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Entrevista: ex-guerrilheiro narra atuação na ALN nos anos de chumbo

Atirador da ALN acredita que equívocos na estratégia da guerrilha foram cruciais para o fracasso dos movimentos que lutaram contra a ditadura

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postado em 07/04/2014 17:39 / atualizado em 07/04/2014 20:05

Luiz Carlos Azedo

Reprodução/Google

Discreto, o advogado trabalhista Takao Amano, o “Jorge”, 66 anos, é considerado um gentleman pelos colegas do Sindicato dos Médicos de São Paulo. De fala mansa, educadíssimo, nos chamados anos de chumbo, porém, foi um dos principais guerrilheiros urbanos do estado paulista, quando era um dos atiradores da Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização criada pelo líder comunista Carlos Marighella, que surgiu de uma dissidência do antigo Partido Comunista Brasileiro, o Agrupamento Comunista de São Paulo. O minimanual do guerrilheiro urbano, escrito por Marighella, era o livro de cabeceira da ultraesquerda armada no mundo inteiro.

Nesta entrevista ao Correio, Takao Amano conta como se formou a ALN em São Paulo e narra sua atuação na guerrilha. Participou de mais de 20 ações armadas, entre elas, o assalto ao trem pagador da ferrovia Santos-Jundiaí, em 10 de agosto de 1968, e o tiroteio de Suzano, durante assalto à agência local da União de Bancos Brasileiros, no qual morreu o investigador José de Carvalho, e duas pessoas que passavam pelo local foram feridas. Baleado na coxa, Takao foi operado por Boanerges Massa na residência do casal Carlos Henrique Knapp e Eliane Toscano Zamikhoski.

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Preso numa emboscada em São Paulo, em setembro de 1969, levou um tiro de Winchester 44 na perna. Fez parte do grupo de 70 presos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) de Carlos Lamarca, no Rio de Janeiro, em setembro de 1971.

Banido do país, foi para o Chile e, depois, para Cuba, onde se reintegrou ao PCB. Quando houve a anistia, era o seu representante na Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), em Budapeste. Na volta ao Brasil, foi preso novamente, em dezembro de 1982, durante o 7º Congresso do PCB, sendo eleito para o seu Comitê Central.


Quando você decidiu participar da luta armada?


Foi no processo de discussão das teses do 6º Congresso do PCB, em 1966, quando havia uma polarização entre duas tendências. Uma considerava ainda válida a linha política da Declaração de Março de 1958, apesar da derrota que o partido sofreu em 1964, e outra ala acreditava que o partido deveria ter se preparado para reagir ao golpe, que vinha sendo preparado desde o suicídio de Getúlio Vargas. A ideia era, a partir do movimento da luta armada, formar uma frente anti-imperialista e organizar um exército capaz de tomar o poder.

Quem liderava essa corrente?


Carlos Marighela, Joaquim Câmara Ferreira (Toledo), Mário Alves, Jacó Gorender, Apolônio de Carvalho e Pedro Pomar, que formara PCdoB com João Amazonas. Marighella, Toledo e alguns companheiros do comitê estadual do PCB criaram uma tendência denominada Agrupamento Comunista de São Paulo, com a concepção de que a “ação faz a vanguarda”, ou seja, o processo da luta é que criaria o partido político, o braço político de um exército revolucionário. Mário Alves, Gorender e Apolônio formaram o PCBR.

Foi aí que você se ligou ao Marighella?


Era da base de São Miguel Paulista. No racha, fiquei ligado a Agonalto Pacheco (ex-vereador de Aracaju), Costa Pinto (jornalista), Oswaldo Lourenço (estivador), Rafael Martinelli (ferroviário), Cícero Viana (advogado) e outros. Recrutei companheiros jovens da USP para a dissidência. Nós trouxemos praticamente 80% da base estudantil do PCB. No início de 1969, a maioria foi compor o setor militar da ALN, comandado pelo Carlos Eduardo Pires Fleury, que consta da lista dos desaparecidos. Desde 1968, já estava designado para o setor militar, integrando o grupo Tático Armado coordenado pelo Marco Antônio Brás de Carvalho.

De quantas ações armadas você participou?


Umas 20: expropriações de carros, de armamentos, de explosivos, de bancos e de carros pagadores. O caso do trem pagador foi uma ação especular, todas as informações foram dadas pelo Martinelli. Geralmente, eu fazia a cobertura dessas operações. Nós precisávamos de recursos e de armas para a implantação de uma guerrilha rural. Quem chefiava o grupo era o Marquito, até ser assassinado. Aí, assumiram o Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, que também foi morto, e o Aton Fon Filho. Os dois tinham feito treinamento em Cuba. Como havia umas 50 pessoas, formaram-se dois grupos. Eu e o Celso Horta, que está vivo, coordenávamos um. O outro era coordenado pelo Carlos Eduardo Pires Fleury e o Manoel Cirilo de Oliveira Neto, que também está vivo. Ele participou do sequestro do embaixador norte-americano, com o Toledo e o Jonas. Era excelente motorista.

