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Filmes da mostra competitiva trazem retratos paralelos de países em crise

Uma produção ambientada em Cuba e outra, feita em Brasília, formam a dupla de longas da mostra competitiva, são os filmes 'Vinte anos' e 'Malícia'

postado em 25/09/2016 07:30 / atualizado em 24/09/2016 21:44

Ricardo Daehn

 

O lastro de um país do porte de Cuba, com histórico de convulsões, rima com a exibição do longa Vinte anos, fita criada por Alice de Andrade que será exibida hoje, na quinta noite de competição. Vinte anos traz promessa de apaziguar o clima quente desta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. “É um filme de amor, de vida e de abertura, que revela simplicidade. É uma espécie de Boyhood cubano: segue pessoas que eu filmei, 20 anos antes, e que tive vontade de continuar filmando. Quis mostrar a vida como realmente é em Cuba, um país que é sinônimo de celeumas e paixões”, sublinha a diretora.

O documentário encerra um caráter de missão, como explica a cineasta. “O projeto que estava em mim, desde que terminei meu primeiro curta. É um desdobramento do meu primeiro trabalho em cinema: o curta Luna de miel, feito em 1992, quando terminava estudos na Escola de San Antonio de Los Baños”, conta. Depois do esforço em Memória cubana (sobre cinejornais cubanos), a diretora adianta que Vinte anos vai derivar em série televisiva, com uso de mais material inédito.



Enquanto fazia Luna de miel, Alice vislumbrava trâmites de matrimônios com rituais contraditórios, na antiga Cuba. “Era simbólico ver o confronto da moral socialista com ideais de consumo burgueses. Parecia aquele programa de O céu é o limite, com cubanos selecionados para o acesso aos estabelecimentos turísticos nos quais, regularmente, tinham a entrada vetada. Com subvenção do governo, eles tomavam parte, até o casamento, de uma verdadeira gincana, pela possibilidade de apoio do governo. No filme, me apegava a essas contradições”, relembra.

Alice fez valer o maior aprendizado com o ilustre pai Joaquim Pedro de Andrade (celebrado por fitas como Macunaíma): “Ele sempre zelou pela entrega às coisas que realmente o movessem. Tenho essa sinceridade com os pedidos do meu ser”. Vinte anos demandou o exame de “camadas” de um gigantesco volume de material filmado, conservado em arquivo e, digitalizado, pela diretora. Ao custo de 190 mil euros, o longa demandou montagem e pós-produção para “uma brutalidade de material administrado por equipe muito reduzida”.

Estagnação?

Pessoas do povo, como a dona de casa Mírian, o chefe de obras Andrés, a camareira Sílvia, o ex-motorista Danilo, o erveiro Mario e a dona de casa Marlene, assentam a trama de Vinte anos, que, por ponte cultural, dialoga muito com o Brasil, na visão de Alice. Em 1992, na elaboração de Luna de miel, Cuba enfrentava um primeiro maremoto de mudanças. “Ainda sob o impacto da queda do Muro de Berlim e da dissolução da União Soviética, caíam bases que subvencionavam todo um sucesso nacional artificial, com a medicina de ponta e a altíssima tecnologia. Lá, filmei pessoas apaixonadas, e que se casavam naquele momento”, explica, em referência à prévia de Vinte anos. Na nova trama, há projeção de imagens na casa dos personagens, com hiato de duas décadas. “Nisso, há o confronto de propósitos com relação aos desejos anteriores deles”, adianta Alice de Andrade. Durante quase seis anos, um acompanhamento semestral da dinâmica dos casais do filme absorveu Alice.

O esforço de produção, claro, não se limitou à diretora, alcançando montadoras como Idê Lacreta e Juliana Collier, entre outros. “Trabalho junto a pessoas com as quais tenho afinidade”, diz. Ligada “à aventura da revolução cubana”, Alice de Andrade já teve parceiros invejáveis, como o mestre da iconografia de Che Guevara, Alberto Korda, criador do perene retrato Guerrillero Heroico. Entre influências híbridas de cinema, Alice tem admiração por cineastas como Fernando Pérez (de Suite Habana), Fernando Tomás Gutiérrez Alea (codiretor de Morango e chocolate), amigo a quem dedicou Luna de miel, André Téchiné e Manoel de Oliveira. Cinema de caldeirão indefinido, tal qual o resultado, com o roteiro de Vinte anos: “Não prevemos nada e seguimos vidas (de personagens)”.

Teia de sentimentos e trapaças

“Claro que fiquei surpreso. Vai mentir quem disser que não ficou, pela seleção em Brasília, com exceção do Julio Bressane e do Claudio Assis”, brinca, aos risos, o diretor paraibano Jimi Figueiredo, ao falar dos colegas com filmografia sempre representativa dentro do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Defendendo Malícia, longa na mostra competitiva, Jimi traz colorido local ao Cine Brasília, na cidade em que mora desde 1968. O filme dele trata de corrupção, mas não se detém apenas ao tema. “É uma fita mais sobre hipocrisia — algo muito presente no ser humano. Sofremos com uma hipocrisia geral, que segue para todos os lados. A gente não argumenta mais; não conceitua mais nada. A discussão está se perdendo, em favor de argumentos muito baratos”, comenta o diretor de Jogo da memória (2014) e Cru (2011).

Em Malícia, persiste uma situação paralela ao enredo central, capaz de causar estranhamento frente ao que seja convencional. Por razões evidentes, não há quem arranque uma palavra do diretor do longa. “Posso dizer que é um thriller sobre um dono de restaurante que quer limpar as dívidas, por meio de pagamento de propina. O filme conversa com a realidade na qual há um jogo de atores: ninguém quer viver a verdade para não se comprometer com nada. Tá faltando sinceridade no mundo de hoje”, analisa o diretor. Na trama, Luciano (João Baldasserini), o endividado dono de restaurante, tem sido observado por Raul (Sérgio Sartório), sem ter noção disso.

Clara (Vivianne Pasmanter), mulher de Luciano, apesar de não depositar extrema confiança no casamento, faz muito para sustentar uma relação em que ela mesma não bota fé. Na criação do clima de Malícia, Jimi Figueiredo conta que apostou na música instrumental de Jorge Brasil. Sonoridade, por sinal, é coisa que o diretor leva a sério. Relembrando a época em que integrava a banda Mata Hari, Figueiredo consegue associar Malícia ao imaginário elaborado pelo amigo Renato Russo, em que prevalecia a visão de uma cidade repleta de solidão.

“O Renato falava muito disso nas letras dele. Conhecia Renato e o Fê Lemos, do período do Aborto Elétrico, na UnB. Apesar da música em comum, nossa paixão pelo cinema e particularmente pelos filmes do Michelangelo Antonioni foi o que nos uniu”, observa. Dentre as ideias compartilhadas com Renato, a solidão fala alto em Malícia. Raul é personagem que sente o mundo virtualmente, por não conseguir se descolar da fixação como voyeur. “Ele não consegue se satisfazer com o real”, sublinha o diretor. Ao custo de R$ 800 mil, com apoio do Fundo de Apoio à Cultura, Malícia tem no elenco Marisol Ribeiro, Rosana Viegas, Alexandre Ribondi e Murilo Grossi.

Vinte anos e Malícia
Longas a serem exibidos na competitiva do Cine Brasília (EQS 106/107): Vinte anos, de Alice de Andrade, documentário produzido pelo Rio de Janeiro e Costa Rica (Classificação indicativa livre, 80min) e Malícia, de Jimi Figueiredo, ficção brasiliense (Não recomendado para menores de 14 anos).

 

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