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Correio Braziliense

Waldir Pires: passados 50 anos do golpe, imagem de Jango continua fraudada

Político ocupou o cargo de consultor-geral da República na presidência de João Goulart - hoje correspondente a vaga de advogado-geral da União

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postado em 26/03/2014 06:04 / atualizado em 26/03/2014 08:11

Tereza Cruvinel , Ivan Iunes

Roberto Barroso/ABr


Em 1964, Waldir Pires, com 37 anos, era um dos homens mais importantes do governo João Goulart. Coordenava os cursos jurídicos da Universidade de Brasília (UnB), onde a nata da inteligência brasileira participava do corpo docente, quando o presidente o convidou para o cargo de consultor-geral da República, hoje correspondente ao de advogado-geral da União. Por seu crivo jurídico, passavam todos os atos legais do governo, inclusive os mais polêmicos, como a lei da remessa de lucros das multinacionais e o decreto da reforma agrária.

Em 1° de abril, quando Waldir chegou a Brasília, vindo do Rio de Janeiro, já com o golpe em marcha, Jango recomendou que ele e o chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, ficassem no Palácio do Planalto garantindo a normalidade do governo e dessem ciência ao Congresso de que ele fora para ao Rio Grande do Sul com o intuito de organizar a resistência e evitar “o esbulho da vontade popular”. Juntos, redigiram o comunicado que Darcy levou ao Congresso, na sessão da madrugada de 2 de abril em que, apesar da leitura do ofício, o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, perpetrou o golpe civil, declarando vaga a presidência da República e empossando o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli.

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Waldir e Darcy viveram então uma aventura cinematográfica na tentativa de se juntar a Jango em Porto Alegre: dormiram no mato, perto da base aérea, onde embarcaram clandestinamente em um monomotor de lona, e fizeram escala em uma fazenda de Jango em Mato Grosso, onde souberam que Jango se exilara no Uruguai. Só lhes restava também deixar o país, o que fizeram carregando latas de gasolina no colo e pousando numa pastagem uruguaia. Depois que ali chegara sua mulher, Iolanda, e os cinco filhos, Waldir radicou-se na França, em exílio que duraria 15 anos.

Encerrada a ditadura, Waldir Pires foi ministro da Previdência de José Sarney e elegeu-se governador da Bahia em 1987, pelo PMDB. Deixou o cargo dois anos depois, para ser vice de Ulysses Guimarães na primeira eleição direta da fase atual, a de 1989, elegendo-se deputado federal pelo PDT em 1990. No governo Lula, foi ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), que implantou, e ministro da Defesa. Hoje, aos 88 anos, com a saúde e a memória em forma, é vereador em Salvador, de onde falou com o Correio sobre os idos de 1964.



O senhor era uma das pessoas mais próximas do presidente Goulart. O golpe o surpreendeu ou de alguma forma era esperado?
O golpe veio se preparando, não foi algo improvisado. Na verdade, começou com o veto dos militares à posse de Jango, depois da renúncia de Jânio em 1961. Aquilo já foi um ato de intolerância e de violência dos militares, por meio dos ministros das três Forças, bem como de toda a direita brasileira, contra a ordem constitucional vigente e contra a soberania popular. Naquele tempo, votava-se separadamente para presidente e para vice-presidente. Jango integrou a chapa do general Lott, mantendo a posição que ocupou na chapa encabeçada por Juscelino em 1955. Naquela ocasião, ele teve 500 mil votos a mais que o próprio Juscelino. Cinco anos depois, teve mais de 1 milhão de votos a mais do que o candidato vitorioso para a Presidência, que foi o Jânio, apoiado pela UDN. A violência de 1961 também foi algo muito alem dos quartéis, com apoio em setores civis de direita. Por isso, sempre tivemos clareza de que o governo de Jango seria uma batalha duríssima e que poderiam tentar o golpe que não conseguiram dar em 1961.

