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Biografia de Santoro tem foco na diversidade da obra do músico

O longa apresenta o maestro a uma geração que pouco ouviu falar dele, mas também faz um registro biográfico e musical da trajetória do artista

postado em 20/09/2015 12:20

Nahima Maciel

Para John Howard Szerman, Claudio Santoro foi o maior músico do Brasil. Mais importante que Camargo Guarnieri ou Heitor Villa-Lobos. Logo que começou a produzir Santoro — O homem e sua música, único documentário selecionado para a mostra competitiva do 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Szerman teve a certeza de que estava diante de um dos mais brilhantes compositores brasileiros.

Biografia de Santoro tem foco na diversidade da obra do músico


Com 87 minutos e organizado cronologicamente, o longa apresenta Claudio Santoro a uma geração que pouco ouviu falar do músico, mas também faz um registro biográfico e musical da trajetória do artista. Alessandro Santoro, pianista e filho do compositor, ficou responsável pela direção musical do documentário e construiu um repertório moldado para mostrar a diversidade da produção do pai. Santoro foi o músico brasileiro que mais mergulhou na experimentação. Fez música dodecafônica, serialista, nacionalista e eletrônica. Produziu mais de 600 obras, escreveu uma única ópera e se aventurou até na música infantil ao coordenar a coleção Carrossel, os disquinhos em vinil coloridos com historinhas que marcaram toda uma geração de brasileiros.

Alessandro e Szerman investiram em execuções feitas especialmente para o filme e contaram com a participação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, da Filarmônica de Minas Gerais, da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e da Amazônia Filarmônica. “Várias músicas foram executadas só para o filme”, conta Szerman. A Camerata Aberta gravou Agrupamento a dez, parceria de Santoro com Vinicius de Morais. Com a Camerata de Brasília, Szerman filmou o poema O estatuto do homem, recitado pelo autor, Thiago de Mello, e musicado por Santoro.

A ideia era reproduzir um episódio do fim da ditadura, quando Mello recitou o poema musicado por Santoro durante um concerto que celebrava a redemocratização na Esplanada dos Ministérios. “É uma peça interessante do ponto de vista musical e marcou um momento político importante no Brasil”, explica o diretor. Depoimentos de familiares, amigos, músicos e musicólogos ocupam metade do longa. A outra metade traz as músicas executadas ao vivo para o filme e alguns trechos clipados de imagens de arquivo.

Partituras
Uma série de entrevistas com Gisèle Santoro está na origem do documentário. “Ela estava preocupada porque o Claudio estava começando a se perder na memória nacional, poucas orquestras estavam pedindo pauta para tocar as músicas dele, cada vez menos”, conta Szerman. Além de deter os direitos autorais da obra do marido, Gisèle guarda em casa centenas de partituras e uma preciosidade que ajudou a construir o fio narrativo do filme: um conjunto de nove fitas nas quais Santoro narra a própria vida, um projeto iniciado por duas estudantes que queriam escrever a biografia do músico. “Isso é pouco conhecido do público e é a voz dele falando”, lembra Gisèle. “O importante do filme é que foi dada bastante visibilidade à obra dele. Claudio era um artista muito irrequieto. Começou a compor muito cedo e fez coisas que não se fazia no Brasil na época. Tudo ele experimentou. A única coisa que é perene na música dele é o lirismo. Ele era um sujeito muito romântico.”

Além de filmar as orquestras e os depoimentos, Szerman usou imagens de arquivo com parcimônia, já que nem sempre elas estiveram acessíveis. A TV Cultura guarda preciosas sequências de Santoro em plena prática da regência, mas exigiu que elas fossem usadas apenas nas exibições do filme no próprio canal. Caso Szerman usasse o acervo, precisaria excluir as imagens sempre que o filme fosse exibido em outro canal ou no cinema. O cineasta desistiu das sequências históricas e Gisèle Santoro ficou indignada com a emissora. “A Cultura nunca pagou direitos autorais pela exibição das imagens e se recusou a colocar imagens do Claudio regendo em um filme que nem é comercial. E a Cultura nem é uma tevê privada!”, lamentou.

Embora o longa conte com a narração de dois musicólogos — Lutero Rodrigues e Sérgio Nogueira —, Szerman não queria fazer um filme dirigido a especialistas. “Procurei fazer a narrativa mais limpa possível para que as pessoas se concentrassem no Claudio”, explica. “A ideia, acima de tudo, era apresentá-lo para as pessoas conhecerem mais. A gente tinha medo de ser específico demais, queríamos ampliar para que as pessoas pudessem conhecer a obra dele. É importante um país como o Brasil conhecer seus grandes criadores”, completa Alessandro Santoro, que gravou algumas sonatas ao piano para serem incluídas na trilha.


48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Cine Brasília (EQS 10/107). Hoje, às 20h30. Longa: Santoro – O homem e sua música (DF, 87min, livre). Curtas: A outra margem (de Nathália Tereza – 26min, MS, 12 anos) e História de uma pena (de Leonardo Mouramateus – 30 min, CE, 14 anos). Ingressos: R$ 12 e R$ 6 (meia)

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