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EUA consideravam Jango um risco para o continente Sul-Americano

O Departamento de Estado e a Casa Branca foram convencidos de que o governo Goulart levaria o Brasil para o comunismo

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postado em 25/03/2014 06:01 / atualizado em 24/03/2014 23:27

Tereza Cruvinel



A participação dos Estados Unidos na preparação e execução do golpe civil-militar de 1964, incluindo o envio de uma esquadra à costa brasileira, a Operação Brother Sam, pronta para uma intervenção militar caso houvesse resistência, só começou a ser confirmada 25 anos mais tarde, com a descoberta e posterior liberação de documentos americanos classificados como secretos ou sigilosos. Denúncias foram sempre desqualificadas como coisa de inimigos do regime.

No auge da Guerra Fria, com o mundo dividido entre o Ocidente capitalista liderado pelos Estados Unidos e o bloco socialista criado pela União Soviética, o Departamento de Estado e a Casa Branca foram convencidos de que o governo Goulart levaria o Brasil para o comunismo ou para uma “república sindicalista”. E, por isso, diz o historiador Carlos Fico, “estavam decididos a impedir, por todos os meios, que uma nova Cuba surgisse em sua área de influência”.

Reprodução/Google


Lyndon Johnson, que assumiu a presidência americana depois do assassinato de John F. Kennedy em 1963, declara num discurso: “As nações americanas não podem, não devem e não irão permitir o estabelecimento de outro governo comunista no Hemisfério Ocidental”. Duas figuras foram decisivas no convencimento do alto escalão americano sobre o “risco Jango” e a necessidade de seu afastamento: o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e o adido militar americano, general Vernon Walters. Pelo papel que tiveram, tornaram-se personagens da própria história política brasileira.

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Como destacado acadêmico de Harvard, em 1960 Gordon atuou na Aliança para o Progresso, programa de ajuda a países latino-americanos para evitar que, como Cuba, adotassem regimes socialistas. Assim, já conhecia o Brasil e falava português quando Kennedy o fez embaixador, em 1961, ainda no governo de Jânio Quadros. Walters conheceu alguns militares brasileiros na II Guerra Mundial, tornando-se amigo do futuro marechal Humberto de Alencar Castello Branco, que indicaria aos superiores como nome ideal para comandar o golpe e o novo regime.

Por suas origens, Jango teve sua posse vetada pelos militares após a renúncia de Jânio em 1961: herdeiro de Getúlio Vargas, de quem foi ministro do Trabalho, eleito pelo PTB e apoiado por outros partidos de esquerda, como o PSB e o então proscrito PCB, pelos sindicatos agrupados no que hoje seria uma central, o CGT, a UNE e outras organizações do campo nacional-reformista. Sua posse é garantida pela campanha da legalidade liderada por Brizola, seu cunhado e governador do Rio Grande do Sul, que Jango contrariou ao aceitar o acordo que limitou seus poderes.

Logo depois da posse, Gordon tem um encontro com Kennedy, que lhe pergunta sobre Jango: “Como você acha que agiria se tivesse poderes?”. “Acho que faria algo como Perón, algo assim. Um ditador pessoal e populista”, responde o embaixador. Kennedy diz que não pode fazer nada mas Gordon o provoca: “Acho que pode”.

Desde que os documentos americanos interditados começaram a ser liberados, historiadores e jornalistas tiveram acesso a eles e às gravações das conversas presidenciais na Casa Branca relacionados com o golpe no Brasil. Para o grande público, o acesso direto foi propiciado pela série de documentários “O Dia que Durou 21 anos”, exibida pela TV Brasil em 2010, e depois levado ao circuito cinematográfico como longa-metragem, com o mesmo título. O roteiro é do jornalista e ex-exilado Flavio Tavares e a direção de seu filho Camilo Tavares. As gravações, obtidas no Arquivo Nacional de Segurança, impressionam pela frieza com que as autoridades americanas, em nome da democracia, tramaram o golpe propiciador de uma ditadura que suprimiu as liberdades, cassou, prendeu, torturou, exilou e matou os que a combateram.

