Milhares fogem de Porto Príncipe, enquanto ondas de saques se alastram pela capital

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postado em 17/01/2010 08:16

O que dizer de uma tragédia na qual nem mesmo os médicos, treinados para salvar vidas, se dispõem a enfrentá-la? A cada minuto, as sensações de abandono e medo dos haitianos aumentam, assim como o número de mortos — segundo o governo do Haiti, o terremoto de terça-feira passada custou a vida de ao menos 200 mil pessoas. A catástrofe já é considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a pior da história, em termos de resposta. Na noite de sexta-feira, médicos e enfermeiras abandonaram 25 feridos em um hospital de campanha, alegando terem recebido ordens da própria ONU. O motivo da debandada seria a falta de segurança, ante a onda de saques que tomou conta de Porto Príncipe. Centenas de haitianos saíram ontem de armazéns comerciais carregando sacos de arroz, legumes e alimentos secos, sob o olhar dos policiais, que demoraram a agir. Desde quinta-feira, o temor da violência e de fortes réplicas forçou milhares de haitianos a fugirem da capital.

“As pessoas estão fugindo para muito longe, para as cidades de Jacmel e Cap Haitian. Elas vão para qualquer lugar distante de Porto Príncipe”, admitiu ao Correio, pela internet, a assistente administrativa Geraldine Padovanive Scown, 24 anos, moradora de Pétionville, bairro de Porto Príncipe. Se pudesse, ela garante à reportagem que já teria partido. “Para onde posso ir sem dinheiro?”, questionou. “Não existe vida aqui. Agora, estão queimando os mortos, porque já não há mais lugar para depositá-los. Quase toda a população está dormindo nas ruas”, acrescentou. Desesperada, ela pergunta ao repórter: “Você pode ajudar o Haiti?” E emenda: “Precisamos de uma arma para nos defender. Milhares de presos saíram da penitenciária destruída e estão aqui para matar pessoas”. Segundo as autoridades, seis mil detentos escaparam.

O empresário William McIntosh, 39, contou à reportagem que a mulher e os filhos deixarão a capital nas próximas horas. “As pessoas estão partindo para outras províncias ou para a República Dominicana”, comentou. Ele precisará ficar. Na verdade, o que restou da capital haitiana depende de seu trabalho. William ajuda a gerenciar a companhia de caminhões-pipa Freshe Lokal. “Nós temos enviado 52 caminhões, cada um com 4,5 mil litros d’água, duas vezes ao dia. Algumas de nossas mulheres trabalham também, então estamos tirando nossos filhos da cidade”, afirmou. De acordo com ele, a situação é “muito terrível” nas ruas. “Não há mais casas, nenhum prédio ficou de pé, é um verdadeiro desastre. A cúpula do presidente René Préval está reunida em uma delegacia de polícia perto do aeroporto, tentando reerguer o governo.” Préval voltou ontem a agradecer ao mundo pela ajuda humanitária e comparou a destruição a um bombardeio. “Os danos que vi aqui podem ser comparados aos danos que você veria se o país fosse bombardeado por 15 dias. É como em uma guerra”, disse à agência Reuters.

Os sobreviventes dessa “guerra” perambulam a esmo pelas ruas — segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, são 50 mil apenas na Praça Champ de Mars — e se agarram a qualquer coisa que os mantenha vivos. Cada vez que a bancária Jozeth Guillaume, 39, se depara com alimentos jogados pelas ruas, não pensa duas vezes. “Moro em Peguy Ville, uma pequena área dentro de Pétionville. Temos catado o que encontramos, como frutas e verduras. Muitos de nós estamos com medo”, admitiu à reportagem. Ela relatou que na sexta-feira, por volta das 15h (18h em Brasília), corpos foram borrifados com formol. “Tenho circulado por Porto Príncipe com as janelas do carro fechadas e o ar ligado. Vi pessoas com máscaras, com casca de laranja no rosto ou com pasta de dente ao redor do nariz. Além do cheiro dos mortos, muitas pessoas fazem as necessidades nas ruas.”

De volta à vida
Em meio a tanta dor, o Haiti teve ontem dois bálsamos. Nos restos de uma casa, bombeiros russos retiraram dos escombros um menino. Senvilo Ovri, 11 anos, contrariou todos os prognósticos. Estava vivo, apesar de fragilizado. Do lado de fora, a multidão acompanhou o resgate e aplaudiu. Em outro ponto de Porto Príncipe, duas pessoas, com vida, foram localizadas nos restos do Caribe Market, um prédio de cinco andares.

Segundo a agência Reuters, os socorristas conversaram com a garota Ariel, 17 anos, e um menino. Ambos contaram estar sem ferimentos, mas sedentos. “Eles podem ver a luz do dia e, à noite, enxergam luzes da torre de uma rádio. Só não conseguimos vê-los”, afirmou Charles McDermott, porta-voz de uma equipe de resgate da Agência Federal dos EUA de Gerenciamento de Emergências (Fema). Charles acrescentou ter recebido informações de que mais cinco haitianos estariam com vida sob as ruínas.

Do susto ao alívio
Arquivo Pessoal


“Tenho de dizer que sou uma pessoa de sorte. Minha casa ficou destruída e meu filho estava lá dentro. Ele conseguiu correr quando viu as paredes tremerem. Graças a Deus, ele está bem. Ainda assustado, mas vivo”

Arquivo Pessoa
Jozeth K. Guillaume, bancária, 39, moradora de Porto Príncipe

 

 

 

 

 

Obama, Bush e Clinton lançam fundo

O terremoto no Haiti originou “uma das maiores operações de ajuda” da história dos Estados Unidos, declarou ontem o presidente Barack Obama, ao lado dos antecessores, George W. Bush e Bill Clinton, que foram encarregados de arrecadar recursos para as vítimas. Os dois ex-presidentes aceitaram dirigir o “Fundo Clinton-Bush para o Haiti”.

O presidente americano advertiu que a distribuição da ajuda no Haiti representa um “desafio enorme” para os socorristas. Segundo Obama, a ajuda ao pequeno país caribenho deve durar “meses e anos”. “Os Estados Unidos continuam unidos com o povo do Haiti”, acrescentou Obama, que tem repetido diariamente os discursos públicos para informar os cidadãos americanos sobre as ações de seu governo para enfrentar o desastre no país caribenho.
“Ao unir esforços desta maneira, esses dois líderes enviam uma mensagem inconfundível ao povo do Haiti e ao mundo”, destacou Obama, em tom solene. “Seguimos unidos com o povo do Haiti, que tem demonstrado tamanha capacidade de resistência, e ajudaremos na recuperação e reconstrução.”

Enquanto isso, a secretária de Estado, Hillary Clinton, chegou ontem ao Haiti, decidida a contribuir para superar os problemas de logística. Ela rejeitou as críticas segundo as quais a ajuda internacional se acumulava no aeroporto de Porto Príncipe. “Não é justo, não é justo.”

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