Apesar dessas resistências, o senhor acha que os últimos atos do presidente Goulart, especialmente o discurso no Comício da Central, foram determinantes para o golpe?
Não creio. Para mim, a partir do momento em que o presidente recupera os poderes presidenciais, em 1963, as coisas começam a mudar. Em 1961, por conta do veto militar, e graças à campanha da legalidade, ele toma posse aceitando o acordo de governar sob o parlamentarismo. Contrariou o próprio Brizola, que, tendo liderado a campanha da legalidade, queria a resistência sem composição. Jango portou-se com muita sabedoria e habilidade, aceitando o acordo para evitar o conflito armado, a guerra civil. Teve os poderes limitados, mas criou as condições para recuperá-los por meio do plebiscito de 1963. Ele obteve uma vitória extraordinária. Foram quase 80% dos votos a favor da volta ao presidencialismo. Apesar disso, a resistência a admiti-lo como chefe da nação também voltou com força total. A reação começou aí e ampliou-se no segundo semestre daquele ano, quando ele anunciou o programa de reformas para a transformação do país e a criação de uma sociedade mais justa. Começou, então, o clima de conspiração, reunindo todos os adversários internos — a UDN, toda a mídia, os latifundiários, boa parte do empresariado, especialmente de São Paulo — e também os Estados Unidos, que, em plena Guerra Fria, queriam controlar toda a América Latina. O golpe já estava em marcha quando acontece, por exemplo, o Comício da Central do Brasil, que foi uma grande demonstração de apoio popular ao presidente e às reformas de base.

Que informação o governo tinha sobre a movimentação do embaixador americano Lincoln Gordon e do general Verson Walters, que conspiravam abertamente com alguns generais brasileiros?
De alguma forma, Jango sabia. Mas o que fazer? Estávamos na Guerra Fria e os Estados Unidos queriam controlar a América Latina. Tanto é que depois do golpe no Brasil, conseguiram colocar uma ditadura no poder em cada país. Caíram todas as democracias, inclusive a uruguaia e a chilena, com sua forte tradição.

Pelo que se sabe, o presidente teve que governar pisando em ovos desde o início. O senhor acredita que uma atitude conciliadora teria evitado o golpe?
Jango estava apenas retomando o projeto nacional reformista iniciado pelo presidente Getúlio Vargas depois de eleito em 1950, enfrentando a resistência da UDN. Jango deu continuidade à política nacionalista para o petróleo, estendendo o monopólio também ao refino. Essa foi uma bandeira da minha geração, que, com 15, 16 anos, já lutava para que o Brasil entrasse na Segunda Guerra contra o nazismo. Na questão energética, o país precisava se industrializar, mas não dispunha de energia hidrelétrica suficiente. Era completamente dependente de trustes estrangeiros, como a Light. No Nordeste, o domínio era da americana Bond & Share. Falou-se muito contra a corrupção, mas depois do golpe, não conseguiram fazer-lhe uma só acusação de ordem moral. Ele era filho de um proprietário de terras do Rio Grande do Seul e se tornou um homem rico com seu trabalho, tornando-se o maior invernista gaúcho e o maior fornecedor dos frigoríficos. Não tinha nada de comunista, mas queria um Brasil mais justo. Quando Getúlio se recolheu a sua fazenda, depois de ser deposto em 1945, Jango se aproximou dele e se tornou uma pessoa amiga e querida. A mesma UDN que acusou Getúlio de governar num mar de lama acusou Jango de tolerar a corrupção e de conluio com o comunismo. O moralismo udenista, como sabemos, costuma gerar grandes fortunas para seus adeptos.

Quando Jango voltou do Rio, em 1° de abril, com o golpe em marcha, ele viajou para Porto Alegre disposto a resistir, atendendo ao chamado de Brizola e do general Ladário Telles. Mas chegando lá, por que ele desistiu de resistir? Teria sido ao saber do deslocamento da esquadra americana, objeto da Operação Brother Sam?
Acho que sim. Ou melhor, eu sei que foi por isso e por algo mais grave. No exílio, ele me contou um fato que foi determinante para a não resistência. Ele mencionou uma conversa que teve com o San Thiago Dantas, que era o seu ministro das Relações Exteriores, ainda no Palácio das Laranjeiras, nas primeiras horas da movimentação militar do Mourão Filho, confessando que ela o preocupou muito e foi decisiva em sua conduta posterior. O San Thiago o informou de que a esquadra americana já se deslocava, dizendo ainda: “Presidente, tenha muito cuidado. Resista se for preciso, mas avaliando se tem forças para sufocar a sublevação, evitando a guerra civil. Pois, se ela vier, presidente, tenho informações seguras de que o Pentágono colocará seu plano em ação. Nesse caso, haverá a intervenção militar americana, e eles vão se valer da guerra civil para dividir o Brasil em dois”.

