publicidade

Deserto, de Guilherme Weber, marca a estreia do ator na direção cinematográfica

O longa encerra a mostra competitiva do festival

postado em 26/09/2016 07:31 / atualizado em 25/09/2016 20:58

Diego Ponce de Leon /-

Bananeira Filmes/Divulgacao


Antes de ser tomado pelo palco, o próprio Guilherme Weber assume que nasceu cinéfilo. Embora a relação com o cinema venha de berço, foi o teatro que o abarcou inicialmente. Hoje, depois de consolidar uma sólida carreira como ator e diretor teatral, Weber estreia na direção cinematográfica. E coube ao público do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro a oportunidade de conferir essa empreitada inédita do artista, conhecido pelos personagens dos palcos e das telas. Deserto desembarca com a responsabilidade de encerrar a mostra competitiva do evento, que contou com nove longas na disputa.

Protagonizado pelo cânone Lima Duarte, o filme retrata a saga de uma trupe de artistas que vagueia e se apresenta pelo sertão nordestino. Eventualmente, e tomados pelo cansaço, os mambembes esbarram com um vilarejo abandonado e o tornam sede de uma nova comunidade. Ali, passam a desempenhar papéis diferentes daqueles exercidos no decorrer da vida e acabam por defrontar a ordinariedade da vida civil.



“A grande motivação para o trabalho foi uma sentença, que não me lembro onde li e nunca descobri o autor: ‘A história de um grupo é sempre a história do mundo’”, afirma Weber, em entrevista ao Correio. Na conversa, ele disseca as camadas dessa estreia, revê a trajetória artística e evoca o afeto que nutre pelo Festival de Brasília.

Bananeira Filmes/Divulgacao


>> entrevista Guilherme Weber

A pergunta clássica: o que o levou a se aventurar como diretor de cinema pela primeira vez?
O cinema sempre foi minha paixão primeira. E é um amor que vem de família. O tio-avô da minha mãe era câmera da Metro, o favorito de Esther Williams para os números subaquáticos. Minha mãe passou a infância em Los Angeles, brincou em alguns sets míticos e reuniu um álbum de fotos e autógrafos sensacional. Quando o descobri, aos 10 anos, foi como se descobrisse um novo mundo, de santos de celuloide. Ganhei o álbum de presente, depois veio a coleção de revistas do meu pai, A cena muda. Comecei a frequentar os cineclubes com ele, antológicas programações de Aramis Millarch e Valêncio Xavier. E assim seguiu minha educação sentimental cinéfila, dessa maneira bem romântica.

Mas foi o teatro o primeiro a te fisgar?
O teatro veio me salvar da minha primeira decepção, a dificuldade, quase impossibilidade de fazer cinema no Paraná e a minha ansiedade de garoto. Depois comecei a fazer filmes como ator, mas queria mais, a criação de um universo total, a transformação da ideia individual em processo coletivo. Mas não foi uma decisão arquitetada, apesar da vontade. Quando li o romance de David Toscana, Santa Maria do circo, em que Deserto é livremente inspirado, foi uma espécie de febre inicial, e muitos temas vieram a partir daquela leitura. Percebi que não podia ser uma peça, que a maneira alegórica que eu queria trabalhar não encontraria concretude no palco, seria símbolo sobre símbolo e que precisava de forte realismo, realismo absoluto na encenação, a presença da natureza das locações. E entendi então que teria que ser um filme.

Em que aspectos a direção cinematográfica se difere da cênica?
Nossa, isso é assunto para livros inteiros (risos). São diferentes maneiras de trabalhar o realismo e símbolos. E especial e essencialmente diferentes maneiras de apreender o tempo. O cinema existe de maneira fundante para manipular o tempo. O título do belíssimo livro do Tarkovski eleva esse conceito ao status de poesia: Esculpir o tempo! Já o teatro lida com o tempo de maneira bastante diferente, o condensa de maneira diferente e zomba dele para começar tudo novamente na noite seguinte. É efêmero, não só porque dura pouco, mas porque muda a cada dia. E também o trabalho junto aos atores. Eu particularmente sou fascinado pelo poder de um rosto em primeiríssimo plano. A dramaturgia dos rostos, de sua musculatura!

