Longa de encerramento do Festival de Cinema aposta em ficção e literatura

O filme Arábia, último da mostra competitiva, faz referência ao clássico de James Joyce e à vida de operários em Minas Gerais

postado em 23/09/2017 07:31 / atualizado em 23/09/2017 16:28

Ricardo Daehn

Credito: Still/Reprodução
 
Ao longo de três anos, os diretores João Dumans e Affonso Uchôa investiram em Arábia, longa-metragem que trança os percursos de dois personagens: o operário Cristiano (Aristides de Sousa) e um desconhecido dele, o jovem André (Murilo Caliari). O título do filme que encerra a mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro mantém o nome do conto do irlandês James Joyce que inspirou a produção.



“O material foi traduzido para a realidade de Ouro Preto (Minas Gerais) e transformado em algo completamente diferente. O título faz alusão a As mil e uma noites, com narrativas ancestrais que se completam e puxam outras histórias”, comenta o cineasta Affonso Uchôa.
 
Arábia, o filme, é estruturado em histórias paralelas que se cruzam e se completam. “Queremos estabelecer uma ponte entre a vida proletária e o universo da literatura. Mostrar a grandeza das histórias comuns. O quanto a vida de trabalhadores ou de viajantes carregam histórias potentes, mesmo que tendam a passar anônimos pela vida. São pessoas que constroem verdadeiros épicos”, explica o cineasta mineiro Affonso Uchôa. A parceria dele com o colega João Dumans reafirma uma amizade antiga que permeou o longa anterior A vizinhança do tigre (2014), no qual Dumans foi assistente de direção, roteirista e montador.

Diário de anotações

“Aristides de Sousa era ator de A vizinhança, e construímos uma história especialmente para ele. A ideia foi romper a associação entre literatura, celebridade e intelectuais”, conta Uchôa. Na trama de Arábia, André, um jovem morador da Vila Operária, está em bairro vizinho à velha fábrica de alumínio em Ouro Preto. Nos arredores, descobre o caderno de anotações de um operário. Em pauta, vidas se cruzam, em momento improvável, movido pelas memórias do trabalhador, levantando fatos de uma década.

“Cristiano, um dos protagonistas, teve os 10 últimos anos passados na estrada. Atravessa cidades e oportunidades de trabalho. Acho ele atual, já que a exploração e opressão constante da classe trabalhadora é algo atemporal. Sondamos o que é ser trabalhador e quais as condições atuais dos trabalhadores no país”, comenta Affonso Uchôa.

Arábia se propõe, nas palavras do cineasta, a examinar o que resta de identidade na classe trabalhadora brasileira. “Temos o total esfacelamento da classe operária, que não se reconhece mais. Não há como se manter requisitos básicos de integração: os sindicatos não fazem mais sentido; há a reforma, que é basicamente um desmonte da CLT, e os partidos políticos que se mostravam como representantes dos trabalhadores, cada vez menos revelam esta função”, reforça o concorrente a Candango.


Outros Candangos

Feito a partir de R$ 430 mil, Arábia teve mais de 65 horas de gravação. A narrativa é ampla, envolvendo cidades como Belo Horizonte, municípios de Contagem, Brumadinho e fazendas da região de Ouro Preto. Profissionais ligados a produções vencedoras de prêmios Candango, como o diretor de fotografia Leonardo Feliciano (de Branco sai, preto fica) e Gustavo Fioravante (no som, como em Elon não acredita na morte). Editor dos longas de Julio Bressane, Rodrigo Lima, com Luiz Pretti, responde pela montagem de Arábia.

“O filme tem contraste acentuado. Não tivemos medo do escuro”, diz Uchôa. Na tela estarão personagens dos atores Renan Rovida (da Companhia do Latão), Glaucia Vandevelt (do grupo Espanca) e Wederson Neguinho (premiado, no ano passado, por A cidade onde envelheço). Uchôa, na expectativa da estreia, é só alegria. “Nem como espectador estive no Festival. É uma oportunidade única! Para mim, se trata do mais importante festival de cinema do Brasil. Digo, pelo histórico de filmes premiados e que marcaram a filmografia nacional”, conclui.


Mostra competitiva
Às 21h30, no Cine Brasília (EQS 106/ 107), com o curta A passagem do cometa, de Juliana Rojas (19 min, 2017, SP, não recomendado para menores de 12 anos) e o longa-metragem Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans (96min, 2017, MG, classificação indicativa livre).



O curta da noite

A passagem do cometa
De Juliana Rojas (19min, 2017, SP). Na sala de espera de uma clínica de abortos clandestina, a recepcionista, uma paciente e uma acompanhante aguardam a passagem do cometa Halley, enquanto a médica enfrenta dificuldades com um dos procedimentos.

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