'Abaixo a gravidade', de Edgard Navarro, encerra o Festival de Brasília

O filme será apresentado antes da premiação

postado em 24/09/2017 07:00

Rebeca Oliveira /

Divulgação/50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
 
Subversivo, marginal e revolucionário. O baiano Edgard Navarro nunca buscou o caminho mais fácil ou uma comunicação direta nas produções que assina. Sendo assim, não se acomoda nem mesmo nos predicados com os quais costuma ser classificado, embora costume esbarrar em alguns deles quando tem a extensa obra analisada. Em um cenário social marcado por dualidades políticas e embates para além das telas, não haveria nome mais adequado para encerrar a 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

“Esse convite é motivo de alegria pelo reconhecimento de meu trabalho e também tem um gosto de despedida, pois encerro aqui minha carreira de cineasta”, adianta. Com exibição hoje em cerimônia para convidados a partir das 18h30 (na mesma ocasião, haverá a entrega das premiações), o longa-metragem Abaixo a gravidade junta pontas soltas deixadas pelo diretor em produções anteriores. A começar pelo título. Como um mantra, a sentença foi proferida no final de Superoutro (1989) e O homem que não dormia (2011). Edgard Navarro está habituado a causar sensações extremadas. Elas encontraram o ápice em O rei da cagaço (1977). As reações, à época, foram do encantamento pela estética ousada a aversão diante das cenas grotescas. A polêmica fita chocou ao conter escatologias e sexo explícito.

Como tantos realizadores que subiram ao palco do Cine Brasília, o soteropolitano tem ligação histórica com o evento. Entre os anos de 1982 e 1984, trabalhou em Porta do Fogo, sobre a morte de Carlos Lamarca no Sertão da Bahia. Com a película, foi premiado no Festival de Brasília. Alguns anos mais tarde, em 2005, ganhou sete troféus Candangos por Eu me lembro. Muito para quem, antes da década de 1970, estudava engenharia civil. Navarro se dedicou ao teatro na Bahia e se considerava um ator talentoso. O debute na sétima arte aconteceu apenas em 1976, quando lançou o filme Alice no país das mil novilhas, no formato super-8. Depois, fez mais quatro produções dessa forma até 1981. Em comum, as produções carregam a estética que não se prende ao ritual do filme hollywoodiano. Por e-mail, o diretor conversou com o Correio sobre a produção. A pedido dele, as respostas foram mantidas com a grafia original. 

Abaixo a gravidade
De Edgard Navarro. Com Bertrand Duarte, Everaldo Pontes, Rita Carelli, Ramon Vane e Fábio Vidal. Ficção, 109 min, BA, 16 anos
 
 
Rita Santana/Divulgação

Três perguntas // Edgar Navarro
Você é conhecido pelo cinema instintivo. Que opções estéticas, estilísticas e conceituais fez para Abaixo a gravidade?
Você me deixe! Que porra de opções estéticas, estilísticas e conceituais p... ninhuma (sic)! Eu sou mesmo um instintivo e, embora tenha estudado na academia e saiba o que é fauvismo e dadaísmo não dou a mínima pra essa classificação pernóstica que eles tentam fazer da arte. Você vai publicar isso? Quero ver! Agora falando sério: minha opção estética é a do sonho; gosto de Fellini e Pasollini e Wim Wenders. Estou brincando, detesto os três.


A frase que dá nome ao filme foi proferida no final de Superoutro e O homem que não dormia. De que maneira essas histórias se conectam?
Quando realizei Superoutro essa frase saiu da boca de um pária, morador de rua, diagnosticado como esquizofrênico, no justo momento em que ele vence o medo e num último arroubo de sua fantasia desesperada dispõe-se a atirar-se num abismo. Depois fui crescendo e vendo que tudo o que eu fazia virava matéria do que eu era... Sabe, assim? Hoje não tenho dúvida de que estava tudo desde sempre nas linhas de minha mão, nas estrelas, etc. Não vou discutir com ninguém, que cada um sabe no que deve acreditar; só sei que pra crescer tive que ‘chimbar’ um bocado! Sabe o que é chimbar?

Em um país marcado por crises em diferentes âmbitos, onde se situa Abaixo a gravidade?
Nosso filme não trata especificamente dos problemas que nos afligem no momento atual, entretanto os mesmos estão presentes o tempo todo entre as personagens centrais; não há um fotograma que não remeta a uma situação pertinente a nosso paraíso; acontece que, sendo geral, a crise diz respeito também ao âmbito pessoal; a personagem central percebe que, longe de estarem resolvidos, os muitos conflitos que a cidade grande vivia ao tempo em que ele decidiu por isolar-se no campo, na verdade hoje se encontram mais acirrados ainda. Assistimos ao reingresso de um homem idoso na atmosfera da cidade grande, conflagrada entre a dor e a miséria; aquilo se torna uma saga pessoal de superação: desse velho que está afligido também pelas dores que o sufocam — desde as doenças (como labirintite, hemorroidas ou impotência) até as dores de um amor impossível... De modo que a palavra ‘gravidade’ assume aqui uma conotação dupla: abaixo a gravidade da doença, da situação de injustiça social, de violência e desamparo daqueles que vivem abaixo da linha da miséria... E, ao fim e ao cabo, um apelo utópico — abaixo a gravidade!, como se com a repetição desse mantra fosse possível anular o efeito malévolo do quebranto que nos circunscreve a todos num círculo vicioso de miséria e horror (e aí não apenas com relação a nosso país, mas ao mundo inteiro).

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