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Irmãos Carvalho contam histórias e falam sobre a paixão pelo cinema

Vladimir foi o grande homenageado, e Walter abriu o evento com Um filme de cinema

postado em 20/09/2015 12:40

Diego Ponce de Leon , Severino Francisco

Os irmãos Carvalho ocuparam um lugar de destaque nesta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Vladimir foi o grande homenageado, e Walter abriu o evento com Um filme de cinema. O pai deles morreu quando Vladimir Carvalho tinha 11 anos e Walter, 2, de modo, que o mano mais velho assumiu as responsabilidades de pai provedor e inspirador. Ele iniciou Walter nas luzes e na aventura do cinema. Além de diretor de documentários essenciais (Conterrâneos velhos de guerra, Barra 68: Sem perder a ternura jamais e Rock Brasília: a era de ouro), Vladimir criou as condições para a criação de um cinema brasiliense. Walter dirigiu Cazuza, O tempo não para e Raul Seixas: o princípio, o fim e o meio, entre outros. Nesta dupla entrevista, os manos, contam histórias e falam sobre a paixão pelo cinema e pela vida.

Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press


Vladimir Carvalho

O que representa o Festival de Brasília em sua vida?
Antes de terminar O país de São Saruê, fiz o documentário A bolandeira, no tempo em que eu era jornalista, e inscrevi no festival. Não conhecia Brasília e, realmente, achei a cidade esquisita. O fotógrafo Fernando Duarte me propôs um contrato de dois meses para filmar o Cerrado para a UnB. Topei, vim para ficar dois meses e já estou aqui 45 anos. E fiquei também porque o meu filme O país de São Saruê permaneceu interditado por 13 anos. Ficava mais perto para eu tentar liberar o filme e dar uma resposta à situação.

E como desvendou o lado bom de Brasília?
Foi fácil, descobri razões para continuar a fazer cinema. Vi uma outra Brasília, que não é a genial maquete de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, mas, sim, um periscópio de todo Brasil. Adotei temáticas brasilienses.Tenho uma trilogia. Conterrâneos velhos de guerra é o primeiro, desfoquei a visão epopeica de Juscelino e coloquei o foco em quem botou, literalmente, a mão na massa para construir Brasília. Mostrei que houve inclusive chacina de trabalhadores. Depois, fui em busca de elementos que expressavam uma agressão à nossa universidade, lugar sagrado de saber, com Barra 68. Em seguida, parti para o plano cultural, com Rock Brasília: A era de ouro, na transição da ditadura para o estado de direito, momento em que aparece a figura extraordinária de Renato Russo, capitaneando a geração de Capital Inicial, de Plebe Rude, de Escola de Escândalos, entre outros.

Algumas pessoas questionaram a sua incursão no rock. Como percebe essa visão?
Isso é uma bobagem. Vi o rock chegando ao Brasil. Vi o cinema Rex ser depredado no interior da paraíba com o filme Rock around the clock, que tinha a participação de Bill Haley e seus Cometas. Walter, meu irmão, era muito pequeno, saía para dançar rock, jogava as damas por baixo da perna. Minha mãe ficava preocupada, mas eu dizia a ela para permanecer tranquila. Tinha entendido aquilo, já tinha visto. Eu testemunhei o nascimento de Raul Seixas em Salvador, quando ele tinha o grupo Raulzito e seus panteras. O meu nome é Vladimir Carvalho Ferreira. Já houve um cara que escreveu, em uma apresentação de uma mostra minha, que eu era do bando de Lampião. Em O país de São Saruê, filme de 48 anos atrás, eu já utilizava rock. Ora, sou bacharel em filosofia, sou estudioso da cultura. Não sou o cabra da peste que querem me colocar na testa. Se for, sou um cangaceiro sofisticado.

Você foi colega de Caetano Veloso na Faculdade de Filosofia de Salvador nos anos 1960. Como era a convivência com ele?
O Caetano era aluno da faculdade na mesma sala, com Ubirajara Rebouças, pensador incrível, e Carlos Nélson Coutinho. Ainda não havia a revolução da Universidade de Brasília. Ainda era ensino pé duro das primeiras universidades brasileiras. Caetano chegava quase sempre meia hora antes de a aula terminar, com cadernos cheios de letras de canções. Mas, naquele tempo, a principal figura da nova geração era Tom Zé.

Qual a importância do Festival de Brasília do ponto de vista da criação de uma cultura cinematográfica ?
Brasília teve a sorte principalmente pela clarividência de Darcy Ribeiro, que trouxe Paulo Emílio Salles Gomes, em 1965, para criar o primeiro curso de cinema em uma universidade brasileira, desarticulado pela ditadura e rearticulado por mim e outros companheiros em 1969. Essa cidade foi presenteada com o espírito do cinema, não do projeto industrial, mas da visão cultural do cinema. Brasília tem um dos públicos mais exigentes do país, que vaia ou aplaude, com substrato.

Como é a história de que você conseguiu maconha para Glauber Rocha em Brasília?
O Glauber me procurou em casa, com Heitor Humberto de Andrade, primo dele. A gente se conhecia desde a Bahia. Ele me disse: “Vladimir, me ajude a conseguir uma erva”. Todos sabem que sou caretaço, virava a noite no Beirute tomando água mineral e me apelidaram de Boêmio Lindoia. Sou pilhado pela própria natureza, não preciso de aditivos. Eu ligava perguntando por maconha e ninguém acreditava. Eu dizia: “Sou eu mesmo,” E ninguém acreditava. Até que alguém conseguiu a erva para o Glauber.

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