Longa de Felipe Bragança com Cauã Reymond abre o Festival de Brasília

O filme narra o encontro entre um adolescente e uma índia na fronteira do Brasil com o Paraguai: história recupera parte da formação da identidade brasileira

postado em 14/09/2017 10:38 / atualizado em 14/09/2017 10:53

Nahima Maciel

Felipe Bragança/Divulgação

O diretor Felipe Bragança vê na adolescência uma idade em que as pessoas são mais flexíveis e tolerantes, por isso escolheu esse momento para ambientar seu longa-metragem. Inspirado em dois contos do escritor Joca Reiners Terron, Não devore meu coração é ambientado em cidade da fronteira com o Paraguai e revisita uma parte da história do Brasil que o diretor considera fundamental para a formação da identidade brasileira.

No longa, que se passa nos dias de hoje, um adolescente se apaixona por uma índia e é irmão de um agroboy que vive um cotidiano perigoso ao se envolver com uma gangue de motoqueiros. “O olhar adolescente é um olhar que ainda se espanta e se comove com as coisas. Para mim, atravessa muito esse lugar do juvenil, do adolescente, da descoberta mesmo. Cinema é uma aventura e acho que o olhar juvenil é sempre aventuroso. Acho que me ajuda a criar”, avisa o cineasta.



Não devore meu coração foi exibido no Festival de Sundance, no início do ano, e provocou reação que surpreendeu o diretor. O filme também esteve na mostra Generation, no Festival de Berlim. Estrelado por Cauã Raymond e Eduardo Macedo, com participação de Ney Matogrosso, o filme é um espaço no qual Bragança se debruça sobre várias questões da identidade brasileira.

“Brasília é aquele festival que inventou todos os outros festivais brasileiros”
Felipe Bragança, diretor


Apaixonado pela índia Basano, o menino Joca se depara com um passado cruel que envolve a Guerra do Paraguai e a quase extinção da cultura guarani. “O filme fala sobre a memória brasileira, a memória presente e a memória apagada. Fala da formação da identidade brasileira a partir do conflito com o Paraguai, do massacre do povo guarani na região que hoje é o Mato Grosso do Sul, e como isso determina muito quem nós somos”, avisa o diretor.

Ao descobrir o amor e olhar para o outro, Joca também vai confrontar a própria identidade. As origens dos habita ntes da região são um ponto de partida importante para que o personagem possa compreender seus próprios sonhos e desejos. “O amor deles é um catalisador para você entender o imaginário da região que, no fundo, é um dos lugares que tem a fundação para entender o que é o Brasil hoje em dia. Passa por esse amor essa relação de desejo e negação da América Latina, desejo e negação da herança nativa, tudo passa por essa relação dos dois”, explica Felipe Bragança.

A boa recepção do filme em Sundance o diretor credita à temática. O público ficou surpreso ao descobrir semelhanças entre as histórias dos indígenas na América Latina e nos Estados Unidos. “Os americanos não têm ideia das nossas origens enquanto Brasil. Pensam em outros, mas não pensam na origem indígena da nossa cultura”, diz o diretor.

Para viver o agroboy, irmão de Joca, Bragança havia convidado Cauã Raymond quatro anos antes de iniciar as filmagens. O ator leu o roteiro e gostou, mas se envolveu com outros projetos enquanto o diretor viabilizava o filme. “E um dia ele me ligou dizendo que estava fazendo outro filme sobre motos”, conta o diretor. “Falei que não era problema, tem muitos filmes possíveis com moto. E a gente tinha muitas cenas de perseguição de moto que precisavam de uma certa habilidade. E ele já vinha treinando. Então foi excelente.”

A noite de sexta-feira (15/9) não é a primeira de Bragança no Festival de Brasília. Ele já esteve por aqui com A alegria, que levou os Candangos de melhor ator coadjuvante e melhor direção de arte em 2010. O carioca também tem experiência na confecção de roteiros premiados como Praia do futuro e O céu de Suely, ambos dirigidos por Karim Aïnouz. “Brasília é aquele festival que inventou todos os outros festivais brasileiros”, acredita o cineasta.

 

Entrevista / Felipe Bragança


O longa tem uma conexão com A alegria, sua parceria com Marina Meliande? E como chegou aos contos de Joca Reiners Terron?
Tem conexão direta com Alegria, sim. Quando passei A alegria em Cannes, em 2010, um amigo perguntou se já tinha lido os contos do Joca Terron. Ele fala muito sobre adolescência, só que uma adolescência diferente, essa adolescência das cidades pequenas, do Centro-Oeste, da fronteira com o Paraguai. Quando voltei ao Brasil, comprei o Curva do rio sujo e li o livro inteiro. Eu me apaixonei por dois contos, um que falava de um amor adolescente e outro que falava de um grupo de motoqueiros numa cidade do interior. E esses contos ficaram girando na minha cabeça. Resolvi conhecer a região e, desde 2012, comecei a fazer viagens para lá já pensando em transformar num filme, em partir da premissa desse olhar juvenil em relação a esse espaço do Brasil, que tem essa relação de memória histórica de guerra e da formação da identidade brasileira.

Por que o olhar adolescente te interessa tanto?
Olha, não é uma coisa que eu me prepare muito não, vem naturalmente. Mas acho que passa pela ideia de que são pessoas que aceitam e assumem que estão nesse lugar no mundo onde tudo é muito misterioso, onde tudo é muito possível e, ao mesmo tempo, muito impossível. Acho que carrega um sentido de aventura, de perigo e de descoberta de mundo que eu acho que talvez seja com o que me identifico. De alguma forma, me interessa como dispositivo para criar, falar das coisas muito concretas através do olhar de alguém que ainda se espanta com as coisas. Acho que tem a ver com espanto num mundo em que as pessoas estão tão acostumadas com tudo e estão tão desinteressadas, não se comovem tanto com as coisas.

São 50 edições do Festival de Brasília e você já esteve por aqui algumas vezes, não na direção de um filme, mas como parte da equipe. O que o festival significa para você?
Brasília é aquele festival que inventou todos os outros festivais brasileiros. Quando a gente pensa os filmes que pensam o cinema brasileiro, Brasília está ali como referência eterna e também de transformação. Quando me ligaram com o convite para passar o filme aí, eu fiquei super-honrado. A gente sabe da quantidade de filmes centrais para a história do cinema brasileiro que estiveram em Brasília. É um festival que leva muito a sério os filmes no sentido de discutir, pensar, refletir sobre o que está acontecendo. A gente esteve aí com A alegria (parceria com Marina Meliande), em 2010. É meu primeiro longa solo e é incrível voltar, vai ser uma emoção diferente, bem especial.

Não devore meu coração

Filme de Felipe Bragança. Com Cauã Raymond, Eduardo Macedo e Adeli Benitez. Sexta-feira (15/9), às 19h, no Cine Brasília, só para convidados.

Últimas Notícias

Últimas Notícias Veja Mais

* * *