Filme baiano entra na mostra competitiva afirmando o poder da amizade

Café com canela, longa da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio, é o destaque na terceira noite competitiva do festival. Superação está em pauta

postado em 18/09/2017 07:00 / atualizado em 18/09/2017 15:50

Ricardo Daehn

 

O teor de visibilidade dado pela presença no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e a certeza de não ver o filme Café com canela relegado “à prateleira” são motivo de comemoração para os colegas Ary Rosa e Glenda Nicácio, que, juntos, assinam a direção do longa baiano concorrente a prêmios Candango. “Por ser um primeiro longa de nós dois, achávamos que estar em Brasília seria meio fora de rota. Estar aqui no festival é algo muito grande”, comenta a diretora Glenda Nicácio.

Vivendo há mais de sete anos no interior, a dupla de sócios mineiros, com o filme e o novo cotidiano, tem, além do saldo de amizade, a “descoberta da Bahia” como motivação. A ampliação do circuito universitário baiano (com ambos formados pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) sacramentou o desejo de desbravamento profissional. “Vimos o Brasil acrescentado, num momento político do passado, em que vivenciamos a descentralização”, simplifica a diretora Glenda Nicácio. Ela aponta que a incursão em longa resultou na história de “duas mulheres comuns que desbravam o interior de uma cidade”.



A partir de um orçamento de R$ 800 mil, Café com canela tem por cenário três municípios do Recôncavo Baiano: Cachoeira, São Félix e Muritiba. Sem a rigidez de cenas de estúdio, o longa busca arejamento no enredo. Num clima de vizinhança, Margarida e Violeta são as protagonistas que compartilham dores e as pequenas alegrias do dia a dia. “Margarida anda em momento depressivo, pela perda de um filho, e está, há anos, em casa. Violeta, uma moradora de Cachoeira, passa a fazer regulares visitas”, explica a diretora.

Na tela, Margarida é interpretada por Valdinéia Soriano, enquanto Violeta ganha a representação da atriz Aline Brunne. A diretora Glenda observa que o longa é formatado pelas transformações regulares dadas pelos pequenos encontros. “São mudanças revolucionárias, no dia a dia. Encontros e afetos, aliás, são universais. E o filme ainda traz a graça inata dos saberes e da tradição”, comenta. Se uma crise familiar cerca a personagem de Violeta, parceria e companheirismo se instalam no dia a dia de um casal “bastante interessante” formado por Ivan e Adolfo, como adianta a diretora. “Apostamos na desconstrução do ator Babu Santana, sempre mais rude e massificado em papéis como os de traficante. No filme, ele vive o doutor Ivan, que tem envolvimento com um homem mais velho chamado Adolfo”, conta Glenda Nicácio.


Cinema de integração

Também diretora de arte de Café com canela, Glenda celebra a extensão da representatividade das mulheres no festival, atentando para as obras de diretoras que sempre admirou, entre as quais Daniela Thomas (do longa Vazante) e Juliana Rojas (do curta A passagem do cometa). Estreante, ao lado de Ary Rosa, ela comenta a disposição para fomentar o cinema do interior, “que é nosso lugar”. “Apostamos numa proposta estratégica de economia criativa, norteada pela própria falta de estrutura para cinema do interior da Bahia. A dinâmica de produção foi integrar a sociedade com a feitura do filme. Em vez de importar tudo de Salvador, queríamos fomentar oficinas”, comenta Glenda Nicácio.

As bases financeiras para a realização de Café com canela vieram de editais da TVE Bahia e da Ancine e resultaram em detalhes como a capacitação da equipe de cenografia e arregimentação de cooperativa de costureiras da comunidade de Maragogipe (Bahia). Conhecido por Nova Cachoeira, o bairro de Caquende serviu de locação. “Ele é dos mais tradicionais, com gente muito respeitada. É habitado pela velha guarda da cidade. Vinda de lá, a personagem Violeta é uma cidadã mais nova, que toma partido e tenta ajudar todo mundo”, explica a cineasta.

Todo calcado por protagonistas negros, Café com canela, como reforça o codiretor Ary Rosa, não indica o levantamento de questões relacionadas a preconceito. “Apresentamos uma cidade com predominância de negros. Há, claro, naturalidade na representação dessa sociedade”, comenta Ary Rosa. “A cor dos atores não é uma bandeira: é mais do que isso! É um lugar de fala, é a revelação de localizar onde estamos. Toda a tradição da cidade é afrobarroca. Não teria como ser diferente”, completa Glenda Nicácio.

O curta da noite 

As melhores noites de Veroni
De Ulisses Arthur. (2017, 15min, AL, 12 anos)
Enquanto seu marido passa os dias na estrada, Veroni encontra nas noites uma forma de transcender e responder a seus dilemas amorosos.

Mostra Competitiva
Às 21h, no Cine Brasília (EQS 106/ 107), com o curta As melhores noites de Veroni, de Ulisses Arthur (2017, AL) e o longa Café com canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio (2017, 102min, BA, classificação indicativa livre). Ingressos, R$ 12 (e R$ 6, a meia), à venda, com duas horas de antecedência.

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