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Assassinato de Anísio Teixeira continua um quebra-cabeça sem todas as peças

Ausência de laudos e documentos sobre a morte de Anísio Teixeira dificultam a investigação da Comissão da Verdade do Rio. Busca recente em microfilmes do IML não encontrou exame realizado no corpo do educador

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postado em 23/03/2014 06:04 / atualizado em 23/03/2014 11:18

João Valadares

Agência o Globo/Divulgação

O quebra-cabeça para responder se o educador, jurista e escritor Anísio Teixeira, baiano de coração brasiliense que viveu boa parte da vida no Rio de Janeiro, foi assassinado está longe de ser montado. Pesquisadores da Comissão da Verdade do Rio analisaram, no fim do ano passado, microfilmes com laudos de perícias tanatoscópicas realizados por peritos do Instituto de Medicina Legal (IML-RJ) entre 1970 e 1973. O exame feito no corpo de Anísio Teixeira, em 1971, ano de sua morte, na presença de alguns amigos, considerado crucial para se chegar a uma conclusão sobre o caso, não foi localizado. Foram realizadas duas análises, uma mais detalhada, no conjunto de microfilmes e nada. Agora, a terceira e última busca no mesmo material, que se encontra em uma sala à disposição da comissão, será empreendida para tentar encontrar o que a família procura há 43 anos.

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Oficialmente, a morte do homem que foi reitor da Universidade de Brasília (UnB) de 1963 até ser cassado após o golpe militar de 1964, que completa 50 anos no início da próxima semana, é tratada como um acidente. Ele teria caído no fosso de um elevador em 11 de março de 1971 ao visitar o amigo Aurélio Buarque de Holanda, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

Dossiê elaborado pela família, entregue à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro em 2012, aponta que o genro de Anísio Teixeira, Mário Celso da Gama Lima, esteve no Instituto de Medicina Legal. “(Mário Celso) Lembra-se que, ao sair da sala de necropsia, o médico e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Francisco Duarte Guimarães Neto lhe disse: ‘Mário, tio Anísio foi assassinado’”, diz o documento.

Ao Correio, o psiquiatra Carlos Antônio Teixeira, 72 anos, filho de Anísio, diz que o sentimento hoje é de total impotência. “Esse laudo do IML deveria ser comparado com a situação do acidente. Deveria pegar o exame do IML, se encontrarem um dia, e fazer uma nova perícia no fosso do elevador. Se realmente essas coisas foram destruídas, não sei como se deu esse processo. Eu fico realmente muito temeroso de não se encontrar”, afirmou Carlos (leia entrevista completa na página 4).

Até agora, desde que o memorial elaborado pela família foi encaminhado à Comissão da Verdade, não houve avanço na investigação. A Delegacia de Botafogo não encaminhou nenhum documento referente à morte do educador. A chefia de Polícia Civil do Rio de Janeiro foi acionada. De nada adiantou. Os pesquisadores não encontraram pistas de que Anísio era perseguido pelo regime. Não havia nenhuma ordem de prisão. Ninguém fala oficialmente em destruição de provas. De maneira prudente, os pesquisadores preferem afirmar, de forma reservada, que o acervo do IML e Instituto de Criminalística do Rio de Janeiro são difusos e desorganizados.

“Sensação ruim”
Um amigo bastante ligado à família do educador, que preferiu não se identificar, declarou que não tem dúvida do que aconteceu. “Não vão achar nunca esse exame feito no IML. Anísio foi assassinado. É triste, mas vamos ficar sem resposta. Anísio não voltará, mas é triste saber que, tanto tempo depois, a angústia permanece. A sensação é muito ruim”, diz. Grande parte das testemunhas, incluindo pessoas que ocupavam cargos de comando no Exército na época e médicos, já morreu. Duas delas, uma que mora no Rio de Janeiro e outra em Brasília, vão ser ouvidas.

No memorial assinado por Carlos Antônio Teixeira, pelo professor da Universidade Federal da Bahia e biógrafo do educador, João Augusto de Lima Rocha, e pelo sobrinho Haroldo Borges Rodrigues Lima, há a informação de que Anísio foi levado para uma base da Aeronáutica no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. “No final de 12 de maço de 1971, um dia após o desaparecimento, Paulo Alberto Monteiro de Barros, genro de Anísio, traz a informação de que o acadêmico Abgar Renault (amigo e colaborador de Anísio) soube pelo comandante do I Exército, general Sizeno Sarmento, que Anísio Teixeira estava detido na Aeronáutica para averiguações e que, no dia seguinte, teria condições de informar em dependência”, atesta o documento. Mais um obstáculo. O Centro de Informações de Segurança da Aeronáutico (Cisa) não disponibilizou integralmente os arquivos secretos referentes ao período da ditadura militar. Chegou a alegar que grande parte deles havia sido destruído.

Um dia depois do desaparecimento de Anísio, a polícia liga para a casa dele e informa aos familiares que o educador havia sido encontrado morto no fosso do elevador. O primeiro a chegar ao prédio de Aurélio Buarque de Holanda, onde Anísio teria ido porque estava em campanha para se tornar membro da Academia Brasileira de Letras, foi o genro, Mário Celso da Gama Lima. “Estava acompanhado de um amigo que trabalhava na polícia, José Pinto, e constataram que o corpo havia sido retirado sem que tivesse sido realizada a perícia. Anísio não poderia ter caído daquela altura e chegado ao ponto onde foi encontrado porque seu corpo não teria como passar entre as duas vigas situadas logo acima, separadas por uma distância de pouco mais de um palmo”, alega o documento. O memorial ainda relata que “lá estavam os óculos de Anísio, com as lentes intactas”.

Perfil//  Anísio Teixeira


Comunista para os militares
Considerado um dos maiores educadores brasileiros ao lado de Paulo Freire, o sertanejo baiano de Caetité dedicou sua vida à gestão cotidiana da educação. Defensor de uma escola pública de qualidade, universal, gratuita e laica, Anísio Teixeira foi um dos fundadores da Universidade de Brasília (UnB). Não tinha uma atuação política partidária, mas era um homem de esquerda. Alguns o viam como comunista, o que gerava brincadeiras entre os filhos.

Formou-se em direito pela Universidade do Rio de Janeiro em 1922 e obteve o título de Master of Arts pelo Teachers College da Columbia University, em Nova York, em 1929. Sua formação educacional acabou fortemente influenciada pelo pragmatismo do filósofo John Dewey, de quem foi aluno e cujas idéias divulgou no Brasil. Na década de 50, teve atuação destacada no Ministério da Educação. Em 1951, assumiu a Secretaria Geral da Campanha de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que seria por ele transformada em órgão, a Capes. Em 1952, assumiu também o cargo de diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP). Criou, então, o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) e uma rede de cinco regionais, com o objetivo de elaborar estudos antropológicos e sociológicos sobre a realidade brasileira.

No início dos anos 1960, ao lado de Darcy Ribeiro, foi um dos mentores da Universidade de Brasília, tornando-se seu segundo reitor em 1963. O golpe militar de 1964 o afasta das funções públicas. A convite de universidades americanas, viaja para os Estados Unidos para lecionar como professor visitante. De volta ao Brasil, completou o seu mandato no Conselho Federal de Educação (1962-1968), tornou-se consultor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e retomou suas atividades de tradutor e escritor na Editora Nacional, organizando coleções e reeditando alguns de seus livros. Quando morreu, em 1971, estava em campanha para se tornar imortal da Academia Brasileira de Letras.


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