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Motorista relata o dia em que deixou Jango na Base Aérea em abril de 1964

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postado em 01/04/2014 11:45 / atualizado em 01/04/2014 17:49

Bruno Peres/CB/D.A Press - 10/1/14

Caía uma garoa fina nas ruas de Brasília quando o carro oficial do presidente João Goulart deixou a Granja do Torto. Soldados com roupas camufladas se movimentavam pelas ruas naquela noite de quarta-feira, 1º de abril de 1964, prenunciando a tomada do poder pelos militares nas horas seguintes. Dentro do veículo, a conversa era outra. O general Nicolau Fico, então comandante de Brasília, tentava tranquilizar Jango sobre o sucesso de uma resistência que acabou nem ocorrendo. Na condução do volante, Miguel Soares de Oliveira testemunhou os últimos momentos do presidente, antes de deixá-lo na base aérea, de onde partiria para o exílio e nunca mais retornaria. O que o jovem potiguar nem poderia sonhar é que, mesmo tendo servido ao civil deposto, dirigiria para todos os cinco militares que governaram o país no período ditatorial que estava se instalando.

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Poucos brasileiros viveram tão perto dos generais que, com mão de ferro, comandaram o Brasil no período mais sombrio da história recente. No momento em que o país analisa o cinquentenário do golpe, Miguel, 81 anos, dois filhos e dois netos, revisita a própria história como motorista do Palácio do Planalto. Em dois encontros, ele dividiu com o Correio passagens dos mais de 21 anos em que dirigiu para presidentes, começando por Jango. “Ele era muito popular. Quando saía, voltava com os bolsos todos rasgados, porque as pessoas o puxavam”, lembra. O clima dos últimos momentos do presidente em Brasília, entretanto, foi tenso. “Existia um certo nervosismo. O Fico falava que ia ficar tudo bem, mas Jango sabia que não, tanto que já estava de mala arrumada. Chegando na base aérea, acho que por conta do nervosismo, não deu nem até logo para mim.”

O motorista Miguel Soares de Oliveira, relatou o dia em que deixou o ex-presidente João Goulart na Base Aérea no dia 1° de abril de 1964. Ele dirigiu para todos os presidentes do regime militar. Confira o vídeo:


Ter vivido ao lado do poder não faz de Miguel um analista do período. Ele encara o tema do golpe da mesma forma reservada que serviu aos seis presidentes — cinco militares e Jango. “Para mim, (o golpe) não mudou nada. Nunca pedi nada a ninguém. O papel do motorista é dirigir e ser discreto. Na minha função, tinha de ser cego, surdo e mudo. Foi isso que fiz”, diz Miguel. Uma das mais emocionantes recordações são as dezenas desfiles de 7 de Setembro em que cortou a Esplanada dos Ministérios a bordo do Rolls-Royce presidencial.

De família pobre do município de Lagoa de Velhos (RN), o menino franzino, dispensado da Marinha depois de os exames de saúde apontarem “três cruzes de sífilis”, persistiu. “Eu disse para o superior que me dispensou que eu preferia morrer de fome no Rio de Janeiro do que no interior do Rio Grande do Norte”, lembra Miguel. Mostrou serviço lavando roupas e cuidando do quartel, até ser engajado. Foi militar por quase nove anos, depois se tornou civil. Só saiu da Presidência quando José Sarney assumiu, em 1985, no lugar de Tancredo Neves, que morreu antes de tomar posse. Aposentou-se como motorista do Ministério da Saúde em 1992.

“O papel do motorista é dirigir e ser discreto. Na minha função, tinha de ser cego, surdo e mudo", Miguel Soares de Oliveira, ex-motorista da Presidência da República

Homenagem a Zuzu na SPFW

A história e a luta da estilista mineira Zuzu Angel vão ganhar homenagem em São Paulo em meio aos desfiles do maior evento de moda do calendário brasileiro do setor. Hoje, dia que marca o 50° aniversário do golpe de 1964, a exposição Ocupação Zuzu abre as portas para visitação do público no espaço Itaú Cultural, paralelamente à programação das coleções de verão 2015 apresentadas na São Paulo Fashion Week (SPFW). O filho da estilista, Stuart Angel, foi preso pelo regime militar e seu corpo nunca foi encontrado. Desde então, Zuzu usou seu trabalho como forma de luto e protesto. (Carolina Samorano)

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