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Entrevista: "Perícia teve uma falha grosseira", diz Carlos Antônio Teixeira

Filho de Anísio Teixeira aponta as contradições na investigação e ressalta os motivos que levam a família a crer em assassinato

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postado em 23/03/2014 11:21 / atualizado em 23/03/2014 11:49

João Valadares

O psiquiatra Carlos Antônio Teixeira, 72 anos, terceiro dos quatro filhos de Anísio Teixeira, não tem dúvida de que o pai foi assassinado. Em entrevista ao Correio, lembrou relatos de amigos na época. Em 2012, entregou um relatório apontando contradições na morte do pai à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. Até agora, não houve avanço. “Sinto uma impotência muito grande.”

O que ocorreu com o seu pai naquela manhã de 11 de março de 1971?
Eu estou convicto de uma morte suspeita. E suspeita naquela época naturalmente remete a uma suspeição de natureza política. Inclusive, quando do acontecimento, nós tentamos por meio da delegacia responsável pelo caso investigar de uma maneira mais ampla, no entanto, o delegado só encaminhava a coisa para incriminar porteiro, o que me parecia uma coisa surrealista porque a última hipótese era imaginar algum crime aleatório, sem um significado, sem um objetivo.

O que faz o senhor crer que Anísio Teixeira não foi vítima de um acidente e sim de um assassinato?
As condições em que o corpo foi encontrado num fosso de um elevador. Acima desse fosso havia duas vigas com duas molas. Essas duas vigas não permitiriam que um corpo que tivesse caído passasse entre elas sem demonstrar alguma situação mais dramática em termos de vestuário, em termos de tudo. Esse corpo foi encontrado sentado, abaixo dessas duas vigas. A distância entre elas não excedia um pouco mais de um palmo. Imaginando um corpo que tivesse caído, quando muito, ele ficaria situado deitado nas vigas e nunca passado por ali, a não ser que fosse muito bem colocado. Lá embaixo, tinha uma portinhola que se comunicava com a garagem e permitia que uma pessoa colocasse um corpo ali dentro. Segundo ponto, a perícia do local foi feita sem o corpo, o que é uma falha grosseira que inviabiliza muita coisa. Precedendo tudo isso, havia a afirmação, por meio de um amigo comum da família, o Abigar Renault, que era uma figura respeitada da Academia Brasileira de Letras. Ele recebeu a informação de que o meu pai estaria preso pela Aeronáutica e que, no dia seguinte, teria condições de dizer onde ele estava. Isso foi na sexta-feira. O corpo do meu pai foi encontrado no sábado.

Que ameaça Anísio Teixeira representava ao regime militar?
Com todo esse imbróglio que existiu sobre o desaparecimento e esses relatos antes de se encontrar o corpo, havia uma mobilização da família já imaginando alguma coisa política na época. O Rubens Paiva tinha desaparecido e sido morto dois meses antes. Meu pai era candidato a membro da Academia Brasileira de Letras. A candidatura era vista como uma afronta ao regime. Embora meu pai não fosse um militante político, ele era visto como um homem de esquerda. Para muitos, era um comunista.

Houve algum episódio de perseguição relatado por ele?
Para amigos ele teria relatado. Para Afrânio Coutinho, que era integrante da Academia Brasileira de Letras, ele disse que estaria recebendo algumas ameaças. Para mim, ele nunca relatou. Eu pertencia ao partidão e tinha um documento de um balanço do partidão. Meu pai morreu em 1971. Em 1970, o comitê central do partidão fez um balanço da situação brasileira. Eu mostrei esse documento ao meu pai. Ele ficou impressionado. Achou o documento muito objetivo e claro, e pediu para ficar com o dossiê. Eu disse que poderia, mas que ele teria que tomar muito cuidado porque era um documento absolutamente clandestino. Segundo minha mãe, ele não tirava esse documento da pasta por nada. Esse papel nunca foi encontrado. Nem no arquivo pessoal dele, nem no local de trabalho dele e nem em lugar nenhum.

