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Ficção e realidade: Jovem índio vive conflito entre a tradição do povo e a vida contemporânea

Exibido no sábado (24), 'Antes o tempo não acabava' ainda aborda homossexualidade indígena

postado em 25/09/2016 18:28 / atualizado em 25/09/2016 19:14

Ricardo Daehn

Com mais de 250 etnias indígenas espalhadas pelo país, fica difícil estabelecer certezas, na generalização das culturas. Contanto, há ao menos uma certeza: não é cotidiana e corriqueira a adesão a relações homossexuais, quando se observam aldeias. "Sempre existiu a homossexualidade, e entre índios também. Há um pouco de tabu entre eles. E foi proposital trocar nessa ousadia, com o filme", comenta a preparadora de elenco do longa amazonense Antes o tempo não acabava, Rita Carelli.
 
Rio Taruma Filmes e 3 Moinhos Produções/Divulgação

Filha do cineasta Vincent Carelli (que compete com o documentário Martírio), Rita conhece rituais e encenações ligadas a índios. No desdobramento da preparação dos atores, não-atores, na verdade, saídos de aldeias, ela observou tópicos fundamentais que dão liga aos personagens indígenas: "ética, identidade e códigos ligados ao repertório corporal dos atores". Apegados à disciplina, os atores saíram de circuitos artísticos performáticos, anteriores ao filme. No misto do retrato periférico manauara, cercou-se tarianos, tikunas, saterés-mawé, baniwas e tucanos.

"Cada tribo se organiza num planejamento social diferente. Alguns são mais aculturados e têm vivências urbanas. Levam isso para a aldeia, como comprova a necessidade de programas instalados para a erradicação da Aids, por exemplo, com distribuição de camisinhas", observa o codiretor de Antes o tempo não acabava Sérgio Andrade.
 
Em entrevista ao Correio, o cineasta explicou curioso dado da escolha da trilha sonora do longa que ajudou a compor. "Incluímos músicas que pesquisei no museu etnográfico de Berlim, lá havia gravações feitas na Amazônia de 1908, com índios autênticos. Fui lançar meu filme anterior, A floresta de Jonathas, e, na Alemanha, tive contato com as músicas", disse Andrade.
 
No palco, crítica política
 
Arte e política estiveram de mãos dadas, em discurso do codiretor Fábio Baldo, de Antes o tempo não acabava: “juntas, são forças capazes de gerar reflexão e de fomentar mudança”, disse, no palco do Cine Brasília. “Este golpe que sofremos é um ataque devastador não apenas na nossa democracia, mas em todas as conquistas sociais e avanços que tangem o empoderamento das minorias”, complementou.

Índios, negros, mulheres, gays, lésbicas, travestis, transexuais foram citados, com destaque, no discurso. “Lutemos juntos. Questionemos tudo o que parece fora do lugar. Não é da essência humana o retrocesso, a liberdade é um caminho sem volta”, arrematou. 
 
O filme 
 
Antes o tempo não acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, foi exibido na mostra competitiva na noite de sábado (24), e reprisado na tarde deste domingo (25). 
 
Na fita, Anderson é um jovem indígena em conflito com os líderes de sua comunidade, localizada na periferia de Manaus. As tradições mantidas por seu povo parecem anacrônicas em relação à vida contemporânea que leva. Em busca de autoafirmação, Anderson abandona a comunidade para viver sozinho no centro da cidade, onde experimenta novos sentimentos e enfrenta outros desafios. No entanto, o Velho Pajé planeja trazê-lo de volta para mais um ritual.  
 
 
49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Até 28 de setembro, no Cine Brasília (106/107 Sul). Entrada franca, exceto nas sessões das mostras competitivas, com ingressos a R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia). Verifique a classificação indicativa de cada filme. 

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