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Julio Bressane apresenta o poético longa-metragem, 'Beduíno'

A demora de quase uma década para concluir o longa se deve ao tempo dedicado, principalmente, à leitura

postado em 26/09/2016 07:30 / atualizado em 25/09/2016 20:58

Nahima Maciel

Paulo de Araujo/CB/D.A Press

Julio Bressane levou 14 anos para concluir Beduíno, longa que apresenta hoje em sessão especial do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileira. O diretor atendeu a um convite do curador do evento, Eduardo Valente, e selou uma tradição. Bressane tem extenso histórico no festival: por aqui, ganhou o prêmio de melhor filme com Tabu (1982), Miramar (1997), Filme de amor (2003) e Cleópatra (2007). Agora, ele está de volta, mas fora da mostra competitiva. O diretor carioca conta que nem pensou em inscrever o filme. Já estava satisfeito com a recepção de Beduíno no Festival de Locarno (Suíça), mas topou o convite.

Bressane, 70 anos, não é diretor de filmes de histórias. Ou pelo menos, “histórias cursivas”. Quando fala sobre seus longas, ele gosta de pedir ao público que tenha paciência e encare a obra como algo a ser contemplado. Em Beduíno, um casal representa a si mesmo. Fernando Eiras e Alessandra Negrini, dupla frequente nos trabalhos de Bressane, encenam uma intimidade pautada por referências literárias que custaram muitas leituras e traduções ao diretor.



Parte dos 14 anos foram dedicados a uma minuciosa pesquisa de palavras e textos considerados por Bressane quase personagens do filme. “É uma espécie de evocação, de ode à ficção. É uma realidade mais abrangente, uma realidade que inclui o sonho, inclui toda a memória, a música, a poesia, a literatura. É uma experiência do real, mas um real abrangente, não apenas esse real de noticiário, é um sentimento da realidade. O filme não tem um historinha, ele é uma evocação ao sonho e a essa liberdade do sonho”, avisa o diretor.

A demora de quase uma década para concluir o longa se deve ao tempo dedicado, principalmente, à leitura. Muito de Beduíno vem de imagens literárias que Bressane pescou em livros. “Isso demorou muito porque fiz uma leitura que toma muito tempo de traduções da língua portuguesa, autores que tive que buscar para citar uma frase, uma palavra. Toda imagem está ligada a uma chave linguística”, explica. Não houve uma sistemática específica para a coleta desse material. A curiosidade do diretor foi o guia mais importante.

Imagem

O trabalho com Eiras e Alessandra, assim como a ideia de uma experiência onírica, são pontos comuns nos filmes de Bressane. Eiras está em Filme de amor, O mandarim e Dias de Nietzsche em Turim. Alessandra, em Cleópatra, A erva do rato e Cleópatra. “São dois grandes atores. Trabalho com eles porque sempre se interessaram pelos papéis que convidei para fazer. O ator, num filme, faz parte da imagem. Eles criam o filme comigo. São atores de muito talento e muita experiência e sempre surpreendentes na maneira como sentem as coisas, como são capazes de transmitir na inflexão da voz, no gesto”, descreve Bressane. Beduíno é uma obra coletiva mas é, sobretudo, um filme de invenção. “Cada filme meu é uma invenção de produção. Eu invento uma produção para poder fazer o filme da maneira que eu quero.”

E por ser invenção, o diretor nem sempre sabe ao certo como será o resultado final. Se soubesse, Bressane brinca, nem começaria a filmar. O longa não procura dirigir nem influenciar o espectador para nenhum lado. É, na definição do diretor, um convite à aventura da montagem entendida como a sensibilidade e o pensamento. Bressane sugere que o espectador se arme de certa distância para compreender Beduíno e mergulhar na narrativa. O cinema, ele acredita, vive há algum tempo um processo de mediocrização e sofre da doença da repetição. “Hoje o que há é apenas uma repetição de coisas que possam eventualmente despertar a pessoa com os sentidos mais primitivos”, lamenta o diretor, que conversou com o Correio por telefone, do Rio de Janeiro.


TRÊS PERGUNTAS PARA
Julio Bressane

Há cada vez menos espaço para filmes como o seu no mundo hoje?

Sem dúvida. Vivemos um momento de mediocrização, é um momento médio, medíocre. Hoje o que há é apenas uma repetição de coisas que possam, eventualmente, despertar a pessoa com os sentidos mais primitivos. Há uma força maior que se substituiu ao prazer e ao desfrute das pessoas que é o salário. Hoje se briga, se luta, se trabalha, se ocupa pelo salário. O salário é uma espécie de nova escravidão. Com a vitória absoluta da civilização do trabalho, não há mais tempo ocioso, não há mais irresponsabilidade criativa. E a arte é uma coisa exigente, você precisa preparar essa sensibilidade para desfrutar essa forma mais sofisticada de existência, essa forma mais simbólica. Você precisa de um tempo ocioso para se dedicar a isso. E esse tempo ocioso está desaparecido. A reflexão existe e continuará existindo sempre. Agora, é um público mais limitado que ainda pode desfrutar isso.

O que ainda te motiva continuar a fazer cinema num mundo, como você diz, de compreensão limitada?
O que me motiva é a necessidade. Faço cinema por necessidade. Por isso não sei o que é o filme até que faça o filme. Se soubesse o que é o filme, não faria. Faço o filme para saber o que ele é. Eu tenho uma atenção muito concentrada nessa exigência do cinema. O cinema é um instrumento radical de transformação. Sobretudo de autotransformação. É um organismo intelectual que atravessa as disciplinas, as artes, a ciência, a vida. Então, para estar ciente do cinema, precisa de um esforço. É na travessia dessas disciplinas que o cinema se faz. Isso para o cinema no qual estou interessado. Existem outras maneiras e outros gostos de cinema.

Você acha que seus filmes encontram uma acolhida melhor em festivais?

De maneira geral, não. Mas tive alguma sorte com alguns festivais na Europa. Em Cannes, fui bem recebido com Filme de amor. No Festival de Locarno, os últimos três filmes que fiz foram bem recebidos. Mas, de maneira geral, não, meus filmes não são bem recebidos em festivais.

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