcia.

A psicóloga Paula Fortuna Loureiro, especialista em terapia cognitivo-comportamental e proprietária de uma clínica de psicologia e coaching, reforça que o relacionamento na empresa, seja com os chefes, seja com colegas, interfere muito nos resultados, tanto pessoais quanto corporativos. “Nós somos animais sociais e nos importamos com o fato de querer ser aceito, se sentir reconhecido, se sentir amado. Não seria diferente no âmbito profissional. Há muitas demandas em consultório, quando o assunto é profissional. O paciente/cliente traz problemas com a chefia e com colegas de trabalho. E isso interfere em sua saúde emocional.”

Segundo Paula, há impactos também na questão da segurança. “Não ter um relacionamento positivo com a chefia, por exemplo, gera insegurança e pensamentos como: será que vou ser demitido? Será que vou ser sabotado, que estou sendo injustiçado? Não é confortável passar a maior parte do nosso dia em um espaço em que as relações sociais são ruins. Isso vai gerando impacto negativo na produtividade no trabalho e inclusive na vida pessoal, principalmente na saúde emocional e psicológica”, afirma.

A sugestão dela é que o funcionário siga os valores e a missão da empresa. Paralelamente, investir no autoconhecimento tem extrema importância para que se consiga trabalhar suas questões em relação ao trabalho, sem se guiar apenas por regras sociais e generalizações. Há, no entanto, dicas de comportamento que são universais e servem para a vida e para o trabalho. “Respeito ao próximo, assertividade e vontade de aprender”, pontua Paula Fortuna Loureiro.
 
 

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