Mais recentemente, fitas encontradas na Biblioteca Kennedy também confirmaram que ele, e não apenas Lyndon Johnson, como durante muito tempo se acreditou, autorizou ações de desestabilização do governo Jango e cogitou da invasão militar do Brasil. Quarenta e seis dias antes de seu assassinato, numa reunião da cúpula de seu governo, entre 7 e 8 de outubro de 1963, a situação brasileira também entrou em pauta, conforme narra o jornalista Elio Gaspari na nova edição de “A ditadura envergonhada”, primeiro tomo de sua obra sobre o período. Kennedy corta a exposição de Gordon perguntando: “Temos alguma decisão imediata para pressioná-lo? Você vê a situação indo para onde deveria ou acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?”. Gordon falou dos planos já discutidos em Washington e no Rio, com generais brasileiros, mas recomendou esperarem mais, para ver se Jango daria mesmo “uma guinada fidelista”.

A desestabilização política
Desde o início do governo Jango, Gordon bombardeou Washington com informações alarmistas. No início de 1962, Brizola desapropriou 20 mil hectares de terras da Fazenda Sarandi para fins de reforma agrária, em resposta à primeira grande ocupação de terras havida no Brasil, raiz do atual MST. Gordon escreve ao Departamento de Estado: “O Governo de Goulart representa uma ameaça ao mundo livre. Minha convicção é a de que as recentes ações de Goulart e Brizola para promover a reforma agrária levarão o Brasil a um governo comunista, como Fidel fez em Cuba”.

Reprodução/Google


Logo depois, mostra o documentário, Gordon escreve diretamente a Kennedy: “Goulart está fomentando perigoso movimento de esquerda, estimulando o nacionalismo. Duas companhias americanas, a ITT, do setor de telecomunicações, e a Amforp, do setor elétrico, foram recentemente desapropriadas pelo governador Brizola. Tais ações representam uma ameaça aos interesses dos EUA. O Brasil não pode trilhar o caminho vermelho. Se falharmos, não teremos uma outra Cuba mas sim uma China no continente americano. Creio ser este o momento adequado para fazer um convite oficial a Goulart. Sugiro uma visita a nossa base aérea de Offut, em Nebraska.”

Em 03 de abril de 1962, Jango foi recebido na base aérea de Washington por um Kennedy sorridente que, em amável deferência, o acompanha até a Blair House, casa de hóspedes oficial. Na reunião de trabalho discutiram projetos de cooperação e uma ajuda financeira de US$ 398 milhões, da qual pequena parte chegou a ser desembolsada. As fotos do jantar na Casa Branca destacam a beleza das duas primeiras damas, Jacqueline e Maria Tereza. Jango ainda desfilou em carro aberto em Nova York e falou na OEA, onde em janeiro o Brasil votara contra a expulsão de Cuba.

Mas, voltando ao Brasil, continuou defendendo as reformas de base – agrária, urbana, educacional, eleitoral e outras mais – e a política externa independente. “Quanto mais Jango resistia às pressões dos americanos, mais os convencia de que devia ser deposto”, diz o brasilianista James Green. A situação econômica se agrava, com inflação alta e crescimento baixo. O gabinete chefiado por Tancredo Neves se demite.

Em 30 de junho, mostra o documentário com voz sobre a fotografia oficial, Gordon tem outra conversa com Kennedy, que foi gravada, no salão oval da Casa Branca. O presidente lhe pergunta sobre como agir em relação a Goulart e ele sugere: “ O fundamental é organizar as forças políticas e militares para reduzir o seu poder e, num caso extremo, afastá-lo. Temos uma organização chamada IPES, que é progressista e precisa de ajuda financeira. Ela tem apoio local e acho que precisamos ajudá-los”. Gordon fala em US$ 8 milhões, Kennedy acha muito mas ele é taxativo. “Não podemos correr riscos”. Com isso, Kennedy deu o sinal verde para a preparação do golpe.

Na época, falava-se muito no ouro de Moscou, que ajudaria a sustentar o PCB mas, se ele existiu, não foi páreo para os dólares de Washington. A CIA ampliou sua presença clandestina no país e passou a financiar uma insidiosa campanha contra o governo de Jango, associando-o à anarquia e ao comunismo, através de filmes, livros, matérias em jornais, conferências, eventos e todo tipo de publicidade, divulgada inclusive nas escolas e nas pracinhas das cidades do interior do Nordeste. O citado IPES – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais — torna-se um centro de formulação e ação das forças conservadoras, apoiado também por multinacionais e empresas brasileiras.