Quando foi que Jango lhe contou isso?
Mais ou menos em junho de 1964, quando ele estava convalescendo de um enfarte que sofreu poucos meses depois do golpe, por conta de toda a ansiedade, de todas as pressões por que havia passado. O médico lhe disse que ele precisava fazer alguma coisa, sair da inatividade no exílio. Então ele disse que teria de comprar uma fazenda, pois sabia fazer apenas duas coisas na vida. Uma era fazer política, e isso era impossível. A outra era ser fazendeiro. De modo que, pelo relato que me fez, as ponderações de San Thiago Dantas calaram fundo em seu espírito. Ele não queria derramamento de sangue, e já havia dito isso quando tomou posse em 1961, preferindo o acordo do parlamentarismo à resistência armada. E também houve outra coisa. Quando chegou a Porto Alegre, o general Ladário Telles, que juntamente com Brizola o chamara para enfrentarem o golpe, já não tinha condições militares para resistir. Jango desembarcou de madrugada e foi levado para a casa do general, que estava guarnecida por tanques mas boa parte do III Exército, as guarnições do interior e da fronteira, já haviam aderido aos golpistas. Naquelas condições, a resistência seria uma aventura. O Congresso já dera o golpe institucional e no dia seguinte os Estados Unidos reconheceriam o novo governo. Jango era muito racional e era um patriota. Concluiu que, em defesa de seu mandato, não tinha o direito de impor tal sacrifício ao povo brasileiro.

Essa narrativa apresenta uma face desprendida e generosa de Jango, de um presidente que preferiu perder o mandato a sacrificar seu povo e seu país. No entanto, muitos o acusam de não ter resistido por tibieza ou covardia, facilitando a vitória dos golpistas. Na sua opinião, seu papel histórico ainda carece de reavaliação?
Passados 50 anos, a imagem do presidente João Goulart continua fraudada, distorcida, refletindo a versão dos vencedores de 1964. O retrato dele ainda é o que foi ordenado e pintado por eles. Seu lugar na história ainda não foi devidamente resgatado.

E a traição do general Amaury Kruel, também foi decisiva?
Ele sempre foi um reacionário. Em determinado instante da marcha do golpe ele faz aquela interpelação ao Jango, exigindo que demitisse ministros, chamando o Evandro Lins e Silva e o Raul Ryff de comunistas, que prendesse os sindicalistas e fechasse o CGT. Esta era a condição para ele não aderir ao golpe. Jango se recusou, dizendo que preferia perder o mandato a trair quem estava a seu lado.

Consumado o golpe, como você e Darcy deixaram o país?
Na madrugada do dia 2 de abril, quando Auro Moura Andrade convocou uma sessão para uma hora da manhã, ficou claro que haveria o golpe institucional. O Doutel de Andrade, líder do governo, chegou esbaforido ao Palácio do Planalto para nos avisar. Com minha Olivetti, redigi sete linhas para embasar o oficio que Darcy, como chefe do Gabinete Civil, levou ao Congresso, avisando que o presidente continuava no exercício constitucional de suas funções e estava se deslocando para o Rio Grande do Sul para defender seu mandato. O Doutel consegue subir à tribuna e ler este comunicado, que está publicado no Diário do Congresso do dia seguinte. Apesar disso, como é sabido, Auro declarou vaga a presidência e deu posse a Ranieri Mazzilli. Depois do golpe no Congresso, fizemos uma reunião nossa, numa residência particular. Varamos a madrugada. Ali foi decidido que eu e Darcy devíamos ir para Porto Alegre nos juntar ao presidente para ver o que poderíamos salvar naquele naufrágio. Os outros ficariam em Brasília. La estava alguns ministros, o Doutel, Bocayuva Cunha, Almino Affonso, Temperani Pereira. Então o Rubens Paiva, sempre generoso, prontificou-se. “Eu assumo a logística”. E arrumou um aviãozinho, um monomotor de lona. O risco de sermos presos já era grande. Passamos a noite do dia 3 para o dia 4 escondidos numas moitas perto da base aérea. Rubens ficou conosco, até ouvirmos o barulho do motor do aviãozinho. Saímos de Brasília para a fazenda do presidente em Mato Grosso. Rubens prevenira o gerente de que iam chegar dois amigos do presidente. Um outro avião iria lá nos abastecer. Chegamos no final da manhã mas o outro avião não apareceu. No início da tarde nosso piloto, o Almir, nos disse. “Agora não adianta mais. Já não conseguiremos chegar em Porto Alegre com a luz do sol. E como aqui ninguém tem gasolina de avião, a única saída é voarmos com gasolina de carro. Eu já voei. Se os senhores quiserem, podemos ir. Eu vou encher o tanque e trazer mais duas latas. Cada um de vocês levará uma no colo. Faremos uma parada no Paraguai para reabastecer com a gasolina das latas”.

