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Correio Braziliense

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Comissão ouve depoimentos de alunos da UnB expulsos após a greve de 1977

A paralisação de professores e de alunos foi um protesto contra a decisão às violências que os integrantes da comunidade acadêmica sofriam dentro do câmpus

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postado em 29/03/2014 08:03

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press


A visita à instituição de ensino onde não pôde concluir a graduação emociona o engenheiro agrônomo e ex-militante estudantil Ramaiana Ribeiro. Desligado da Universidade de Brasília (UnB) em 1977, ano da greve de alunos e de professores, ele considera uma injustiça de 37 anos a decisão do então reitor e capitão-de-mar-e-guerra da Marinha, José Carlos de Almeida e Azevedo, de expulsá-lo sumariamente da graduação, com outros 29 colegas, por envolvimento na greve geral daquele ano. Ele e a jornalista Tereza Cruvinel, colunista do Correio, narraram as violações sofridas no período à Comissão Anísio Teixeira de Verdade e Memória da UnB, ontem, em audiência na instituição.

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A paralisação de professores e de alunos, de maio a dezembro de 1977, foi um protesto contra a decisão às violências que os integrantes da comunidade acadêmica sofriam dentro do câmpus, inclusive a mando de Azevedo. Escutas e olheiros eram plantados em todos os locais da universidade para acompanhar as atividades da resistência. A expressão cultural também era vetada. “O clima era terrível, aqui reinava a paz dos cemitérios, onde ninguém podia falar nada. Até para tocar violão, a gente tinha que pedir autorização”, lembra Ribeiro.

Tadashi Nakagomi/CB/D.A Press


Para combater essa situação, a universidade parou, e os estudantes mais engajados levaram o debate contra a ditadura à tona. “Nós questionávamos o reitor, pedíamos explicação sobre os inúmeros casos de perseguição que sofríamos”, relata Tereza. “Nosso movimento começou com a eleição para a representação estudantil (espécie de centro acadêmico) e acabamos expulsos porque, de acordo com o reitor, nós tínhamos transformado o processo eleitoral estudantil em debate contra a ditadura”, completa Ribeiro.

Tortura psicológica
Pela atuação marcante, os dois contam que sofreram vigilância constante e, até mesmo, tortura psicológica. “Eu tinha até um apelido, era chamada pelos agentes de Terezinha Satanás”, ri a jornalista. Já Ramaiana foi preso três vezes. Em uma delas, os militares tentaram intimidá-lo com fotos e ameaças à família. “Eles abriram um livro cheio de fotos minhas e me perguntaram se era eu. Depois, insinuavam que meu pai poderia sofrer alguma consequência. Meu filho nasceu e eu estava na cadeia”, lembra.

Ambos tiveram a vida acadêmica interrompida em razão da atuação no movimento estudantil. Ramaiana nunca conseguiu regressar ao curso de agronomia na UnB, e Tereza só concluiu a graduação em comunicação social na década de 1980. Quase 40 anos depois do ocorrido, a Comissão Anísio Teixeira de Verdade e Memória se concentra em entender e colher detalhes dos atos de repressão da administração. “Nós temos o cuidado de não nos desligarmos dessa investigação, da confecção de um relatório, para fazermos a história da UnB”, salienta o professor membro da comissão João Otávio Nogueira Guimarães.

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