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Leia críticas dos dois primeiros concorrentes ao Festival de Cinema

O 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro acontece no Cine Brasília

postado em 19/09/2015 11:53 / atualizado em 19/09/2015 12:07

Ricardo Daehn

Caraminhola Produções Artísticas Ltda/Divulgação

Crítica / A família Dionti

Singelo abecedário do amor


“Gente pode deixar de ser gente?”, questiona o protagonista de A família Dionti, primeiro filme da mostra competitiva do 48º Festival de Cinema. Desorientado, o menino Kelton (Murilo Quirino) terá que “olhar para dentro”, no melhor dos estilos à la A descoberta do mundo, em busca de respostas. Com o coração “encharcado”, o personagem conta com a transigência (coisa cada vez mais rara) do diretor do filme, Alan Minas.

O cineasta pega seus atores juvenis pela mão e, junto com o público (com linguagem popular), investe na simplicidade, além de se adequar, por momentos, à ótica pueril legitimada por personagens de Sofia (a luminosa Anna Luiza Paes Marques) e do irmão de Kelton, Serino (Bernardo Lucindo).

Sem ceder à ida para capital, Kelton segue a vivência narrativa de versão masculina descrita em O xote das meninas (“só vive suspirando, sonhando acordado”). A família Dionti engrossa a cinematografia juvenil interiorana (neste caso, mineira) de títulos como Mutum (2007), Os famosos e os duendes da morte (2010) e de Vida de menina (2003). A linguagem genuína adotada pelos personagens é dos grandes trunfos da fita. “Chove pouco demais”, personagens que “juram pelo mundo” e um “Nem todo barro vira tijolo” ilustram bem regionalismos.

Incorporando, por momentos, a informalidade de cena que remete a Narradores de Javé (2010), com participação de populares, num consultório, a narrativa se esbalda em humor (com bom aproveitamento do doutor interpretado por Gero Camilo).

Submersos por sonhos e devaneios, os jovens se ajustam ao calor das paixonites que os renovam. Flertando com um realismo mágico, o diretor Alan Minas incorpora algo aos moldes do cinema de Ruy Guerra (curiosamente, bem solicitado no filme de abertura do festival, Um filme de cinema). Personagens fervem, são partidos ao meio, cospem abelhas, transmutam e entram até em sonhos. Com bela música (redundante, às vezes) de Clower Curtis, tom convidativo e uma precipitada proposta de fuga das personagens, o diretor Minas prima por não seguir atalhos, na bifuracada e lírica estrada de chão batido à frente dos tipos criados no seu envolvente roteiro.

Resistir é preciso

O longa Fome foi o escolhido para estrelar, ontem, a segunda noite da mostra competitiva do festival. O único concorrente em preto e branco entre os filmes é dirigido por Cristiano Burlan, que veio a Brasília pela primeira vez. O diretor estava apreensivo. “Até as vaias do público são uma reação melhor do que a indiferença. É muito importante apresentar o filme pela primeira vez em Brasília, tão importante quanto exibir na periferia de São Paulo (que serve como pano de fundo para o longa). Quando o filme dialoga com o público, é o ápice da satisfação”, disse. Na trama, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet vive o papel de um sem-teto por opção em uma metrópole, que encara a vivência das ruas como um “ato de resistência” à invisibilidade. A opção pelo preto e branco representa o modo de ver o mundo de Burlan. “Não consigo ver a vida colorida. Isso, para mim, é algo muito sério.” Com orçamento de R$ 15 mil, o filme é sondado para participar de festivais europeus.

Duas perguntas / Eduardo Moscóvis

A visão de uma Brasília, de fato, “projetada na esperança de ser uma cidade base para o país” mapeou a equipe de O outro lado do paraíso, na perspectiva do ator Eduardo Moscóvis. Dirigido pelo cineasta André Ristum (premiado na capital, pelo filme Meu País) e saído de texto de Luiz Fernando Emediato, o longa teve produção portentosa (R$ 7 milhões de investimento) e compete pelo troféu Câmara Legislativa da Mostra Brasília. Com sessão gratuita, amanhã, no bloco de exibição das 17h, o longa, com relevância contemporânea (apesar de ambientado nos anos de 1960), trata da construção de uma sociedade igualitária, da queda de ideologias e do esfacelamento de sonhos. (RD)

Como tratar de ditadura sem acatar maniqueísmo?
Criamos um personagem sonhador! Achava que o traço de composição inicial seria dar credibilidade a um cara que realmente acredita e deseja alcançar o paraíso, e sem freios. Imagino que, se acreditamos nesse impulso e fazemos o público acreditar nisso também, fugimos do maniqueísmo.

Que momento é esse para o um filme que fala de democracia? O painel atual do Brasil te leva a que reflexão?
Estamos vivendo um momento delicado. Uma crise mundial e, paralelamente, vivemos uma enorme instabilidade interna. Muitas coisas que todos já sabiam estão vindo à tona. Eu, como cidadão e artista, torço pela investigação e, a partir dela, reflexão e prática de transformação. A minha certeza é a de que a melhor maneira de ajudar em tudo isso é continuar trabalhando.

	Charlene Rove/Divulgação

Crítica // Fome


À icônica Marilyn Monroe, imaculada e sensual, acima de reveladora corrente de ar, o cinema brasileiro responde com a primitiva alegria do personagem de Jean-Claude Bernardet, um esquálido andarilho, contra todos, no longa-metragem Fome. Apequenado como formiga, ele renega o nome Joaquim e assume, num jogo, a identidade de general impossibilitado e descrente de se "reerguer", na selva da rua.

Com a naturalidade de um elefante que ocupe cristaleira, o protagonista do filme híbrido (entre a ficção e a realidade) causa estranhamento, pelo improvável de um tipo europeu "com fleuma belga" abandonado à miséria. Mas, a mendicância lírica do filme dirigido por Cristiano Burlan incha o discurso que lhe dá vida: há humanidade no compadecimento calculado dos abastados quando se valem da benevolência esporádica, frente a desvalidos?

A complacência já desbaratada por Sérgio Bianchi, em Cronicamente inviável (há 15 anos), se alastra em Fome. Com impacto, na trama, uma universitária vai às ruas, num recurso legítimo, em que pobres reais falam do "humilhante" que os cercam, a ponto de se "sentirem um lixo". Esquadrinhados, na ficção, os invisíveis mendigos ganham a qualidade (no oportunista filtro da classe-média) de "imprestáveis" e de "inúteis totais".

Visto como pária, o protagonista se mostra provocador, ao indicar "a rua" como "uma conquista". Deboche, agressões e desconfiança o apartam da sociedade, no filme com fotografia magnetizante de Helder Filipe Martins, na qual São Paulo se afirma como personagem. Um antagonista até, por compactuar com artifícios excludentes.

Curiosa é a opção de injetar humor, com toque de chanchada de vanguarda, nos encontros do personagem com o "casal da bondade" (donos de esmola de araque) e do boêmio travestido. Melhor mesmo, é o risível embate do aparente miserável com o ex-aluno (Francis Vogner, crítico de cinema, ouve do mestre Bernardet, ex-crítico, da inutilidade de seu ofício). Com fome de dignidade, o protagonista, ex-acadêmico, prefere a incerteza e cospe no prato da pátria educadora de fachada. Fome zero, onde?

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