Você participou de algum sequestro?

Não, como tem pouco japonês no Rio, o Toledo achou melhor eu ficar de fora do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick.

Você foi ferido duas vezes em tiroteios com a polícia. Como foi isso?

A primeira vez foi em Suzano. Entramos no banco, alguém do lado de fora percebeu e chamou a polícia. Houve troca de tiros na fuga, fui baleado na perna. Depois, ficamos sabendo que, nesse tiroteio, um policial foi ferido. A segunda vez foi em 23 de setembro, após o sequestro de Charles Elbrick. Sofremos uma emboscada, eu e o Carlos Lethestin, que continua vivo. Ele era o motorista, foi atingido no braço e na perna, que quebraram. Saí pelo lado do carona e corri dois quarteirões, mas não aguentei. Um tiro de Winchester 44 me acertou a perna, o buraco era enorme.

Foi muito torturado?

Fomos levados para a Rua Tutóia, centro da Operação Bandeirantes. Colocaram a gente numa maca e começaram a dar choques elétricos. A tática deles era tirar qualquer informação em 24 horas, para evitar a fuga dos companheiros. Chegamos por volta das 20h e fomos torturados até meia-noite, mas o sangramento provocou nossa transferência para o hospital militar naquela madrugada. No dia seguinte, de manhã, começou tudo novamente. Nos fundos do hospital, havia um quartinho só para tortura.

Você era considerado exímio atirador pelos órgãos de repressão...

Era amador. Fizemos treinamento no meio do mato, pouco usei armas em ação. O único tiroteio foi o de Suzano. Usava uma metralhadora INA, calibre 45, que era pequena e simples de montar, cabia numa mala 007. Nós a pegamos da PM de São Paulo. Meu irmão, João Amano, que havia prestado serviço militar na Aeronáutica, nos deu orientação de tiro. Ele também foi preso, mas tinha emprego fixo, uma vida normal. Fiz acareação com ele, apanhei muito, e ele também, mas nós negamos tudo. No julgamento, ele foi absolvido por falta de provas. Eu já estava no exílio, banido.

Quando você foi trocado pelo embaixador suíço?


Em 11 de janeiro de 1971, fomos todos para o Galeão, tinha gente de várias regiões do país, e fomos levados para o Chile. De lá, fui para Cuba, onde houve uma cisão na ALN. A grande maioria montou o Molipo (Movimento de Libertação Popular) em Cuba. A ALN estava morrendo na cidade e deixara de fazer o trabalho estratégico na área rural. No fim de 1972, eles voltaram e foram dizimados. De 30 pessoas, sobraram três ou quatro. Um deles é o José Dirceu.

Houve infiltração?


É muito discutível. O cabo Anselmo estava em Cuba, com ex-militares da VPR. Os cubanos davam guarida a ele. Há muita discussão se ele já era infiltrado antes do golpe ou se tornou agente duplo depois. É uma coisa a ser pesquisada. Os sobreviventes não sabem dizer o que ocasionou a prisão do grupo.

Qual a conclusão a que você chegou sobre a luta armada?


O caminho da violência já estava posto. A direita era golpista. Desde a volta do Getúlio Vargas, em vários momentos, tentaram o golpe. No período de Juscelino, houve Aragarças e a República do Galeão. Na renúncia do Jânio, tentaram impedir a posse do Jango. Os ânimos estavam acirrados, e o país, dividido. Havia a crise econômica, e a situação internacional era tensa. A Revolução Cubana estava fresquinha, a Guerra do Vietnã vivia uma escalada e a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos crescia. Tudo isso criava uma espécie de sedução pela luta armada. Havia mais emoção do que razão.

Você acha que a luta armada tinha chance de dar certo?


Nós acreditávamos, mas sabemos que fomos derrotados. Alguns dizem que a ditadura só foi violenta após o AI-5. Não é verdade, basta ver a lista de cassações do AI-1 e as prisões, inclusive com a de militares.

Você fez autocrítica?


Aquilo que nós fizemos não se pode apagar. Se você pegar os processos, verá que foi um movimento grande. O PCB rachou de Norte a Sul. Em São Paulo, no Rio, em Minas e no Rio Grande do Sul havia muita gente disposta a partir para a luta armada. Nós pecamos pela chamada pressa pequeno-burguesa. Era um processo de longo prazo. O caso da tomada da Rádio Nacional, com uma locução do Marighella dizendo que era o ano da guerrilha nacional, mostra a precipitação. O método da guerrilha é a surpresa. Se você avisa que vai lá, está dizendo: “Me esperem”. Na guerra, se você erra, é derrotado. Erramos, mas não se pode mudar o que aconteceu. O PCB nos responsabilizou pelo endurecimento do regime, não concordo com isso. O regime era uma ditadura militar.

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