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Diversidade estética e o caráter político marcam o festival de cinema

A edição confirma uma geração de diretores de grande qualidade

postado em 27/09/2016 07:30 / atualizado em 27/09/2016 10:59

Ricardo Daehn

Vídeo nas aldeias/Divulgação
 

Os prognósticos para a premiação do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro são possíveis, e apressados — já que, até o fechamento da edição, o nono longa da competitiva, Deserto, permanecia inédito. Em blocos, os filmes versaram sobre a busca por identidade (Antes o tempo não acabava), realocação de espaço transformando ou consumindo indivíduos (A cidade onde envelheço, Martírio, Vinte anos e Rifle) e chacoalhar de estruturas psicológicas e sociais (Elon não acredita na morte, Deserto, O último trago e Malícia).

A amostragem do recorte proporcionado pela nova curadoria de Eduardo Valente foi vista quase na totalidade e apontou um norte: o festival mudou. Mudou no público — menos ativo, frente aos filmes — talvez mais maduro; e mudou na programação: mais completa, diversificada, mas com sessões muito tardias, a maioria às 21h30. O painel dos filmes selecionados pela disputa dos troféus Candango se revelou quase coeso na qualidade e na proposta, com direito a duas fitas fora do esquadro, no caso de O último trago e Malícia.

Político, por excelência, o festival — no tumultuado cenário brasileiro atual — confirmou um pulso ativo da classe artística contra o atual governo. “Cinema contra o golpe” foi a conclamação inserida (por escrito), antes da maioria das projeções, e “Fora Temer”, multiplicado em camisetas dos realizadores e nos discursos, recorrentes no palco do Cine Brasília, são os lemas que, desde já, se afirmam como marcas da 49ª edição do evento. Um evento pulsante com Cine Brasília sempre lotado e que antevê a grande festa de 50 anos do mais tradicional festival do país em 2017.

 

Rio Taruma Filmes e 3 Moinhos Produções/Divulgação



As apostasMelhor filme
Num ano estritamente político, não há como fazer vistas grossas a tema com calibre de chumbo, quando há situação de desleixo e preconceito que putrefaz a relação entre sociedade e governo. Se não por solidariedade, ao menos por identificação: o homem branco, atualmente apartado da democracia, se vê representado na penúria dos irmãos índios. Faz-se urgente premiar Antes o tempo não acabava ou Martírio.


Direção
É um festival de excluídos, daí o viço das obras de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, codiretores de Antes o tempo não acabava (dono de ponte eloquente criada entre aldeias e o mundo contemporâneo). Vincent Carelli, de Martírio, a exemplo de Alice de Andrade (Vinte anos), tem encerrado na obra apresentada um material estruturado com afeto, e curtido por anos, num alcance de intimidade único com a temática. Também retratando minoria, os expurgados de improdutivas terras do Sul, o diretor Davi Pretto (de Rifle) tem um filme forte nas mãos.


Ator
Quem já assistiu ao filme Deserto (inédito no Brasil) diz que Lima Duarte está sensacional. Dominando cada fotograma de Elon não acredita na morte, o brasiliense Rômulo Braga está no páreo, em que dois outros atores vivenciam tipos muito próximos do próprio cotidiano, e também apresentaram interpretações dignas de prêmio Candango: o índio Anderson Tikuna e, em cena, o introvertido e violento gaúcho Dione Ávila de Oliveira.


Atriz
Quase imbatível, dada a leveza e graça em cena, e a falta de concorrência nos outros filmes, Elizabete Francisca (A cidade onde envelheço) deve levar o prêmio Candango que talvez traga, num exagero, a parceira de filme Francisca Manuel, na carona. Vale o reforço de que Deserto ainda não foi visto (até o fechamento do texto).


Ator coadjuvante
Poucas vezes, um gaúcho interiorano teve, no cinema, a representação proposta por Francisco Fabrício Dutra 
dos Santos, visto como sombra assustadora em Rifle.


