Massagem tântrica ajuda casais a se conhecerem e a melhorar a relação

Os praticantes garantem que a experiência faz com que os parceiros se conectem, não apenas de forma física, mas de alma

postado em 10/06/2015 14:58 / atualizado em 10/06/2015 14:59

Gurutama e Daricha são casados e trabalham como terapeutas tântricos em Brasília em um consultório na Asa Sul, além de serem facilitadores do Centro Metamorfose na capital. São uma espécie de Shantideva e Premali no Distrito Federal. Quando a Delerium aterrissa por aqui, são eles que orientam os participantes em suas viagens orgásticas. Há quatro anos, no entanto, não era assim. Gurutama, 38 anos, era apenas Uirá, um servidor público — ele ainda concilia o trabalho burocrático com as sessões de massagem — que não sabia nem mesmo o que significava o tantra. Daricha, 31, era Fernanda, uma pessoa que, mesmo depois de ter conhecido do que o tantra era capaz, hesitou por mais um ano antes de se jogar de cabeça.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press


O primeiro contato de Gurutama com o tantra foi em um curso de fim de semana, escondido da esposa. “Eu sempre gostei muito de trabalhos corporais, de massagens, mas nem imaginava o que era o tantra. Um dia, resolvi fazer um curso de três dias e, com medo da reação da Daricha, disse que faria um curso na área de direito. “Tive uma experiência transcendental e cheguei em casa louco para mostrar para ela”, lembra. Sem contar de onde tinha tirado as novas habilidades, surpreendeu a esposa um dia, em casa. “Ela é muito sensível e entrou em um processo lindo. Ria, chorava. Quando acabou, perguntou onde eu tinha aprendido tudo aquilo e com quem. Até ela entender o que era...”, ri o terapeuta.

Mesmo depois da experiência com o marido, Fernanda foi um pouco resistente. Ela precisou de um ano para experimentar, com um profissional, o que o marido tinha mostrado a ela. “Eu tinha uma formação religiosa rígida, a cabeça dura, então, mesmo entendendo que era terapêutico e não sexual, não quis ir de primeira”, conta. O tantra não é baseado em crenças e nada tem a ver com religião. Como Daricha e Gurutama definem, trata-se de “ciência espiritual”. Quando Daricha sentiu vontade de conhecer o tantra mais de perto, o marido a incentivou a ir sozinha para o curso. “Como é uma experiência individual e de autodescoberta, fiquei com medo de interferir no processo”, justifica. Não foram necessários mais do que três dias para que ela estivesse convencida. Depois do curso, ela foi convidada a se desenvolver como terapeuta e o marido decidiu ir junto. Fernanda e Uirá passaram a atender por Daricha e Gurutama.

O tantra, eles dizem, mudou o relacionamento deles profundamente, do bom para o ainda melhor. “Nunca tivemos problemas com o sexo, com chegar ao clímax, mas a intensidade e o tempo mudaram muito. Posso dizer, hoje, que o meu orgasmo me conecta com Deus, de tão forte e tão intenso. É uma conexão além do corpo, é de energia e de alma”, conta Daricha. Além disso, confiança, respeito e até mesmo a maneira de olhar para o parceiro mudaram. “Nos ensinou que estamos juntos porque queremos. Passamos a não ter neuroses, inseguranças. Claro que ainda estamos em desenvolvimento, mas essas coisas negativas não fazem mais parte do nosso cotidiano”, continua. “O tantra nos habilita a fazer escolhas que não têm a ver ao que os outros pensam ou esperam de nós”, pontua Gurutama.

Hoje, os dois transmitem em cursos e sessões o que internalizaram nos anos de aprendizado. Com algum tempo de estrada, não têm dúvidas de que essa pode ser a porta de entrada ou o aprofundamento de amores. Os dois chegaram a presenciar o nascimento de um novo casal em um dos cursos — eles começaram a namorar antes que as aulas acabassem. “No tantra, as pessoas se conectam, e não apenas de forma física, mas de alma. Ele impele ao contato com o olhar, a sentir a energia do outro, a explorar o corpo, sentir os feromônios. A palavra-chave é dedicação, você aprende a doar e a receber. Muitos casais chegam aqui e, já na primeira dinâmica, acessam emoções e dores que eles nem sabiam existir”, observa o terapeuta. “No dia a dia, você passa pela pessoa e muitas vezes nem a percebe. As relações são muito superficiais. Sempre colocamos no outro a expectativa de suprir a nossa solidão. Com o tantra, você ganha consciência de que isso não está no outro. Passa a ter uma relação de mais independência e de mais verdade”, destaca Daricha.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Atenção e cuidado desde o início

Apesar de se ter uma ideia errada de que terapia de casal e cursos de relacionamento são os últimos recursos para salvar uma união, na verdade, eles também são ferramentas para melhorar o que já é bom, consertar desalinhamentos. “As pessoas têm essa visão de que o relacionamento precisa estar ruim para procurar ajuda, mas a gente pensa diferente. Se pode ser ótimo, porque ficar com apenas bom?”, indaga a psicóloga Isabel Ribeiro, 32 anos. Ela e o noivo, Milton Sampaio, 36, investem na relação desde sempre — estão muito bem, juntos há oito meses, mas acreditam que, para sustentar o sentimento, é preciso se comprometer. “Não nos contentamos apenas com o bom”, afirma Milton.

Em abril, fizeram uma imersão em tantra. Nas próximas semanas, começam um curso regular de relacionamentos conscientes. Antes de conhecer o assunto, Milton acreditava que a prática era somente sexo. Por trabalhar com tecnologia, nunca esteve muito ligado a esse mundo mais espiritual e energético. Como a noiva sempre se interessou pelo assunto, Milton se pôs a pesquisar. Quando encontraram o curso da terapêuta tântrica Soraya Vidya, ele lembra que enviou um e-mail cheio de perguntas. A resposta foi convincente.

“Aprendi que a qualidade da presença é importante, pois o tempo deve ser bem aproveitado. São várias técnicas que desenvolvem a afinidade do casal, como se movimentar junto ou respirar ao mesmo tempo para encontrar um ritmo comum”, explica. Hoje, Isabel e Milton percebem qualquer desalinho no relacionamento e contam que é legal ter à mão as ferramentas para resolver qualquer problema.

“Sempre fomos muito atentos um ao outro, conversamos muito. Acredito que o tantra e essa atenção especial à nossa relação trouxe uma capacidade de trabalhar os conflitos de forma mais sutil.

Independentemente da discussão, se eu percebo que ele está acelerado, consigo dizer e ele reconhece. Ao mesmo tempo, se eu estou um pouco ausente, Milton me chama atenção. Aumentamos a nossa capacidade de estar um com o outro”, explica Isabel. E os ensinamentos de qualidade no relacionamento não são restritos à relação amorosa — ao se conhecer bem e dominar as ferramentas, é possível aplicar esse bem-estar em todos os aspectos da vida, seja no trabalho, seja nas relações familiares e seja, inclusive, no trânsito.

Mesmo assim, é claro que ainda existem problemas. Como em todo relacionamento saudável e rotina normal, existem momentos de estresse, de discussão. Milton afirma: “Não viramos budas. Mas aprendemos que é possível ter um pouco mais de consciência. É saber colocar o pé no freio”.

"As pessoas têm essa visão de que o relacionamento precisa estar ruim para procurar ajuda, mas a gente pensa diferente. Se pode ser ótimo, porque ficar com apenas bom?”
Isabel Ribeiro, psicóloga

* * *