Ismael Caneppele estreia com 'Música para quando as luzes se apagam'

O longa faz parte da mostra competitiva na noite de sábado (16)

postado em 16/09/2017 07:00 / atualizado em 15/09/2017 20:12

Ricardo Daehn

Zeppelin Filmes e Besouro Filmes/Divulgacao

Autor do sucesso Os famosos e os duendes da morte, o gaúcho Ismael Caneppele não segreda o estágio, com a primeira vinda a Brasília, justamente para lançar o filme que marca a estreia dele na direção: “Estou no lugar de um novato”. Chegar à “maior janela para o cinema autoral no Brasil”, que respira a palavra tradição, custou 13 meses de filmagens que totalizaram mais de 300 horas para a feitura de Música para quando as luzes se apagam. O documentário revela uma relação intermediada constantemente por lentes de cinema. “Nunca encontrei a protagonista sem ter uma câmera”, conta o cineasta, sobre a jovem Emelyn Fischer.

“Emelyn não apresentava um antagonismo cinematográfico: na história dela, não há vilões aparentes, apesar de ser trans, no interior do Rio Grande do Sul. Ela era muito bem-aceita, e a irmã também é trans. Vizinhos, pais, avós e primos, todos têm com boa relação com ela”, conta Caneppele. Sem conflito aparente no filme, Julia Lemmertz foi “viver o cotidiano da Emelyn”, nas palavras do diretor. Julia criou intimidade com a mãe da moça, até cozinhando com avós dela. “Uma menina que vive como menino, e que, apesar de namorar garotas, usar cueca, querer ser boyzinho, não mudou de nome”.



A origem do filme Música... é complexa e coincide com a narrativa de um livro escrito, 10 anos antes, por Caneppele. “Meu livro também era um texto documental. Veio de páginas de um diário que uma outra menina me entregou. Foi o que se salvou, porque a mãe havia jogado quase tudo no fogo. Houve uma crise familiar forte. Eram coisas muito pesadas para uma menina de 14 anos escrever”, relembra. Sem ordem cronológica, seis páginas “de enorme força narrativa” chegaram às mãos de Caneppele, que as trasformaram em livro. Ele só mudou o gêreno para um menino.

Voltando ao filme, que custou R$ 250 mil, o autor, nascido na interiorana Cruzeiro (RS), conta que, na fita, o objetivo foi retornar aos lugares em que a personagem original (do livro) tinha passado e contemplar, com câmeras atentas, situações similares às da protagonista. “Busquei os ambientes do diário: a praça, a pista de skate, o bar, a rodoviária. Tudo com a câmera a distância, como um voyeur desta realidade”, diz o cineasta.

Emelyn quis fazer o filme, e, aos 18 anos, teve o domínio total na decisão de como se apresentar nas telas. O foco do documentário cerca a discussão do processo de se contar uma história. À medida em que se aproxima da protagonista, esta, progressivamente, se identifica com os modos de um rapaz inseguro que tem o nome de Bernardo. “Apesar de tratar de questões que podem ser muito angustiantes, acho que é um filme bem cerebral, não saberia se solar ou noturno. Ele investiga o processo de ficcionalização da realidade. O cinema está em primeiro plano, com metalinguagem forte”, conclui.
 
“É um filme sobre a alegria de criar. Neste sentido, talvez solar. Traz algo fundamental neste estágio de tristeza em que vivemos no Brasil. Espero que os espectadores saiam, potencializados, para criar e viver uma vida criativa”
Ismael Caneppele, diretor de Música para quando as luzes se apagam
  
 
As cidades de Lajeado, Estrela, Arroio do Meio e Cruzeiro (RS) despontam na tela, no longa do cineasta estreante. Dada como um “paraíso perdido”, por causa do precoce distanciamento entre Caneppele e a região Sul, a realidade local e as especulações da área sempre estiveram coladas na literatura do autor e cineasta. “Acho minha literatura bem ficcional, por mais que seja pessoal. Sempre quis saber das coisas na minha ausência e revisitar vivências, na ficção”, conta.
 
Corroteirizado por Germano de Oliveira (também montador do longa), Música para quando as luzes se apagam cerca universo performático comum às vivências do também ator Caneppele. E não deixa de remexer na massa crítica do escritor gaúcho. “Na literatura, levanto a bandeira da livre sexualidade e o mínimo possível de rótulos. Os rótulos aprisionam muito as pessoas. A gente deixa de viver experiências, em função de tags. Hétero, homo, bi, tri, pan — acho tudo perigoso: são formas que a linguagem encontra de podar nossas experiências”, conclui.
 
Os curtas da noite

O peixe, de Jonathas de Andrade (2016, 23min, PE)
Uma vila de pescadores pratica o ritual de abraçar os peixes após a pesca. O gesto afetuoso que acompanha a passagem para a morte atesta uma relação entre espécies pautada em força, violência e dominação.

Nada, de Gabriel Martins (2017, 27min, MG)
Bia acaba de completar a maioridade. O fim do ano se aproxima e junto dele o Enem. A escola e os pais de Bia a pressionam para que ela decida em qual curso vai se inscrever. Bia não quer fazer nada.

Peripatético, de Jéssica Queiroz (2017, 15min, SP)
Simone, Thiana e Michel são jovens moradores da periferia de São Paulo. Em meio às demandas do início da fase adulta, um acontecimento histórico em maio de 2006 na cidade de São Paulo muda o rumo de suas vidas para sempre.
 
Mostra competitiva, no Cine Brasília (EQS 106 / 107)
Às 19h, com os curtas O peixe (2016, PE) e Nada, (2017, MG). Apresentação do longa Música para quando as luzes se apagam, de Ismael Caneppele (2017, 70min, RS, 14 anos). Às 21h30, com os curtas Peripatético, de Jéssica Queiroz (2017, SP) e Vazante, de Daniela Thomas (2017, 116 min, SP, 14 anos). 


 

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