Uma outra organização, o IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática — financiou com o dinheiro da CIA dezenas de candidatos de oposição nas eleições parlamentares de 1962. Operação é exitosa, pois a base aliada a Jango no Congresso saiu minoritária. Em seu livro “Marighela”, Mario Magalhães cita o agente da CIA Phillip Agee, segundo o qual as doações a candidatos chegaram a US$ 20 milhões, ou US$ 149 milhões em valores de 2012. Numa CPI depois instalada sobre o assunto muitos deputados admitiram ter recebido o dinheiro ignorando sua origem. Ninguém foi cassado ou julgado pelo STF.

Em 1963, Jango vence o plebiscito sobre o sistema de governo, postulando a necessidade de um Executivo forte para enfrentar os problemas nacionais. Com os poderes presidenciais restaurados e um novo ministério, toma medidas para enfrentar a crise econômica e a inflação, o que gera conflitos com sua base sindical. Seu governo seguirá entre dois fogos. De um lado, os conservadores da UDN e do PSD, as elites nacionais, os latifundiários e os Estados Unidos, em defesa de seus interesses. De outro, a pressão de sua base social e política, cobrando as reformas e acusando-o de conciliar demais com as elites.

Isolado pela centro-direita no Congresso, pelo empresariado e os governadores dos estados mais importantes, Jango se move cada vez para a esquerda, apoiando-se na coalizão reformista. No final do ano decreta o monopólio estatal da importação de petróleo e em janeiro de 1964, a Lei de Remessa dos Lucros pelas multinacionais. A irritação americana sobe. Em fevereiro, preparou o esperado decreto da reforma agrária e deu aumento de 100% para o salário-mínimo.

Neste ambiente, a conspiração começa a ganhar terreno entre os militares. No último trimestre de 1963 foram descobertos três arsenais de núcleos conspiradores, alguns com armas pesadas. O golpe estava no ar. Jango confiou a seu chefe da Casa Militar, general Assis Brasil, a montagem de um “dispositivo militar” que o reprimiria. O general alardeava ter um “esquema invencível” , que na hora H, se revelará um fiasco.

A mobilização pelas reformas vai culminar no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1963, reunindo centenas de milhares de pessoas. Jango assina o cobrado “decreto da Supra”, desapropriando terras às margens das rodovias para a reforma agrária, anuncia a estatização de refinarias privadas de petróleo, o tabelamento dos alugueis extorsivos. Outras bandeiras “subversivas” do palanque mais tarde se tornariam realidade: o voto dos analfabetos, a Constituinte e a reeleição dos governantes, que Jango poderia desejar mas não tinha maioria para aprovar.

O golpe em duas frentes
O comício deflagrou a reação. Gordon escreve com carimbo de “urgente” ao Departamento de Estado: “Desde o Comício da Central do Brasil houve uma polarização de atitudes. Goulart está agora definitivamente engajado numa campanha ditatorial com ataques diretos aos nossos interesses econômicos”. Logo depois, outro telegrama: “Estamos adotando medidas para fortalecer a resistência a Goulart. Ações secretas estão em curso para organizar passeatas a fim de criar um sentimento anticomunista no Congresso, nas Forças Armadas, na imprensa e grupos católicos”.

De fato, seis dias depois do comício aconteceu a primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, contra a ameaça comunista, organizada por grupos católicos e apoiada pela FIESP e pelo Ipes. Walters escreve aos superiores: “A marcha instalou novo vigor na conspiração militar”. Finalmente o general Castello Branco aceitou liderar as Forças Armadas, agora dispostas a agir contra a dominação comunista. Outras marchas semelhantes aconteceriam daí até o golpe.

Nos dias seguintes, Jango fez dois movimentos temerários. Depois da rebelião dos marinheiros no Rio, seu novo ministro da Marinha, Paulo Mario, anistiou os revoltosos, o que foi visto pelos quarteis como incentivo à quebra da hierarquia. No dia 30, contrariando conselhos, compareceu ao ato pelos 40 anos da associação de subtenentes e sargentos da PM no Automóvel Club, onde fez seu último discurso.

Enquanto Jango discursava no Automóvel Club, o general Mourão Filho foi dormir cedo. Às cinco horas da manhã do dia 31, começou a movimentar suas tropas de Juiz de Fora em direção ao Rio, juntamente com as do general Carlos Guedes, comandante em Belo Horizonte. Walters já dera a Castello Branco as garantias do apoio militar americano dadas pelo secretário de Estado Dean Rusk, informado dos últimos acontecimentos.