E deu certo?
Não havia outro jeito mas sobrevivemos. Nós não nos sentíamos seguros numa fazenda do Jango. Tanto que até passamos a noite num pasto, esperando o aviãozinho retornar. Ao me despedir em Brasília, a Iolanda disse. “Levem esta garrafa de Old Parr e estes chocolates, pode estar frio por lá”. Ela adivinhou. O frio cortava. Ficamos ali no mato ouvindo um radinho de pilha. Por volta das nove da noite ouvimos a notícia de que o presidente João Goulart havia chegado a Montevidéu e pedido asilo político ao governo do Uruguai. Então estava tudo acabado, não tínhamos nada mais a fazer em Porto Alegre. Nosso destino seria também o Uruguai. Voamos, cada qual com uma lata de gasolina no colo. Paramos novamente num pasto paraguaio e passamos a gasolina das latas para o tanque. A viagem correu bem até então mas no final foi dificílima. O tempo fechou completamente e o piloto nos disse: “Se prosseguirmos, o avião não vai resistir. Vou espantar estas ovelhas com um sobrevoo e descer aqui mesmo”. Descemos e caminhamos um pouco, um camponês nos indicou uma cidadezinha de águas termais. Chegamos a uma pensão e ali apareceu um cabo da polícia, a quem eu pedi formalmente asilo políticos para mim e Darcy. Finalmente pudemos dormir. Foi um alívio

Hoje, 50 anos depois de tudo isso, como o senhor vê estes movimentos de reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, um saudosismo da ditadura em plena democracia?
A minha convicção intima é de que o processo político brasileiro se interrompeu, mas foi um período importante. E que ele se restaura como possibilidade de retomarmos o caminho das reformas interrompidas. Estes movimentos lamentáveis não são de uma nova direita. É da direita de sempre, que resiste às mudanças em defesa de seus privilégios. Temos uma eleição à vista e estes setores querem evitar a reeleição da Dilma e quem sabe a volta do Lula em 2018. A etapa iniciada com Lula foi de grandes avanços, mas ainda estamos longe do processo necessário de mudanças.

Como avalia a fase mais longeva de democracia que hoje vivemos?
É verdade, estamos com 29 anos de democracia. Hoje o grande desafio é construir um Estado mais democrático, e para isso ele precisa ser eticamente exemplar. É fundamental que a população creia no Estado democrático e que ele seja capaz de responder às questões essenciais, garantindo a liberdade em todas as iniciativa, da economia à literatura, mas criando uma Nação que acolha todos os seus filhos. Durante séculos, este foi um país de segregação, de miséria, abandono, sofrimento enorme, falta de acesso à educação e à cultura, privilégios de quem tinha dinheiro e berço. Avançamos, mas falta muito. Poucos países conseguiram organizar a vida social com ênfase nos direitos da pessoa humana. Este ideário nasceu no século XVIII mas a democracia acabou absorvida pelos mecanismos econômicos, pela ganância, pelos esquemas das organizações e pelos lobbies. Hoje, com todos os avanços científicos e tecnológicos, já devíamos ter sido capazes de criar sociedades não excludentes. E isso terá que vir pela política, não há outro caminho.
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