Afrânio Coutinho esteve no IML. Qual o relato dele?
Esteve sim no IML e o relato dele é de que o meu pai havia sido assassinado. Mais do que ele. Domingos de Paula, que era o titular de anatomia patológica da UFRJ, me garantiu: “Carlos Antônio, seu pai morreu assassinado”. O início da autópsia foi descrito de uma forma muito sugestiva de que tinha sido um assassinato e não uma morte acidental. Quando estavam no meio dessa descrição, entram duas pessoas na sala de autopsia e dizem: “Não. Foi um corpo caído de tal andar e foi uma queda no fosso do elevador”. Falaram de uma forma muito imperativa e taxativa. Isso mudou completamente a postura dos legistas e intimidou, de certa maneira, todos os presentes

Esse laudo foi entregue à família?
Nunca. Esse laudo do IML deveria ser o objeto agora da investigação e da tentativa de elucidar. Esse laudo deveria ser comparado com a situação do acidente. Deveria pegar o laudo do IML, se encontrarem, e fazer uma nova perícia no fosso do elevador.

Os pesquisadores não localizaram. O senhor tem esperança de encontrar uma resposta?
Eu acho que, se realmente essas coisas foram destruídas, não sei como se deu esse processo. Eu fico realmente muito temeroso de não se encontrar. O tempo decorrido é muito grande. O laudo serviria para clarear muita coisa. A nova perícia do local também seria sugestiva. O porteiro do prédio relatou que naquele dia e naquele horário não entrou ninguém com as características do meu pai.

Qual o sentimento do senhor em passar tanto tempo sem que a verdade venha à tona?
Eu sinto uma impotência muito grande. Eu sinto, ao mesmo tempo que tenho uma convicção de que meu pai foi assassinado, uma impotência enorme. Eu acho que a sensação é essa. Se as coisas pudessem ser reproduzidas, acho que não haveria dúvida de que foi um assassinato.

O que isso representaria para a família?
A sensação de reforçar o lado de crueldade da ditadura.

Qual lembrança o senhor guarda do seu pai?
Sempre foi um pai muito particular e original. Era um pai que nos surpreendia sempre com propostas. A gente se via careta diante de algumas ideias dele.

Wilson Dias/ABR


“Embora meu pai não fosse um militante político, ele era visto como um homem de esquerda. Para muitos, era um comunista”

Há 50 anos
“Brasília não tem condições de habitabilidade”. O “eufemismo” noticiado pelo Correio Braziliense há 50 anos representava o pensamento de parte dos congressistas, que viam na nova capital da República não só um lugar inabitável, como um trunfo do presidente João Goulart para efetivar um suposto golpe de Estado. O senador baiano Josafá Marinho, um dos defensores de Brasília, dizia que os mudancistas sentiam falta, na verdade, das “delícias de Copacabana” , “da vida noturna do Rio” e “das manhãs esfuziantes à beira do mar azul”.


A discussão, que nunca emplacou, era a menor das polêmicas políticas da época. Apoiadores do presidente João Goulart e a oposição travavam intensos debates sobre as reforma de base propostas pelo Executivo. Em pronunciamento em 23 de março de 1964, o deputado federal Guerreiro Ramos (PTB da Guanabara) disse que “o fenômeno Goulart não é a repetição do fenômeno Vargas”. Implicitamente, dissuadia a população dos boatos sobre um possível golpe de Estado por parte do presidente João Goulart — já que a reeleição era proibida. Ramos também se valeu da tribuna para apoiar as reformas de base do então presidente: “No tocante à política de massas, Vargas foi o profeta, Jango é o líder”, complementou.

Na contramão, o deputado federal Elias do Carmo (UDN-MG) classificou a “obra do presidente” como tentativa de “cubanização do Brasil”. Por isso, seria “oportuna a aliança dos governadores Carlos Lacerda (RJ) e Adhemar de Barros (SP), que surge como uma garantia de realização de eleições em 1965”. Já o deputado Harry Normaton (PTB) via as reformas como uma ameaça à democracia. “Nesta hora conturbada da nacionalidade, a nenhum brasileiro é lícito calar-se, permitindo o desmoronamento das nossas instituições, asseguradas pela Carta Magna”. Como era inegável o apoio de parcelas da sociedade às reformas de base, Normaton as classificou como “imprescindíveis”, desde que feitas “com obediência irrestrita à Constituição e às leis vigentes”. Os janguistas alegavam que, sem mudanças radicais das leis, inclusive da Constituição, nenhuma reforma teria efeitos práticos.

O deputado federal Cunha Bueno (PSD-SP), que teria o mandato cassado em 1969, foi outro a se manifestar naquele 23 de março, mas em apoio às Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Segundo ele, as manifestações seriam um apoio importante para “o Congresso e a Constituição”. A primeira edição da marcha conservadora, ocorrida quatro dias antes, em São Paulo, reunira 500 mil pessoas contrárias às reformas de base. Eventos similares estavam previstos para diversas cidades, como Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Maringá(PR), Santos(SP) e Presidente Prudente (SP).

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