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Para realizadores, festival deve ter polêmicas e alta temperatura

Debates ligados às questões sociais e até políticas do país devem estar presentes nos longas

postado em 20/09/2016 07:35 / atualizado em 20/09/2016 11:49

Ricardo Daehn

Filmes do Serro Ltda/Divulgacao
 

Longe dos panos quentes ou do “deixa disso”, o 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro nem começou, mas já tem cara: mescla o inconformismo com o tom de denúncia e ainda cerca a representação social de um cinema convulsivo. Fossem bebês, talvez os longas — pelas feições — teriam a cara de pais inquietos com o lado social do Brasil, como Nelson Pereira dos Santos e Sergio Bianchi, e de engajadas matriarcas do porte de Lucia Murat e Helena Ignez.

Com o pedigree de ativismo, os cineastas selecionados para a festa, que terá, na competitiva, nove longas e 12 curtas, arriscam os palpites em torno do evento. “Ele terá o componente do momento político que o país vive. Acredito que novamente Brasília manterá o papel de enfoque político, com transparências de posicionamentos”, acredita o diretor do curta Constelações, Maurílio Martins.

Na mesma linha de aposta, o gaúcho Davi Pretto (do longa Rifle) traça as linhas de um festival histórico, sem sombra de dúvidas. “Tem uma frase do futebol que diz a gente gosta de jogar na adversidade e, no festival, será meu caso. Gosto de jogar num ambiente de discussão. Com certeza não teremos um ambiente frio, de normalidade”, sublinha Pretto.

Integrante do Coletivo Urgente de Audiovisual, o diretor baiano Marcus Curvelo, que entrará na disputa pelos troféus Candango com o curta Ótimo amarelo, demonstra expectativa com a projeção no “maior” festival, pela visibilidade. Fundindo elementos documentais e de ficção, Ótimo amarelo bebe, assumidamente de influências de outro nome de peso para o festival: Adirley Queirós (de Branco sai, preto fica), investindo noutra frente política — de conteúdo. Amigo de Adirley, Thiago B. Mendonça (codiretor de Procura-se Ierenice) adianta que o curta, sobre esporte e ditadura, terá conjuntura única de projeção. “Estar nesse momento político em Brasília, falando sobre estruturas autoritárias será bem especial”, revela.

Made in Cuba
A futura exibição do documentário Vinte anos, de Alice de Andrade, pela temperatura das ruas, promete ser “polêmica e interessante”, nas palavras da diretora. “Meu filme não entra em nenhuma questão política; ele trata, na verdade, da vida de pessoas. Evidentemente, o momento atual, no qual Cuba se tornou quase um adjetivo, né: “Tipo, manda pra Cuba — devolve pra Cuba, pesará”, diverte-se a cineasta. Capitaneando a curadoria de seminários do evento, a professora da UnB Tânia Montoro atenta para os contornos múltiplos desta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, capaz de integrar questões inclusivas, ao dar relevância para fitas de realizadoras e dispensar atenção ao pertencimento de afrodescendentes e indígenas.

Representante do último grupo, o codiretor do longa Antes o tempo não acabava Sérgio Andrade enaltece, em Brasília, o público. “É aprimorado e lida com exigências políticas e de liberdade –— dados que tocam nosso filme. Acho que estar por aí vai ser ruidoso e incrível”, comenta o cineasta. Quebrar o estereótipo do indígena e as representações dentro do cinema, além de refletir em torno da condição do índio na nossa sociedade norteiam a produção amazonense, pelo que explica Fábio Baldo, parceiro de Andrade, na direção. “Testemunhamos, diariamente, o massacre de comunidades pelas mãos de fazendeiros em terras ainda não demarcadas pelo governo. Há uma luta constante contra essas forças de dominação que remontam um Brasil ainda em uma lógica colonialista”, analisa Baldo, desanimado com a negligência em relação às políticas públicas.

Dinheiro e trabalho
Enfronhada em questões sociais, com o curta Estado itinerante, a cineasta mineira Ana Carolina Soares examina o destino de uma cobradora de ônibus, na fita escalada para a competitiva. “Há a questão de gênero, que está muito forte nos festivais, sobre o lugar da mulher e de como vem sendo retratada no cinema. Além disso, trato dos direitos, de como as empresas de ônibus lidam com trabalhadores”, adianta a diretora, nascida em Belo Horizonte. Também da terra de Juscelino Kubitscheck, o cineasta e produtor Ricardo Alves Jr. chegará à capital com o longa Elon não acredita na morte e com inquietações legítimas para um dos debates em torno da dinâmica do mercado audiovisual.

