ASCENSÃO E QUEDA

Reconstrução do Haiti custará pelo menos 15% do PIB

Conflitos étnicos, corrupção, bloqueios econômicos e catástrofes naturais minaram o mais próspero país da América Central do século 18, chamado de a Pérola do Caribe

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postado em 17/01/2010 08:35 / atualizado em 20/01/2010 18:02

Ricardo Allan

Mais de dois séculos de conflitos políticos sangrentos, governos corruptos, isolamento comercial e desorganização institucional transformaram a Pérola do Caribe, como o Haiti foi conhecido no século 18, quando ainda era uma possessão francesa, no país mais pobre das Américas. Uma série de acontecimentos — agravada por catástrofes naturais — minou a mais rica e próspera economia caribenha, destruindo as indústrias, as plantações e as exportações. Hoje, 80% da população vive com menos de US$ 2 por dia, abaixo da linha de pobreza. A situação vai piorar com a tragédia humana causada pelo terremoto da última semana, que, pelas contas do Fundo Monetário Internacional (FMI), custou pelo menos 15% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma das riquezas produzidas num ano.


Profundo conhecedor da história do país, o embaixador Paulo Cordeiro, que chefiou a missão permanente do Brasil no Haiti de julho de 2005 a fevereiro de 2008, explica que a glória econômica começou quando a Espanha cedeu a parte ocidental da Ilha de Hispaniola à França em 1697. A nova colônia, cujo primeiro nome foi Saint-Domingue, cresceu com base no trabalho escravo e na produção em larga escala de itens de luxo para a época, como açúcar, café, cacau e tintas. “O que hoje conhecemos por Haiti era uma colônia extremamente rica e importante para a metrópole, que dependia dela para a obtenção de muitas matérias-primas. Mas, da perspectiva do explorador, a grande concentração de escravos na área foi um erro”, diz Cordeiro, atual embaixador no Canadá.

O movimento abolicionista venceu em 1793 e resultou na independência, em 1804, da primeira nação do mundo formada por ex-escravos. Na visão do embaixador, a destruição de indústrias e a queima das plantações que se seguiram à revolução e à tentativa do imperador francês Napoleão Bonaparte de retomar a ilha são o marco inicial da pobreza haitiana (veja quadro). O país teve que pagar uma indenização de 150 milhões de francos em ouro para a ex-metrópole. Depois disso, o governo autônomo proibiu que brancos e seus filhos mulatos fossem proprietários de terras. A posterior divisão fundiária desorganizou a produção agrícola. O segundo grande golpe na economia nacional foi o quase completo isolamento imposto pelo mundo durante 56 anos depois da revolta vitoriosa dos negros. Os demais governos temiam que seus escravos seguissem o exemplo e lutassem pelo poder.

“A economia haitiana era extremamente organizada e voltada para a exportação. Depois das turbulências que se seguiram a 1804, ela acabou se transformando basicamente numa atividade de subsistência, com poucos fazendeiros ainda produzindo. Os Estados Unidos só reconheceram o país depois da Guerra da Secessão, que terminou em 1865”, afirma Cordeiro. Em 1844, Saint-Domingue perdeu dois terços da Ilha de Hispaniola, com a independência da República Dominicana. Depois da ocupação dos EUA entre 1915 e 1935, o governo haitiano foi dominado por uma sucessão de ditadores militares que ascendiam assassinando o tirano anterior. Esses regimes tomaram muito dinheiro emprestado no exterior para comprar armas e se manter no poder.

Oposição abafada

O governo corrupto e obscurantista de François Duvalier, o Papa Doc, de 1957 a 1971, distribuiu monopólios de produtos para famílias amigas, que o apoiavam. Mais do que atividade econômica, a produção virou sinônimo de prestígio. O privilégio afastou os verdadeiros empreendedores, que queriam atuar de forma capitalista. Para abafar a oposição, Papa Doc matou também a classe média, dando início ao incrível fosso atual entre o 1% mais rico da população, que domina mais de metade das riquezas, e os outros 99%, que se engalfinham pelo resto. Quem pôde imigrou para o Canadá, os Estados Unidos e a França, principalmente. A administração de seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, de 1971 a 1986, montou indústrias que só maquiavam produtos importados, modelo que faliu logo.

Na avaliação de Paulo Cordeiro, o terceiro grande golpe na economia foi o embargo comercial imposto pelos EUA em 1991 e o bloqueio total do Haiti em 1994, com o objetivo de reempossar o presidente deposto Jean-Bertrand Aristide. “Isso acabou com o restinho de atividade econômica que ainda havia. O país nunca mais conseguiu se reerguer. Hoje, exporta alguma coisa de produtos como manga, óleos, café e cacau, mas a principal fonte de renda é o dinheiro enviado pelos haitianos expatriados, que corresponde a 25% do PIB do país”, diz. A pá de cal foram os quatro furacões que arrasaram 70% das terras agrícolas. Hoje, o governo dos EUA doa US$ 150 milhões por ano, no que é seguido pela União Europeia, no mesmo volume, e o Canadá (US$ 100 milhões).

Com a tragédia, o FMI anunciou um empréstimo de US$ 100 milhões ao Haiti, quantidade idêntica à prometida pelo Banco Mundial (Bird). Os EUA garantiram que vão mandar uma ajuda extra de US$ 100 milhões. A contribuição brasileira será de US$ 15 milhões. A Organização das Nações Unidas (ONU) tenta angariar pelo menos US$ 560 milhões em doações. No ano passado, os credores do Haiti concordaram em perdoar uma dívida de US$ 1,2 bilhão e já existe um movimento para que o US$ 1,8 bilhão restante seja esquecido. “A esperança é de que esse terrível acidente faça a classe política haitina se unir para usar as doações para desenvolver o país”, deseja Cordeiro. A recuperação econômica nascida em 2005, com crescimento contínuo, vai ser abortada.
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