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Mauro Giuntini: Festival dá vazão à pujante produção nacional

Em artigo, o cineasta e professor da UnB analisa algumas das produções exibidas na 49ª edição do evento

postado em 28/09/2016 07:00 / atualizado em 27/09/2016 16:59

Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press

Em sua 49ª edição, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reafirmou seu compromisso em dar visibilidade e promover o debate sobre o que existe de mais pujante na produção cinematográfica nacional. Visando ressaltar alguns aspectos diferenciados da negociação entre tradição e inovação no cinema ficcional exibido na Mostra Competitiva, serão brevemente analisadas algumas estratégias narrativas adotadas em quatro filmes.

 

Deserto, de Guilherme Weber, conta a história de um grupo de artistas circenses que se instalam em uma cidade abandonada e assumem novos papeis. Trata-se de uma narrativa atemporal, contada linearmente, com uma direção de arte deslumbrante combinada com uma fotografia sofisticada resultando em uma irresistível atmosfera de realismo fantástico. As atuações são intensas e imprimem organicidade mesmo em diálogos literários. Como a história é fácil de entender o foco narrativo recai sobre as personagens e as atuações se destacam.


Em
Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Jr., o ponto de partida é arquetípico. Existe um equilíbrio inicial que é rompido. Madalena desaparece e seu marido, Elon, parte em uma jornada na tentativa de restituir a ordem perdida. Enquanto o marido vaga por Belo Horizonte, a câmera revela uma paisagem externa urbana, caótica e opressora que ecoa e reflete o estado de espírito perturbado de Elon. A fotografia é escura e silhuetada desenhando o protagonista por meio de sombras em longos travellings com câmera na mão. A narrativa desenrola-se na ordem cronológica e, comedidamente, vão sendo dadas pistas sobre o que pode ter acontecido, promovendo um engajamento ativo do espectador na compreensão da história que termina com um final aberto.

Malícia, de Jimi Figueiredo, mostra com naturalismo um único enredo com múltiplos protagonistas, no qual um casal separado e seus novos parceiros são entrelaçados numa trama de desvio de propina. As personagens são mostradas um pouco em seu ambiente de trabalho e muito na intimidade do cotidiano doméstico em cenas muito iluminadas. A narrativa é predominantemente linear com alguns flashbacks explicativos que revelam aspectos das vidas das personagens que facilitam a compreensão da história.


Por sua vez,
O último trago, de Ricardo Pretti, Pedro Diogenes e Luiz Pretti, apresenta um experimentalismo retrô com uma cadeia de causa e efeito minada disposta em três blocos narrativos assimétricos de histórias que ocorrem em tempos diferentes. O filme não oferece nenhum artifício narrativo com força suficiente para compensar a ruptura da causalidade entre as cenas, comprometendo a compreensão lógica da trama, assim como sua comunicabilidade. Resta ao espectador o arrebatamento sensorial provocado pela virtuose fotográfica e o encantamento das músicas cantadas e tocadas em cena.

Mauro Giuntini

Cineasta e professor da UnB, frequenta o festival desde 1986

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