“Tínhamos suporte, com um edital de produção, em Minas Gerais, o Filme Minas, mas ele foi abortado pelo governo do estado. Filmes dependem da junção das vontades federais e estaduais, na elaboração dos editais. Isso é que cria uma política vigorosa para a produção audiovisual. Estamos defasados, mesmo com resultados como o da representatividade do cinema mineiro, com dois longas na mostra competitiva, além de quatro curtas”, conclui.

 

Expectativa:

“Acho que todos vão se colocar, em relação ao que tem acontecido; provavelmente farão protesto”
Marcus Vinicius Vasconcelos, diretor do curta Quando os dias eram eternos

“Acho que os filmes refletirão esse momento de incertezas, acredito que vai ser um ano bem forte e único na história de festival”
Gustavo Vinagre, diretor de Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos, curta

“O tipo de cinema a ser celebrado está completamente mergulhado na vida política e social do país, como qualquer produção cultural que investiga esteticamente e reflete a realidade de seu tempo”
Fellipe Fernandes, diretor do curta O delírio é a redenção dos aflitos

“Brasília tem compromisso com os filmes instigantes mesmo. São produções que te jogam e te fazem pensar a realidade, questionando o que estamos vivendo, e calhou de o evento cair num momento culturalmente atrelado a saber o que as pessoas estão pensando. Fico muito curioso com o clima do festival”
Jimi Figueiredo, diretor de Malícia,  longa em competição

“O Festival de Brasília tem uma tradição de convidar realmente pessoas que participam do evento como um todo. Não trazemos personalidades para desfilar no tapete vermelho. Os convidados estão encaixados na programação do evento” 
Sérgio Fidalgo, coordenador geral do festival

 

Junior Aragão/Divulgação

Duas perguntas Guilherme Reis, secretário de Cultura do DF

Da criação da medalha Paulo Emílio Sales Gomes, a ser entregue para um “ator diferenciado” como o teórico e pesquisador Jean-Claude Bernardet, até aspectos inclusivos, como a representatividade de todas as regiões do país, em termos de produção — tudo anima o secretário de Cultura do DF, quando o assunto é o mais “permanente evento da cultura brasiliense”. A certeza de uma curadoria forte, sessões especiais (com convidados ilustres como Julio Bressane e Kleber Mendonça Filho), candência política e a relevância da Mostra Brasília (que terá competidores do porte de Vladimir Carvalho e Santiago Dellape) fazem parte do pacote de celebrações.

Que teor há nas questões políticas envolvem o Festival?
Acho que temos filmes que dão retrato bacana da produção contemporânea. Até mesmo em filmes escolhidos para as mostras paralelas Cinema Agora! e A Política no Mundo e o Mundo da Política, que poderiam perfeitamente estar na mostra competitiva. Amplia-se muito a visão do cinema atual. São novidades que reafirmam a competência da discussão política do cinema brasileiro. Tratamos de como o cinema enxerga a discussão política nacional. Isso é tradição, é uma das características do festival: ser um movimento politizado de discussão, e este ano, estará potencializado por tudo: pela situação política nacional, mundial. Mas o festival não é só isso, porém. O conceito da política não está tão focado na questão partidária, mas na política, de forma bem ampla. Desde a discussão da política de gêneros, muitas políticas estarão presentes no festival.

O que explica o sucesso da nova Mostra Brasília, mais robusta e toda concentrada no Cine Brasília?
Aqui, pelo segundo ano, o edital do FAC é feito em parceira com o Fundo Setorial da Ancine. Este ano, a Ancine entrará com R$ 9,5 milhões no montante total de R$ 21,9 milhões estabelecidos para o setor. O edital do Audiovisual do FAC, hoje, é o mais robusto fomento de estímulo à produção audiovisual, no Brasil. Foram 71 projetos beneficiados, em 16 linhas de apoio, longa, curta, pesquisa, mostra etc. Haverá injeção de quase R$ 22 milhões no audiovisual local, daqui para a frente. Tivemos ainda a novidade da seleção, no FAC, por meio de comissões convidadas, de pitching e da defesa oral dos projetos propostos. Isso qualifica todo o processo que traz resultados. Tivemos casos de Rosinha, melhor curta em Gramado. É conquista do investimento contínuo. Branco sai, preto fica também despontou.

 

 

 

 

 

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