No dia 27, Gordon avisara que o golpe estava para acontecer e que a ajuda aos conspiradores devia ser providenciada “o mais rapidamente possível”. Fez previsões sombrias: “A revolução não será resolvida rapidamente e será sangrenta. Os combates no Norte podem continuar por longo período”. Até ele, pelo visto, acreditava no “dispositivo militar”. Seu plano previa ainda que o golpe tivesse aparência de legalidade e que os Estados Unidos reconhecessem imediatamente o novo governo.

Com a “precipitação” de Mourão, os americanos tiveram que correr. O documentário reproduz uma conversa em que o Subsecretário de Estado George Ball relata a Johnson, por telefone, as providências para o envio da esquadra à costa brasileira. O presidente é firme. “Devemos tomar todas as medidas possíveis, estarmos prontos para agir. Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for preciso. Nós não podemos engolir este cara.”

O golpe estava planejado para a semana seguinte. Em 20 de março, Castello havia lançado uma circular reservada à alta oficialidade atacando as medidas anunciadas na Central. No dia 28, alguns generais se reuniram no aeroporto de Juiz de Fora para conchavar com o governador Magalhães Pinto. Ao saber da marcha de Guedes e Mourão, Castelo considerou-a uma precipitação arriscada. Sugeriu que recuassem para não serem massacrados. O açodamento dos mineiros é atribuído a uma superstição de Guedes, que preferiu aproveitar a lua cheia, pois acreditava que nada que se faz na minguante dá certo. Mas houve também o incentivo de Magalhães Pinto, que postulando a presidência, queria ser o líder civil da “Revolução”.

A Operação Brother Sam teve início às 13h50 do dia 31. Um cabograma para embaixada relatou as ações em curso: “Do Departamento de Estado para o embaixador Lincoln Gordon. As seguintes decisões foram tomadas de modo a dar apoio militar e logístico às forças anti-Goulart. Navios petroleiros darão apoio à esquadra, partindo da base de Aruba. A força naval de combate foi ativada para exercícios na costa Sul do Brasil. O destino inicial é o porto de Santos. A força naval é composta por um porta-aviões, quatro destroyers e cruzadores de apoio. Em Porto Rico serão embarcadas 110 toneladas de munição, armas leves e gás lacrimogêneo, para contenção e controle de forças. Apoio aéreo pode ser fornecido imediatamente, se houver condições de pouso em Recife ou em outro lugar do Nordeste brasileiro, capaz de receber aviões de grande porte com segurança”.

No Palácio Laranjeiras, onde dormira, Jango foi convencido por Assis Brasil de que o movimento de Mourão não representava perigo, seria logo sufocado. O CGT convocou uma greve geral, que Jango achou desnecessária, mas com isso os transportes foram prejudicados. Estudantes, sindicalistas, militantes dos partidos de esquerda, sargentos e cabos legalistas, todos procuravam pelas ações de resistência que não vieram.

Ao ministro da Marinha, Paulo Mario, Jango disse que não queria “derramamento de sangue”. O chefe dos Fuzileiros Navais, Almirante Aragão, buscou uma ordem que não chegou, para resistir e armar o povo. Mario Magalhães, em seu livro, relata a frustração do coronel Rui Moreira Lima, que chegou a sobrevoar a coluna golpista com um jatinho. Os soldados, temendo o bombardeio, fugiram para o mato. O coronel e o brigadeiro Teixeira, chefe da base aérea de Santa Cruz, pediram autorização ao ministro da Aeronáutica para decolarem com uma esquadrilha de caças mas o ministro disse não ter ordens do presidente para resistir. Já o ministro do Exército, Jair Dantas Ribeiro, estava hospitalizado.

O cerco se fechou para Jango numa conversa telefônica com o chefe do II Exército, de São Paulo, general Amaury Kruel, que fora seu ministro da Guerra e tinha como amigo. Para não aderir, o general exigiu a dissolução do CGT, a prisão de seus dirigentes e a demissão do ministério. Jango se negou. A trair os aliados, preferia perder o mandato. Kruel aderiu ao golpe. Em fevereiro passado, o coronel do Exército reformado Erimá Pinheiro Moreira declarou à Comissão da Verdade de São Paulo que a FIESP subornou Kruel com US$ 1,2 milhões para que traísse Jango.