O seu trabalho como ator também sempre mereceu atenção. Como foi o trabalho com o elenco em Deserto?
Primeiro o conceito para a escalação. Acredito mesmo que o trabalho do diretor em relação aos atores começa com a escolha deles. Aqui queria, primeiro, um herói do nosso cinema para liderar esta trupe. Lima Duarte, que sempre foi um dos meus atores favoritos, foi a escolha imediata. Escutava sua voz de Netuno a cada palavra que eu escrevia. Depois queria que esta trupe fosse uma representação em microescala do Brasil. Então escolhi atores de diferentes regiões do país, pedindo que conservassem seus sotaques. Mineiro, curitibano, carioca, paulista, paraibano, são alguns dos sotaques que compõem a polifonia do filme. Os atores são os guardiões da língua e o cinema tem a tendência de passar por cima disso com o grosseiro rolo compressor de uma ideia errada de naturalismo. Deserto é uma homenagem aos atores, esses seres delicados e fortes que dedicam suas vidas a transformar corpo e verbo em ideias!

Logo de cara, esbarrou com um Lima Duarte. Como se deu essa troca?
Seria muita sorte se tivesse “esbarrado” com Lima Duarte (risos). Foi uma relação conquistada em muitos anos e em diferentes trabalhos. Lima Duarte chegou no set do meu primeiro filme para fazer o seu quinquagésimo, com a vitalidade e o entusiasmo de um menino. Foi líder de elenco e ator generoso se deixando dirigir, enfrentando o calor, os insetos, para criar um universo novo. Embarcar em mais uma grande aventura, como ele mesmo definiu.

Você já foi dirigido no cinema por grandes nomes do cinema como Bressane e Babenco. Houve influência desses diretores no seu trabalho?
Sim, muita. São dois grandes mestres, e eu sou a soma das minhas influências. De Bressane, sempre me impressionou a imensa liberdade que ele concede a si mesmo. Além do gigantesco talento, é preciso muita coragem para conseguir se dar tamanho presente. Um homem que decide contar em um filme brasileiro a vida de uma rainha egípcia através de narrativas líricas é de uma liberdade e erudição arrebatadoras. Babenco, o cineasta do humano, humano, demasiado humano. O impacto de Pixote na minha vida e na minha memória de cinéfilo ecoa até hoje. Eu dizia sempre para ele: “Porra, teve que vir um argentino para me apresentar o Brasil?” (risos).

Você já esteve no Festival de Brasília outras vezes, fosse nas telas, fosse como espectador. Qual a sua relação com o festival?
O Festival de Brasília sempre foi forte na minha imaginação de cinéfilo. Escutava ecos de um cinema acontecendo distante de mim, garoto morando em Curitiba. Depois, o frequentando, a certeza de sua capacidade e profundidade em discutir o cinema e o país. É altamente simbólico. Muito se diz que Brasília é uma utopia fracassada. O Festival de Cinema minimiza essa triste sentença. Começar a trajetória do Deserto em Brasília me enche de orgulho. Não poderia haver lugar melhor. A curadoria deste ano, capitaneada pelo Eduardo Valente, criou, com suas escolhas, um belíssimo e delicado painel sobre o Brasil. Ter meu filme selecionado para este festival é a afirmação da possibilidade do meu novo ofício, conquistado com muita dificuldade e através de muita paixão.

O enredo do filme fala em artistas que se deram papéis diferentes daqueles que exerceram por toda a vida. Se tivesse a mesma chance, que papel se daria?
No Deserto, eles escolhem os arquétipos sociais, em movimento de recusa da arte e de seus próprios ofícios. Eu não conseguiria ter a ilusão da ruptura das primeiras paixões. Então, se eu pudesse ou tivesse que viver a grande aventura de ser outro, gostaria de ser o Angeli. Ou a Elza Soares.

Deserto
Hoje, às 21h30, no Cine Brasília. 100 minutos. De Guilherme Weber.
Não recomendado para menores de 14 anos.

Curta do dia
Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos. 22 minutos. De Gustavo Vinagre. Ficção, de São Paulo. Classificação livre.

Últimas Notícias

Últimas Notícias Veja Mais

* * *