Atriz coadjuvante
Talvez um prêmio honesto para Malícia fosse o de se render à autenticidade de Laura Teles Figueiredo, intérprete de uma participativa adolescente, na trama que integra o thriller de Jimi Figueiredo. Kay Sara, uma índia sofrida, que passa até por luto, em Antes o tempo não acabava, seria outra escolha acertada para atriz coadjuvante.


Roteiro
Arejar um ranço secular e propor contemporaneidade para a representação de índio foi mérito forte de Sérgio Andrade, em Antes o tempo não acabava. Curiosamente, nesta categoria, dois documentários chamaram a atenção — numa linha “a vida engole a construção da arte” —, sob os roteiros de Alice de Andrade (Vinte anos) e Vincent Carelli e Tita (Martírio).


Fotografia
Na construção de clima opressor de Elon não acredita na morte, a direção de fotografia de Matheus Rocha ressalta o peso da prévia de um surto, com enorme talento. Quem também sobressaiu, nesta edição, foi Ivo Lopes Araújo, num belo registro de tempo estagnado — ligado, imageticamente, a passado — que faz milagre, em O último trago. Já Glauco Firpo dá a dimensão rala, frente aos campos a perder de vista, do 
protagonista de Rifle.


Direção de arte
O Candango da categoria tem amplas chances de ficar entre Diogo Hayashi (de Elon não acredita na morte), pelo despojamento e pelo realismo elaborados no longa de Ricardo Alves Jr., e Lia Damasceno e Thais de Campos, guerreiras que bem definiram o tempo inexato, com moldura à la realizações nacionais oitentistas, em O último trago.


Trilha sonora
Em Vinte anos, o trabalho musical de Pedro Cintra, dá uma camada de alegria ao cenário, à primeira vista, estagnado. Mas seria igualmente justo dar prêmio à ousadia multicolor das escolhas de Fábio Baldo e Sérgio de Andrade, em Antes o tempo não acabava, filme que disputa, cabeça a cabeça, o melhor som com o concorrente Elon.


Montagem
Condensar a polifonia de um discurso de décadas de injustiça num filme com mais de duas horas e meia, registrar descanso e tédio, quebrados à força, nos pampas, ou condensar um estado mental de desamparo, num longa denso. Respectivamente, por cada proposta, Martírio (com montagem de Tita), Rifle (Bruno Carboni) e Elon (Michael Wahrmann e Frederico Benevides) seriam boas escolhas dos jurados.

 


Depoimento

A mostra que mostra Brasília!


» José Carlos Vieira
A Mostra Brasília é um Festival — isso mesmo, com letra maiúscula! E confirma, ratifica, consolida a vocação cultural da capital do país, por mais que insistam em fazer de Brasília um grande dormitório da burocracia nacional. Não surpreendeu a qualidade dos filmes exibidos neste fim de semana, a começar pelo empoderado curta Das raízes às pontas, de Flora Egécia e do longa magnífico A repartição do tempo, de Santiago Dellape. No sábado foram para telona ainda Vesti la Giubba, de Johil Carvalho; e o documentário Cícero Dias — O compadre de Picasso, uma verdadeira obra de arte de Vladimir Carvalho.

Nas sessões de domingo, três filmes também merecem destaque. A cineasta Tânia Quaresma tirou poesia do lixo e manteve a pegada ecológica com Catadores de história. Mas confesso que os filmes mais aguardados por mim eram o curta Rosinha, de Gui Campos; e o documentário telúrico Cora Coralina — Todas as vidas, dirigido por Renato Barbieri.

Premiado em Gramado, Rosinha grita amor em cada “fotograma” de Maria Alice Vergueiro, Andrade Junior, João Antonio. É um punk rock apaixonante, rápido, profundo, surpreendente! Em Cora, Barbieri apresenta um filme sereno, sem barroquismos, mas poético. Lágrimas brotaram em pelo menos três momentos do longa. Afinal, era Cora, Cora Coralina.

Ah, o cinema brasiliense vai bem, obrigado...

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