No dia primeiro, com a situação praticamente dominada, apesar da “precipitação” de Mourão, Castello Branco assumiu a liderança do movimento. Soltou um manifesto pedindo a saída de Jango, que por volta das 13h tomou um avião para Brasília.

Em seu gabinete no Planalto, arrumou as gavetas conversando com três jornalistas: Fernando Pedreira (O Estado de São Paulo), Maria da Graça Dutra (Correio Braziliense) e Flavio Tavares (Última Hora). É Flavio que recorda, num artigo:
“De pé junto aos ajudantes-de-ordens, Jango nos disse no seu estilo lacônico, mas de forma tão tranquila que nos confundiu ainda mais naquela confusão: ‘Vou instalar o governo no Rio Grande do Sul’. Acabo de falar com o comandante do III Exército e viajo hoje para Porto Alegre”. “E, sem pedir que saíssemos, começou a arrumar papéis e a telefonar”. Pelo rádio, o Ladário Telles lhe disse de Porto Alegre. “ Temos algumas dificuldades, mas venha, presidente, pois o III Exército resistirá a seu lado!”. Brizola, não mais governador, emendou: “resistiremos e venceremos como em 61”.

Jango ligou para Maria Tereza para que arrumasse as crianças e seguisse na frente, em outro avião. Ela fez apenas uma malinha. Ele ainda voava quando veio a parte civil do golpe. Numa sessão do Congresso aberta às 2h40 da madrugada, o presidente, senador Auro de Moura Andrade, leu o ofício levado por Darcy Ribeiro, chefe do Gabinete Civil, comunicando que o presidente se deslocara para Porto Alegre, onde estaria à frente das forças militares legalistas e do ministério. E alegando ter ele deixado a sede do governo e a Nação acéfala, sentencia: “declaro vaga a presidência da República e, nos termos da Constituição, invisto no cargo o presidente da Câmara, Sr. Ranieri Mazzilli. Está encerrada a sessão!”.

A seguir foram ao Planalto, às escuras porque faltava luz, dar posse a Mazzilli. Estava atendida uma das exigências americanas, a de que houvesse aparência de legalidade. No dia seguinte, o Departamento de Estado atendeu à exigência de Gordon, reconhecendo imediatamente o novo governo. Dez dias depois, Castelo era eleito presidente pelo voto indireto dos congressistas. No dia seguinte, jantou com Walters.

No Sul, as conversas sobre a resistência acabaram quando Jango perguntou ao general Ladário, que expunha seus planos: “Vai correr sangue?”. A resposta foi afirmativa e ele encerrou: “então eu não concordo”. Lá, ele e Brizola souberam do reconhecimento americano mas, para muitos historiadores, ele desistiu de resistir foi ao saber do deslocamento da esquadra americana, temendo que confirmassem as previsões sangrentas de Gordon. Esteve em sua fazenda e no dia 4 seguiu para o Uruguai, iniciando o exílio do qual só retornaria morto, doze anos depois.

O desembarque da armada americana não foi necessário e no dia 3 ela recebeu ordens para retornar. Gordon e autoridades americanas sempre negaram a Operação Brother Sam, mesmo após sua revelação, em 1976, pelo jornalista Marcos Sá Correia no Jornal do Brasil, com base em documentos obtidos na Biblioteca Lyndon Johnson.

As provas mais irrefutáveis são os sete comunicados da Marinha ao comando da esquadra que se deslocava rumo ao Brasil. O de número cinco determinava: “A força-tarefa com porta-aviões prosseguirá em direção ao Atlântico Sul até que o embaixador declare que uma visita a portos brasileiros ou outras demonstrações americanas de poder naval são definitivamente desnecessárias”. O de número 6, no dia 3, recomendou providências para encobrir as operações e efetuar recuo rápido. Podem ser lida na Estação História, seção do site do jornalista Franklin Martins.
Vitorioso, Gordon escreveu a Washington no dia 2: “O Rio foi tomado por manifestações democráticas, de uma multidão que supera a época do carnaval. A eliminação de Goulart representa uma vitória para o mundo livre”. Para os brasileiros, começavam 21 anos sem liberdade, de opressão e violência.

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