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Documentário 'Martírio' conta a luta dos índios Guarani Kaiowá

Único filme da noite no festival, 'Martírio' foi dirigido pelo cineasta e pesquisador Vincent Carelli

postado em 22/09/2016 07:50 / atualizado em 22/09/2016 10:52

Alexandre de Paula - Especial para o Correio /

Video nas Aldeias/Divulgação
 
 
Vencedor do Festival de Gramado em 2009 com Corumbiara, Vincent Carelli começou a filmar Martírio (longa exibido no Cine Brasília hoje pela mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro) em 1988. O filme retrata o drama dos índios Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, e a luta para permanecer em seu território e promete esquentar o debate político e social no festival. “É o caso mais grave da nossa questão indígena, é urgentíssimo, uma vergonha, eu filmei de 1988 a 1999 e fiz a série Índios do Brasil. Fiquei muito tempo sem ir e volto só 15 anos depois, quando a matança começa a ficar demais”, conta o diretor.

Martírio é a segunda parte de uma trilogia de Vincent Carelli sobre a questão indígena. “Começa com Corumbiara. Eles têm muitas coisas em comum, os dois fazem parte de uma trilogia de filmes que fazem um balanço da experiência indigenista. São casos emblemáticos da política indigenista brasileira, do drama dos índios. Martírio é o genocídio contemporâneo, feito com os índios de 400 anos”, explica.



A trilogia, conta Vincent, será encerrada com Adeus, capitão. “Mas aí já é uma história diferente. São casos que acompanhei desde a década de 1960. São índios que ficaram milionários, entre aspas, né? Porque nem se compara com esses grandes milionários, mas índios que conseguiram ganhar dinheiro”, revela.

Financiado por crowdfunding, Martírio foi finalizado em um momento que a questão do povo Guarani Kaiowá ganhou muito destaque nas redes sociais. “Em 2011, eu me joguei nessa aventura sem nenhum tostão. Fizemos duas temporadas só com o dinheiro do bolso. Aí, demandou muita pesquisa e nós tivemos que apelar para o crowdfunding”, conta.

Para Vincent, nesse caso, o crowdfunding vai além de apenas arrecadar dinheiro para produção, mas cria uma rede de pessoas interessadas na questão. “Tem essa dimensão de dar uma força na parte financeira, mas também função de criar uma rede de pessoas, 990 pessoas deram algum recurso. É uma rede de quase mil pessoas que são difusores potenciais desse filme que tem função política, social, humanitária”, aponta.

O diretor acredita que a grande contribuição do filme é apresentar a gênese desse conflito, que remonta ao século 19 e à Guerra do Paraguai e passa por todo o contexto histórico do país até agora. “Ao longo desses 100 anos, o processo de exclusão e omissão em relação aos Guarani é contínuo.” 

Durante a produção do filme, Carelli  descobriu que há uma farta documentação sobre o conflito. “Há muitos documentos oficiais que registram esse processo e é preciso trazer tudo isso à tona. O filme é feito para a militância, para a parcela civil que se incomoda”, conclui.

Carelli acredita que há no Brasil uma desvalorização e uma visão de que os povos indígenas representam atraso. “Como se os índios fossem um passado da humanidade já superado e que portanto não merecem nenhum interesse. No mundo, isso está mudando porque há uma valorização dos povos indígenas e nativos”, acredita. “Mas no Brasil, pelo menos para parte da elite, fica esse complexo de vira-lata, de renegar os índios, como algo atrasado, superado, quando eles são, na verdade, uma das grandes riquezas deste país”, completa.

O esquecimento da história indígena e a falta de reconhecimento da cultura e da tradição desses povos trazem também prejuízos para toda a sociedade, acredita o diretor. “O cinema tem sido fundamental para eles e para nós, porque quem perde com esse desconhecimento é o Brasil, é a gente.”

Três perguntas / Vincent Carelli

Você faz um trabalho com a ONG Vídeo nas Aldeias, que  promove a relação entre esses povos e o filme, o cinema. 
Como eles se relacionam com isso, qual a reação deles ao descobrir o cinema?
É uma relação fundamental. A descoberta do cinema é uma forma de autoconhecimento para novas gerações (que tem os olhos mais para fora do que para dentro), de saber da sua memória, do seu patrimônio, sua cultura. Também é um esforço para que sejam reconhecidos, não como índio, essa coisa genérica, mas como povos que têm nomes, que têm línguas e tradições específicas. O cinema tem sido fundamental para eles e para nós, porque quem perde com esse desconhecimento é o Brasil, é a gente.

Os Guarani Kaiowá geraram um movimento muito forte nas redes. O filme teve alguma relação com isso?
Hoje em dia, se você quiser saber o que acontece nos mundos dos índios, você não vai ler jornais, você vai para o Facebook, para os blogs, toda a informação rola por aí. O mídia-ativismo deles é fundamental para se manterem vivos, cada vez mais eles próprios estão filmando e botando na rede a violência que acontece. Para o filme, nós pescamos muita coisa na internet, dos dois lados.

O fato de você ter mais de 40 anos como indigenista faz diferença para produzir filmes como os seus e conquistar a confiança deles?
Faz uma diferença radical. Em Martírio, eu fui levado ao Mato Grosso por pessoas que trabalharam 30 anos com os Guarani. Bem acompanhado também funciona para criar um laço de confiança. Mas tudo isso são relações que se constroem ao longo de anos. A postura também faz diferença. Até ao visitar um grupo que não me conhece, eles são capazes de captar muito rapidamente quem você é, pelos gestos, pela atitude, pelo seu jeito de comer com eles (que é o grande teste). Eles percebem rápido que você tem uma intimidade e um carinho pela cultura deles.

Martírio
Integra a mostra competitiva. Hoje, no Cine Brasília às 21h. 160 min. De Vincent Carelli. Documentário, de Pernambuco. Não recomendado para menores de 14 anos.

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